Abederramão ibne Udais Albalaui (; 35–36 A.H./656–657) foi um comandante militar árabe do e um dos principais líderes da oposição egípcia durante as Revoltas provinciais contra Otomão. Veterano da conquista muçulmana do Egito, alcançou projeção histórica como comandante supremo do contingente egípcio que marchou sobre Medina em 35 A.H. (656). Sua liderança desempenhou papel decisivo no cerco imposto ao terceiro califa, Otomão, sendo identificado pelas fontes primárias como uma das figuras centrais dos acontecimentos que culminaram em seu assassinato. A atuação de Ibne Udais permanece objeto de debate na literatura biográfica islâmica em razão de seu papel na rebelião e de sua condição, atestada por diversas fontes, de companheiro de Maomé. Após a ascensão de Ali, foi interceptado e executado por partidários de durante os primeiros acontecimentos da Primeira Fitna.

Vida

miniatura|esquerda|Distribuição geográfica das revoltas provinciais contra Otomão. As setas vermelhas provenientes do Egito representam o contingente de aproximadamente mil homens comandado por Ibne Udais durante a marcha sobre Medina

Abederramão ibne Udais pertencia aos balitas e converteu-se ao islã no início de 6 A.H. (628), durante o período das delegações tribais que se dirigiram a Medina para prestar fidelidade a Maomé. Fontes antigas e estudos modernos registram que foi companheiro do profeta e que participou tanto do Juramento de Riduão quanto da conquista muçulmana do Egito. Após a campanha, estabeleceu-se no Egito como veterano da cavalaria. Segundo as fontes egípcias, ocupava em Fostate uma residência conhecida como Adar Albaida ("Casa Branca"), situada em posição estratégica diante da mesquita e da residência do comandante Anre ibne Alas. Os relatos acrescentam que sua casa era contígua à de Abederramão ibne Muljame. O local permaneceu objeto de disputa até 65 A.H., quando visitou o Egito e ordenou que ali fosse construído um palácio permanente no prazo de dois meses, considerando a antiga edificação incompatível com sua posição. Historiadores modernos, entre eles Wilferd Madelung, observam que essa construção provavelmente implicou a confiscação formal do imóvel pertencente a um antigo adversário político do califa.

À medida que as tensões nas províncias se agravavam, Ibne Udais tornou-se o principal porta-voz e comandante militar da oposição egípcia. Nessa condição, apresentou formalmente as reivindicações do contingente egípcio, denunciando os abusos administrativos do governador Abedalá ibne Sade, entre eles os maus-tratos dispensados tanto aos muçulmanos quanto aos dhimmi (ahl al-dhimma), bem como a apropriação arbitrária dos despojos pertencentes aos muçulmanos. Em 35 A.H. (656), Ibne Udais foi nomeado comandante supremo do contingente egípcio, liderando uma força estimada entre quinhentos e mil combatentes. Segundo Ibne Isaque, o exército foi organizado em quatro brigadas, cada uma comandada por um chefe portador de um estandarte, enquanto o comando geral era compartilhado por Ibne Udais e . Ao partir de Bilbeis, Ibne Udais teria composto versos afirmando que sua cavalaria marchava "reivindicando o direito de Deus" (ḥaqq Allāh) contra a administração vigente. Durante as negociações iniciais em , Ibne Udais encontrou-se com o negociador medinense Maomé ibne Maslama. Segundo o relato da reunião, dirigiu-se a ele chamando-o de "Abu Abederramão" e perguntou: "Tens alguma recomendação para nós?", concordando em retirar temporariamente suas forças com base nas promessas de reforma feitas pelo califa.

Após o fracasso das negociações, Ibne Udais passou a atuar como coordenador estratégico das forças rebeldes durante o cerco à casa de Otomão. Estabeleceu seu quartel-general na Mesquita do Profeta e foi visto dirigindo as operações militares nas ruas vizinhas. Quando Maruane ibne Aláqueme saiu para desafiar os rebeldes, Ibne Udais ordenou que seus subordinados o enfrentassem em combate singular. A historiografia moderna, especialmente Martin Hinds, identifica-o como um dos principais integrantes da rajʿa, denominação atribuída aos veteranos da oposição que regressaram a Medina para assegurar o desfecho da revolta. Após a nomeação de Caice ibne Sade como governador do Egito, Ibne Udais e partiram para Medina a fim de se unir às forças de Ali. Entretanto, Moáuia I estabeleceu postos de vigilância nas fronteiras e interceptou o grupo nas proximidades da fronteira da Palestina. Ibne Udais foi então preso em e executado em 36 A.H. (). Uma tradição otomânida egípcia preserva um hádice transmitido por Ibne Udais segundo o qual Maomé teria predito que certos homens se revoltariam e "se afastariam da fé como a flecha atravessa a presa", acrescentando que seriam mortos no Monte Líbano e em Aljalil. Historiadores observam que, ao atribuir esse relato ao próprio Ibne Udais, a tradição acaba por apresentá-lo como transmissor de uma profecia que condenaria a si mesmo.

Bibliografia

Categoria:Companheiros de Maomé Categoria:Conquista muçulmana do Egito Categoria:Árabes do século VII Categoria:Generais do Califado Ortodoxo Categoria:Pessoas envolvidas na Primeira Guerra Civil Islâmica Categoria:Pessoas executadas pelo Califado Omíada Categoria:Balitas Categoria:Juramento de Riduão