Adenane ibne Udade () é uma figura da tradição genealógica árabe, considerado ancestral epônimo dos adenanitas ou árabes setentrionais, um dos dois grandes agrupamentos nos quais os genealogistas muçulmanos tradicionalmente dividiram os árabes, em oposição aos catanitas. No sistema genealógico que alcançou sua forma plenamente desenvolvida na obra de Ibne Alcalbi, por volta de 800, Adenane ocupava a posição de ancestral comum de numerosas tribos do norte e centro da Península Arábica. A tradição islâmica fazia-o descendente de Ismael, filho de Abraão, e situava entre seus descendentes Maade, Nizar, Modar, Quinana e Coraixe, culminando na linhagem de Maomé. As fontes, contudo, divergem amplamente sobre as gerações entre Ismael e Adenane, e uma tradição afirma que o próprio Maomé permitia que sua genealogia fosse recitada somente até este último.

Pouco pode ser estabelecido sobre Adenane como personagem histórico. Suas datas de nascimento e morte são desconhecidas, e os relatos sobre sua vida pertencem à tradição genealógica posterior. Uma dessas narrativas situa-o em Meca no tempo de , contra quem teria combatido durante uma invasão da Arábia. O próprio nome Adenane, entretanto, possui existência pré-islâmica documentada: ocorre em inscrições nabateias do noroeste da Arábia, em inscrições tamuditas e também no sul da península. Werner Caskel observa que ele está ausente da poesia pré-islâmica autêntica e é raro na primeira literatura islâmica, mas considera que sua presença no sistema genealógico é anterior às rivalidades tribais do período omíada, possivelmente derivando de uma antiga tradição de Meca.

Os povos que a tradição fazia descender de Adenane habitavam principalmente Meca, o Négede, Tiama e o Hejaz, embora alguns grupos posteriormente se estabelecessem no Iêmem, na Síria, no Iraque e na Jazira. Entre eles estavam os coraixitas, tribo de Maomé, estabelecidos em Meca, enquanto muitas das demais tribos levavam vida nômade ou seminômade. Esses árabes também foram conhecidos como maaditas e nizaritas, e a designação "adenanitas" parece ter-se difundido apenas próximo ao surgimento do islã, permanecendo em uso durante o período islâmico. Séculos mais tarde, o próprio nome Adenane voltou a ganhar popularidade no Império Otomano, sobretudo a partir do último quarto do .

Vida e genealogia

Adenane ibne Udade (Adnān ibn Udad) é apresentado pela tradição genealógica árabe como ancestral dos adenanitas, um dos dois grandes agrupamentos nos quais os genealogistas muçulmanos dividiram os árabes, em oposição aos catanitas. Os adenanitas, também denominados "árabes arabizados" (al-ʿArab al-mutaʿarriba ou al-ʿArab al-mustaʿriba), eram considerados descendentes de Adenane através de diferentes linhagens tribais. As fontes islâmicas fazem-no descender de Ismael, filho de Abraão, mas não preservam uma genealogia consensual para as gerações intermediárias. Segundo diferentes tradições, entre Adenane e Ismael teriam existido quarenta, vinte ou quinze gerações, e há igualmente divergências quanto aos nomes desses ancestrais e à maneira de pronunciá-los. Mustafa Fayda relaciona essas discrepâncias à transmissão de informações provenientes de estudiosos judeus, que teriam sofrido alterações ao serem vertidas para o árabe. A incerteza acerca das gerações anteriores a Adenane também aparece na tradição relativa à genealogia de Maomé. Segundo o relato apresentado por Fayda, o próprio profeta teria permitido que sua ascendência fosse enumerada até Adenane, mas proibido que se prosseguisse além dele. A linhagem tradicional entre ambos é dada como Maomé ibne Abedalá ibne Xaiba (Abede Almotalibe) ibne Haxime ibne Abede Manafe ibne Cuçai ibne Quilabe ibne Murra ibne Cabe ibne Luai ibne Galibe ibne Fir (Coraixe) ibne Maleque ibne Anadre ibne Quinana ibne Cuzaima ibne Mudrica ibne Ilias ibne Modar ibne Nizar ibne Maade ibne Adenane. No sistema genealógico árabe tal como se encontrava plenamente desenvolvido na obra de Ibne Alcalbi, por volta de 800, Adenane ocupava assim a posição de ancestral dos árabes setentrionais.

Apesar da importância posteriormente atribuída a Adenane, sua figura histórica permanece obscura. A tradição identifica seu pai como Udade e sua mãe como Balhá binte Iarube, mas suas datas de nascimento e morte são desconhecidas. Uma narrativa situa sua vida em Meca na época de e relaciona-o às campanhas do rei babilônico na região. Segundo essa tradição, após derrotar e dispersar os judeus da Palestina, Nabucodonosor teria invadido e devastado a Arábia e marchado contra Meca. Adenane teria resistido ao invasor, mas foi derrotado e morreu depois que o rei retornou à Babilônia. As fontes também lhe atribuem dois irmãos, Nabete e Anre. Entre seus filhos, apenas Maade aparece sem controvérsia; são ainda mencionados Dis, Adaaque, Ubai, Ude, Ai e Udaine, este último também chamado Adane. A antiguidade do nome Adenane, por outro lado, não depende exclusivamente das genealogias islâmicas. Ele ocorre duas vezes em inscrições nabateias provenientes do noroeste da Arábia, aparece também em inscrições tamuditas e é documentado no sul da península, para onde teria sido levado ao longo da rota do incenso. Werner Caskel observa, contudo, que o nome não aparece na poesia pré-islâmica — considerando espúria a ocorrência atribuída a Labide — e é muito raro na literatura islâmica primitiva. Para o autor, essa combinação de evidências indica que Adenane não deve sua posição no sistema genealógico às rivalidades políticas e tribais do período omíada, como teria ocorrido com nomes como Nizar e Rebia. O elemento seria de origem pré-islâmica, embora não procedesse da tradição beduína, podendo ter sido incorporado ao sistema genealógico a partir de uma antiga tradição de Meca.

Adenanitas

Meca era tradicionalmente considerada a terra de origem dos adenanitas. Entre as tribos atribuídas à descendência de Adenane, os coraixitas estabeleceram-se na cidade e adotaram um modo de vida sedentário, enquanto outros grupos viviam de maneira nômade ou seminômade nas regiões do Négede, Tiama e Hejaz. A expansão de algumas dessas tribos para o sul, até o Iêmem, e para o norte, até a Síria, o Iraque e a Jazira, não impediu que continuassem tradicionalmente classificadas como árabes do Hejaz ou árabes setentrionais. Os povos posteriormente agrupados sob o nome de adenanitas nem sempre foram designados dessa maneira. Também eram conhecidos como maaditas, em referência a Maade, ou nizaritas, a partir de Nizar, ambos descendentes de Adenane na genealogia tradicional. A própria escassez do nome Adenane nas fontes antigas constitui um problema para determinar quando a designação coletiva se difundiu. Fayda observa que, à exceção de um verso atribuído a Labide, o nome praticamente não ocorre na poesia da Jailia, e situa a difusão da denominação "adenanitas" em época próxima ao surgimento do islã, permanecendo ela em uso durante o período islâmico. Caskel vai além ao rejeitar como espúria a passagem atribuída a Labide e sustenta que Adenane não ocorre na poesia pré-islâmica autêntica. Ainda assim, considera o nome anterior ao islã em razão de sua documentação epigráfica e entende que sua incorporação ao sistema genealógico antecedeu as disputas tribais do período omíada.

Legado

O nome Adenane voltou a adquirir alguma popularidade como nome pessoal no Império Otomano a partir do último quarto do . Caskel relaciona esse ressurgimento ao fortalecimento do sentimento nacional no período, observando que, em sua fase inicial, o movimento dos Jovens Turcos representava uma forma de nacionalismo otomano que ainda incorporava elementos das tradições árabes.

Bibliografia

Categoria:Adenanitas