Muçailima ibne Habibe () ou Muçailima ibne Tumama (, Musaylima ibn Thumāma; Iamama, — m. 632/3), também conhecido como Muçailima Alcadabe ("o Mentiroso"), foi um líder tribal, pregador religioso e pretendente à profecia pertencente aos hanifaítas, estabelecidos na região de Iamama, na Arábia Central. Após a morte de , tornou-se uma das principais lideranças de sua tribo e organizou um movimento religioso e político inspirado, ao menos em parte, no modelo estabelecido por Maomé em Medina. Suas reivindicações proféticas deram origem a um dos mais importantes movimentos religiosos surgidos durante a formação do islão e constituíram o principal desafio enfrentado pelo Estado islâmico nas Guerras da Apostasia, encerrando-se com sua morte na Batalha de Iamama, durante o califado de Abu Becre .
Embora a tradição islâmica o tenha retratado sobretudo como um impostor e falso profeta, estudos modernos interpretam seu movimento de forma mais complexa. Segundo William Montgomery Watt, sua atuação esteve ligada às disputas pela liderança dos hanifaítas e às transformações políticas provocadas pelo declínio da influência sassânida na Arábia Central, combinando objetivos religiosos, econômicos e políticos. As fontes preservam indícios de que sua doutrina incorporava elementos comuns ao cristianismo e ao islão primitivo, como a crença na ressurreição, no Juízo Final, no paraíso e no inferno, além da prática da oração, do jejum e da abstinência do vinho. Apesar da derrota militar, sua memória permaneceu viva durante séculos, sendo ainda registrada no por viajantes europeus que encontraram habitantes do Négede que o reconheciam como profeta.
Nome
Muçailima ibne Habibe, cuja cúnia era Abu Tumama, tornou-se conhecido na tradição islâmica sobretudo pelo epíteto Alcadabe ("o Mentiroso"), empregado para caracterizá-lo como falso profeta após seu confronto com Maomé. As fontes divergem amplamente quanto ao seu nome e genealogia. Embora geralmente seja identificado como Maslama ibne Tumama ibne Cabir (ou Cacir), algumas tradições registram Habibe como nome de seu pai e Harune ou Lujaime como o de seu avô, havendo ainda relatos segundo os quais seu verdadeiro nome seria Harune e "Muçailima" constituiria apenas um apelido. A antiga hipótese de que "Muçailima" representaria uma forma diminutiva e depreciativa de Maslama, proposta por alguns orientalistas, é considerada improvável por William Montgomery Watt, embora continue sendo aceita por parte da tradição islâmica. Também lhe é atribuído, em algumas fontes, o nome Arramane (al-Rahman), embora essa identificação seja problemática, uma vez que Arramane era um dos nomes de Deus. Segundo Watt, é mais plausível que Muçailima afirmasse receber revelações de Arramane ou mesmo utilizasse a designação Abede Arramane, tendo a tradição posterior confundido essas expressões. As fontes islâmicas relacionam ainda Muçailima à passagem de , segundo a qual os pagãos de Meca acusavam Maomé de receber ensinamentos de um homem chamado Arramane residente em Iamama. Watt considera essa tradição pouco convincente e observa que ela não aparece nos principais comentários corânicos clássicos. Em sua interpretação, caso possua algum fundamento histórico, o episódio provavelmente decorreu do fato de os mecanos terem entendido o termo Arramane, frequente nas suras do período mecano, como o nome de uma pessoa, e não como um atributo divino. Em qualquer caso, Watt considera virtualmente impossível que Muçailima já reivindicasse a condição de profeta nessa época.
Vida
Muçailima pertencia aos hanifaítas, poderosa tribo estabelecida na região de Iamama, no centro da Arábia. Antes de ascender à chefia tribal, as fontes o descrevem como poeta, orador, adivinho e homem de grande influência entre os hanifaítas. No início do , a tribo encontrava-se sob a liderança de , governante aliado do Império Sassânida, responsável por assegurar a proteção das caravanas persas que percorriam grande parte da rota entre o Iêmen e o Iraque. Essa posição fazia de Hauda uma das figuras politicamente mais influentes da Arábia Central. Segundo Watt, sua autoridade provavelmente se estendia sobretudo aos segmentos nômades da tribo, coexistindo com uma numerosa população agrícola sedentária. Após a morte de Hauda, em 630, Muçailima tornou-se chefe dos hanifaítas. Após a morte de Hauda, a liderança dos hanifaítas parece ter sido disputada entre diferentes chefes tribais. Watt considera provável que tenha assumido o comando dos grupos nômades, enquanto uma delegação representando principalmente os setores agrícolas da tribo dirigiu-se a Medina e aceitou o islão. Segundo Önkal, o fortalecimento do grupo muçulmano em torno de Tumama representava uma ameaça à posição de Muçailima, levando-o a procurar consolidar sua autoridade. As tradições segundo as quais participou da delegação enviada a Medina divergem quanto aos detalhes. Algumas afirmam que permaneceu encarregado da bagagem enquanto os demais se encontravam com Maomé; outras relatam que efetivamente se reuniu com o profeta e teria solicitado que, após sua morte, a liderança da comunidade lhe fosse confiada, proposta prontamente recusada. Watt interpreta a narrativa sobre a bagagem como uma possível elaboração posterior destinada a apresentar uma suposta confirmação indireta de sua futura pretensão profética, enquanto Önkal entende que a viagem dificilmente teve como objetivo a conversão ao islão.
Segundo Watt, Muçailima provavelmente somente adquiriu projeção política após a morte de Hauda ibne Ali. Sua reivindicação profética esteve intimamente ligada à disputa pela liderança dos hanifaítas e encontrou importante apoio em , integrante da delegação enviada anteriormente a Medina. É possível que Arraal tenha incentivado a organização de um sistema político estruturado em torno de um profeta, inspirado no modelo então consolidado por Maomé em Medina. Antes disso, Muçailima pode ter difundido apenas uma mensagem religiosa sem reunir grande número de adeptos. A partir desse momento, seu movimento adquiriu clara dimensão política. Aproveitando-se do enfraquecimento do Império Sassânida e das transformações nas rotas comerciais da Península Arábica, procurou estabelecer em Iamama um principado autônomo, independente tanto da Pérsia quanto do Império Bizantino e de Medina. Para Watt, a expansão de seu movimento refletia simultaneamente interesses políticos, econômicos e religiosos presentes entre os hanifaítas da região. Embora a tradição islâmica apresente Muçailima principalmente como um impostor, Watt considera que seu movimento possuía uma base religiosa autêntica, parcialmente obscurecida pela literatura produzida pelos vencedores. Seus ensinamentos revelam clara influência do cristianismo, especialmente nas referências ao Reino dos Céus, à ressurreição dos mortos, ao Juízo Final e ao julgamento das pessoas segundo suas obras. Entre as práticas prescritas a seus seguidores figuravam orações formais três vezes ao dia, jejum e abstinência do vinho. Watt rejeita como propaganda a tradição segundo a qual Muçailima teria permitido o consumo de bebidas alcoólicas. Seus pronunciamentos religiosos eram compostos em saj', forma de prosa rimada semelhante à empregada nas primeiras suras do Alcorão, da qual algumas amostras foram preservadas nas fontes islâmicas. Önkal observa que as fontes apresentam descrições contraditórias sobre sua doutrina: algumas o acusam de permitir o vinho, o adultério e de abolir gradualmente as orações, enquanto outras o retratam como defensor do jejum, da proibição do vinho, da oração pública com muezim e de crenças como o paraíso, o inferno e a ressurreição. Para o autor, as acusações mais extremas provavelmente refletem propaganda posterior, ao passo que os elementos comuns sugerem uma tentativa deliberada de adaptar e reproduzir o modelo religioso estabelecido por Maomé.
No fim do ano 10 da Hégira, correspondente ao início de 632, Muçailima enviou uma carta a Maomé propondo uma divisão das esferas de autoridade na Arábia. As fontes divergem quanto à iniciativa da correspondência: segundo algumas tradições, foi Maomé quem primeiro lhe escreveu convidando-o ao islão, ao que Muçailima respondeu afirmando ser igualmente profeta; segundo outras, foi o próprio Muçailima quem reivindicou metade da Arábia para os hanifaítas e metade para os coraixitas. Em resposta, Maomé declarou que a terra pertence a Deus e chamou-o de Alcadabe ("o grande mentiroso"), epíteto que passou a acompanhá-lo na tradição islâmica. Após essa troca de correspondência, Maomé enviou como emissário a Iamama. Habibe foi morto por ordem de Muçailima após recusar-se a reconhecer sua pretensão profética. Após a morte de Maomé, o número de seguidores de Muçailima entre os hanifaítas cresceu rapidamente, transformando seu movimento na mais séria ameaça ao recém-formado Estado islâmico sob o governo de Abu Becre . Inicialmente, o califa enviou expedições comandadas por Icrima ibne Abi Jal e, posteriormente, por Xurabil ibne Haçana, ambas derrotadas pelas forças hanifaítas. Somente depois dessas derrotas Abu Becre organizou uma grande expedição sob o comando de Calide ibne Alualide.
O confronto decisivo ocorreu em , onde se travou uma das batalhas mais sangrentas das Guerras da Apostasia. O centro dos combates concentrou-se num pomar fortificado inicialmente conhecido como Jardim de Arramane, onde Muçailima e seus seguidores buscaram refúgio. Após a vitória dos muçulmanos, o local passou a ser chamado de Jardim da Morte em razão do elevado número de mortos em ambos os lados. Embora vitoriosos, os muçulmanos sofreram pesadas perdas, entre elas numerosos recitadores do Alcorão, fato posteriormente associado ao processo de compilação do texto corânico. As fontes divergem quanto ao autor da morte de Muçailima. Diversos combatentes reivindicaram o feito, entre eles Uaxi ibne Harbe, antigo escravo abissínio conhecido por ter matado Hâmeza ibne Abede Almotalibe na Batalha de Uude. Segundo a tradição mais difundida, Uaxi o atingiu com sua lança, cabendo a Abu Dujana desferir os golpes finais. Pouco antes da batalha, Muçailima teria ainda contraído matrimônio com Sajá, profetisa pertencente aos tamimitas, numa tentativa de fortalecer sua posição política entre as tribos da Arábia Central. Algumas fontes medievais afirmam que morreu com 140 ou 150 anos de idade, informação geralmente considerada inverossímil pelos estudiosos modernos. Apesar da derrota de seu movimento, a memória de Muçailima não desapareceu completamente. Durante sua viagem pelo Négede em 1862, o explorador britânico William Gifford Palgrave registrou que alguns habitantes da região ainda o consideravam um profeta e recitavam composições atribuídas a ele, descritas por Palgrave como imitações burlescas do Alcorão. Esse testemunho sugere que, mesmo muitos séculos após as Guerras da Apostasia, tradições favoráveis a Muçailima continuavam a sobreviver em alguns meios locais.
Historiografia