Biografia Gil Clary, de seu nome de nascimento Jeanne Fernande Conte, foi uma atriz francesa que nasceu a 16 de maio de 1894 em Bordéus e morreu a 8 de março de 1968 em Kremlin-Bicêtre. Na edição nº9 do Ciné-Revue de 1925 é afirmado que a atriz não teria ainda 18 anos aquando da publicação da revista o que poria em causa a data de nascimento da mesma. Nasceu em Bordéus, mas viveu sempre em Marselha, nunca tendo de lá saído até ao dia em que, desejando ardentemente fazer teatro, anunciou à família que iria a Paris para se apresentar no Conservatório. Acompanhada por uma dama de companhia, desembarcou em Paris e dirigiu-se ao Théâtre-Français para pedir a Paul Mounet que lhe desse algumas lições. E foi este que lhe indicou os procedimentos necessários para o exame e o endereço do Conservatório, tendo sido admitida à primeira. Tornou-se aluna do curso Massé tendo então descoberto o cinema. Assustada com os primeiros passos de uma carreira teatral, foi convidada para participar num filme e aceitou. Embora o drama patriótico que filmou não tenha obtido resultados financeiros extraordinários, teve na sua opinião pelo menos uma carreira bastante boa. A partir daí conheceu realizadores que apreciaram o seu talento. Filmou Un Ours de Charles Burguet, La Roue de Abel Gance, e uma série de filmes de Roger Lion, como por exemplo, A Sereia de Pedra, Os Olhos da Alma e a A Fonte dos Amores. Em La Roue, interpretou uma grande cortesã; na A Sereia de Pedra, uma camponesa portuguesa, mãe de um filho de dezoito anos; no Os Olhos da Alma, uma jovem da aristocracia de Lisboa; na A Fonte dos Amores, interpretou dois papéis: o de uma velha de sessenta anos e o da célebre rainha Inês de Castro.

Numa entrevista para a revista Cinémagazine conta uma história caricata que lhe terá acontecido quando filmava o filme Os Olhos da Alma: "Em Portugal, numa cena de Os olhos da Alma, eu devia subir para uma ligeira carroça de duas rodas que seria conduzida pelo meu colega Jean Murat. O regente e um ator da companhia foram buscar o veículo. Esperámos na estrada. Meia hora depois, chegou um ciclista completamente aflito, contando-nos que, ao trazer a carroça que nos estava destinada, o cavalo — um animal fogoso — se assustara e, com a impulsão, destruíra completamente o veículo e projetara os seus ocupantes a vinte e cinco metros pelos campos, fugindo depois. Mais tarde soubemos que o animal só foi capturado a vinte quilómetros do local do acidente. Nesse dia, creio que escapei por pouco."

Ainda em Portugal conta outra situação que lhe ocorreu também na filmagem de um filme: «Outra vez, sempre em Portugal, assisti a uma tourada numa pequena arena do campo. Os animais eram magníficos, “cheios de sangue”, dizia o programa! Devíamos aproveitar a corrida para filmar uma cena a inserir no nosso filme, uma cena em que o meu suposto marido, guardador de touros de profissão, era morto. Na arena, antes da corrida, no meio da multidão espantada, treinei algumas partes da ação. Fizeram-me rodear por habitantes locais que, aliás, não percebiam nada do que se passava. Contudo, se alguns homens aceitaram participar como figurantes, as camponesas fugiram assustadas. Seguiram-se explicações agitadas com o regente! Finalmente, uma das raparigas da terra, mais desembaraçada, deu, em nome das companheiras, uma explicação para a recusa formal em deixar-se filmar: "Somos raparigas para casar e não temos nada que nos sentar ao lado de uma mulher que põe rouge na cara!” A minha maquilhagem colocava-me, aos olhos daquelas boas raparigas, no grupo das piores mulheres de má vida! E foi impossível fazê-las mudar de decisão. A corrida, aliás, terminou de forma bastante dramática. Um dos touros, depois de ferir vários toureiros, atravessou as duas barreiras e saltou até às primeiras filas dos espectadores, precisamente para o lugar onde eu estava sentada! Ah! Meu caro senhor, nunca me teria julgado tão ágil. Em dois segundos tinha trepado para a varanda que me separava dos camarotes atrás de mim, mas, dificultada pela estreiteza da minha saia, encontrava-me montada na balaustrada e incapaz de me libertar. Foi necessária a ajuda prestável das pessoas que me rodeavam para sair daquela posição bastante comprometedora!"

Filmografia Cinema 1909: Cœur de femme de Camille de Morlhon 1919: Un ours de Charles Burguet: Lorette 1923: La Roue de Abel Gance: Dalilah 1923: A Sereia de Pedra de Roger Lion: Leonor 1923: Os Olhos da Alma de Roger Lion: Isolda 1924: A Fonte dos Amores de Roger Lion: Josefa Perez / Inês de Castro 1925: La Clé de voûte de Roger Lion: Mme Lanson 1925: Princesse Lulu de Donatien et René Leprince: Mme Juillard 1926: Jim la Houlette, roi des voleurs de Pierre Colombier, Roger Lion e Nicolas Rimsky: Mme Clisson 1926: La Chèvre aux pieds d'or de Jacques Robert: a Religiosa 1927: Les Fiançailles rouges de Roger Lion: Louise Lardic 1929: Amour de louve de Roger Lion 1929: L'Appel de la chair de Roger Lion: Denise 1929: Un soir au Cocktail's Bar de Roger Lion: Mme Myrtil-Breton 1930: Eau, gaz et amour à tous les étages de Roger Lion 1931: Une belle garce de Marco de Gastyne: Mme Rabbas 1931: Allô... Allô... de Roger Lion 1931: Le Lit conjugal de Roger Lion: Gilberte Hardouin 1931: Y'en a pas deux comme Angélique de Roger Lion 1933: Rocambole de Gabriel Rosca 1933: Trois Balles dans la peau de Roger Lion: Mme Dartois 1934: Fanatisme de Tony Lekain e Gaston Ravel: Princesa Mathilde