Uma Voz Chamada Francisca é um longa-metragem brasileiro de drama, dirigido por Lamarck Dias e roteirizado por Vaniele Oliveira. Produzido no Cariri cearense, o filme é inspirado na história de Francisca Augusto da Silva, adolescente assassinada pelo ex-noivo em Aurora, em 1958, e que posteriormente se tornou uma figura de devoção popular conhecida como Mártir Francisca.
Produzido pela Lamarck Promoções, em coprodução com a MonteCine e a Restinga Filmes, o longa foi rodado integralmente em Aurora, principalmente no Sítio Tipi, e mobilizou profissionais do audiovisual, artistas e moradores da cidade.
A primeira exibição pública ocorreu em 8 de setembro de 2025, na Praça Padre Cícero, em Aurora, reunindo mais de duas mil pessoas. No dia seguinte foi realizada uma sessão para convidados no Orient Cinemas, no Cariri Shopping, em Juazeiro do Norte.
Em 2026, o filme foi selecionado para o 8.º FestCine Pedra Azul, festival internacional realizado em Domingos Martins, no Espírito Santo, após concorrer com mais de 1.500 produções inscritas de diferentes países. No mesmo ano, integrou a primeira Mostra O POVO+ de Cinema e foi disponibilizado na plataforma O POVO+ em 13 de agosto.
Enredo
A narrativa acompanha Francisca, uma jovem que vive no interior de Aurora, e seu relacionamento com Chico, rapaz pertencente a uma família tradicional. Depois de alguns meses de namoro, Chico pede a mão de Francisca em casamento, mas o pai da jovem recusa o pedido, pois pretendia casar primeiro a filha mais velha.
Inconformado, Chico termina o relacionamento. Francisca aceita a separação e procura seguir sua vida, mas o rapaz muda de ideia e passa a insistir para que os dois reatem. A insistência evolui para perseguição e culmina no assassinato da jovem, fato que posteriormente dá origem à devoção popular em torno de Francisca.
O filme aborda a trajetória da personagem antes de sua transformação em símbolo religioso, relacionando o episódio histórico à discussão contemporânea sobre violência contra a mulher, feminicídio, relações de gênero e religiosidade popular.
Contexto histórico
Francisca Augusto da Silva nasceu em 21 de fevereiro de 1941, no Sítio Creoulas, na zona rural de Aurora. Era filha dos agricultores Manoel Pedro Ferreira e Júlia Augusto da Silva.
Aos 16 anos, estava noiva do agricultor Francisco Ferreira Barnabé, conhecido como Chico Belo. Os relatos sobre o rompimento apresentam versões distintas, mas convergem para o término do relacionamento e a posterior recusa de Francisca em retomá-lo.
Em 9 de fevereiro de 1958, Francisca caminhava por uma estrada com irmãos mais novos quando foi abordada pelo ex-noivo. O processo criminal nº 48/1958, da Comarca de Aurora, registrou que a adolescente recebeu onze ferimentos provocados por uma faca.
Após sua morte, desenvolveu-se uma devoção popular associada ao local do crime. Uma capela passou a receber fiéis, promessas, velas, flores e objetos votivos. A tradição religiosa fez com que Francisca passasse a ser conhecida regionalmente como Mártir Francisca ou "a moça da capelinha".
A história também foi abordada no documentário Ela Não Queria Ser Santa, produzido pelo O POVO+ e lançado em 2024, que reuniu as trajetórias de Francisca, Maria de Bil e Menina Benigna, três mulheres cearenses vítimas de assassinatos posteriormente associados a manifestações de devoção popular.
Produção
Desenvolvimento e pesquisa
Lamarck Dias conheceu a história de Francisca durante a infância em Aurora. O diretor ouvia relatos de sua avó, conhecida como Dona Fransquinha de Vicente Jerônimo, e posteriormente passou a acompanhar manifestações religiosas realizadas em memória da jovem. A história também havia sido representada em apresentações teatrais comunitárias durante festejos religiosos do município antes de ser adaptada para o cinema.
O projeto foi desenvolvido com o objetivo de recuperar a história da vítima e relacioná-la às discussões sobre violência contra a mulher, ao mesmo tempo em que abordava a religiosidade e a memória cultural de Aurora.
Para a elaboração do roteiro, Lamarck Dias e Vaniele Oliveira recorreram a relatos orais de moradores, entrevistas e documentos históricos. Entre as fontes consultadas estavam o processo criminal referente ao assassinato, o livro Paixão e Sangue de Mártir Francisca, de Rozanne Quezado, e Venda Grande D'Aurora, de João Tavares Calixto Júnior.
A equipe também realizou entrevistas com familiares e moradores que preservavam memórias sobre o caso. Durante a pesquisa, os realizadores chegaram a conversar com uma das irmãs de Francisca, ainda viva na época das entrevistas.
Financiamento
O projeto recebeu R$ 40 mil por meio da Lei Paulo Gustavo. O valor foi complementado por contribuições de empresários, comerciantes, amigos e instituições locais.
Entre as entidades que apoiaram a realização estiveram a Fundação José Alves Magalhães, a Academia Aurorense de Letras e Artes e o Instituto Queiroz Jereissati.
Em outubro de 2023, a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Aurora publicou o resultado de habilitação do Edital nº 006/2023 - Audiovisual e Cinema Itinerante, no qual a Lamarck Produções apareceu como habilitada na categoria de longa-metragem.
As limitações financeiras afetaram o cronograma das gravações. Em uma das etapas, a produção permaneceu interrompida durante três dias até conseguir recursos para continuar os trabalhos.
Filmagens e participação comunitária
As filmagens foram realizadas integralmente no município de Aurora, principalmente no Sítio Tipi, utilizando paisagens e localidades diretamente relacionadas à memória da história de Francisca.
Mais de 70 pessoas participaram do projeto entre elenco, produção, equipe técnica e apoio. A produção combinou profissionais do audiovisual de diferentes localidades com artistas e moradores de Aurora, alguns dos quais participaram de uma produção cinematográfica pela primeira vez.
Parte dos participantes locais passou por preparação durante meses antes das filmagens. Alunos do curso de Áudio e Vídeo da Escola Violeta Arraes, no Crato, também colaboraram com a realização.
A utilização da própria comunidade no elenco e na equipe integrou a proposta de produzir o longa no território onde ocorreu a história retratada.
Elenco
O elenco reuniu atores profissionais e participantes da comunidade de Aurora. Entre os nomes divulgados estão Kassandra Brandão, Nivaldo Nascimento e Márcio Tadeu de Lima.
Lhis Medeiros - Francisca Felipe Teles - Chico Nivaldo Nascimento - Seu Manoel Kassandra Brandão - Maria
Temas
A narrativa articula o caso histórico de Francisca com questões relacionadas à violência contra a mulher, ao feminicídio, às relações de gênero e à religiosidade popular do Nordeste.
A abordagem da personagem buscou enfatizar Francisca como vítima de violência antes de sua posterior transformação em figura de devoção. A divulgação do longa adotou a frase "Antes de virar santa, foi vítima", empregada como síntese de sua perspectiva temática.
A produção também relacionou a realização cinematográfica à valorização cultural de Aurora e do Cariri e à descentralização da produção audiovisual para municípios do interior do Ceará.
Lançamento e exibições
Estreia no Cariri
A primeira exibição pública de Uma Voz Chamada Francisca ocorreu na noite de 8 de setembro de 2025, na Praça Padre Cícero, em Aurora. A sessão, aberta ao público, reuniu mais de duas mil pessoas.
No dia seguinte, 9 de setembro, uma segunda exibição foi realizada no Orient Cinemas do Cariri Shopping, em Juazeiro do Norte, em sessão destinada a convidados.
O lançamento em Aurora foi concebido como uma exibição comunitária, permitindo que moradores que haviam participado das filmagens e familiares ligados à história assistissem ao longa no próprio município onde a obra foi produzida.
Exibições e debates
O longa também passou a ser utilizado em atividades voltadas à discussão de violência contra a mulher e religiosidade popular. Uma exibição foi promovida no campus de Cajazeiras da Universidade Federal de Campina Grande, em parceria com o Grupo Saberes Locais e a coordenação do curso de História, acompanhada de debate sobre feminicídio, direitos das mulheres e devoção popular.
FestCine Pedra Azul
Em maio de 2026, Uma Voz Chamada Francisca foi selecionado para o 8.º FestCine Pedra Azul, realizado em Domingos Martins, no Espírito Santo.
A seleção ocorreu entre mais de 1.500 filmes inscritos de diferentes países. As exibições do festival estavam programadas para setembro de 2026.
A participação foi destacada pelos realizadores como parte do processo de circulação de uma produção realizada majoritariamente por profissionais do interior do Ceará e de outros estados do Nordeste.
Mostra O POVO+ de Cinema
Em julho de 2026, o longa foi anunciado entre os dez longas-metragens selecionados para a primeira Mostra O POVO+ de Cinema, dedicada à produção audiovisual cearense.
A mostra reuniu dez longas e dez curtas selecionados entre 169 obras inscritas. Os filmes passaram a ser lançados semanalmente na plataforma O POVO+, com permanência prevista por pelo menos 24 meses.
Uma Voz Chamada Francisca entrou na programação da plataforma em 13 de agosto de 2026.
A página dedicada ao longa no O POVO+ passou a reunir o filme e informações sobre a produção.
Em junho de 2026, também havia previsão de futura disponibilização do longa na plataforma Lumine.tv.
Ver também
Cinema do Ceará Cinema do Brasil Feminicídio Religiosidade popular Benigna Cardoso da Silva Aurora (Ceará)
Ligações externas
Uma Voz Chamada Francisca no O POVO+
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