A Capela de Nossa Senhora da Saúde, originalmente dedicada a São Sebastião, é um templo católico de feição barroca situado na confluência da Rua da Mouraria com o Largo Martim Moniz, em Lisboa, classificado como Imóvel de Interesse Público desde 6 de Março de 1996. A importância do tempo deve-se fundamentalmente à devoção popular em contextos de catástrofes sanitárias, tendo merecido ao longo dos séculos a protecção de monarcas, militares e aristocratas.LEANDRO, Sandra. «Ermida da Nossa Senhora da Saúde e de São Sebastião». In: ALMEIDA, Álvaro Duarte de; BELO, Duarte (org.). Portugal Património: Guia-Inventário. Volume VII (Lisboa). Conselho científico de José Mattoso, Paulo Pereira e Teresa Belo. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008. p. 258-259.
História
Origens As raízes do templo remontam ao ano de 1505, época em que um surto de peste dizimou centenas de lisboetas. Em cumprimento de uma promessa motivada pela calamidade, os artilheiros da guarnição militar da cidade, à data designados por bombardeiros, promoveram a edificação de uma ermida no arrabalde da Mouraria, situado fora da cerca urbana. O edifício religioso foi consagrado a São Sebastião, mártir cristão amplamente venerado na Europa como intercessor contra o flagelo da doença, da fome e da guerra, desfrutando de enorme popularidade após ter sido declarado patrono de Roma. Nos alvores da sua existência, a igreja mereceu o patrocínio da rainha D. Catarina, tornando-se o epicentro de uma fervilhante piedade popular.
A protecção régia à casa religiosa dos militares expressou-se de diversas formas ao longo do tempo. Um diploma legal promulgado a 27 de Maio de 1647 estipulava encargos financeiros aos combatentes — "foi determinado que a cada um dos condestáveis que assentassem praça para servir na Índia se tirassem 400 réis e aos artilheiros 200 réis para se refazer do necessário para o culto da Ermida de S. Sebastião".
O impacto da Peste Grande A capital do reino foi de novo assolada por uma letal epidemia em 1569, a qual chegou a ceifar mais de 500 vidas diárias, obrigando a corte a refugiar-se nas vilas de Sintra e Alenquer. Chegaram a abrir-se valas comuns no Campo de Santa Bárbara, tal era o impacto da peste, tendo sido improvisado um hospital com mais de 100 divisões na praia ribeirinha. Perante a tragédia, o rei D. Sebastião instou o Senado da Câmara de Lisboa, em Outubro do mesmo ano, a patrocinar a construção de um novo e majestoso templo dedicado ao santo. Volvidos dois meses, o monarca autorizou que a nova estrutura substituísse a ermida pré-existente na Mouraria, incumbindo o mestre Afonso Álvares de adquirir os terrenos e de conceber o respectivo projecto, um empreendimento inviabilizado pela morte do rei em Alcácer-Quibir, em 1578.
No ano de 1570, temendo-se o recrudescimento da moléstia, os vereadores lisboetas suplicaram ao rei a autorização para uma solene cerimónia de acção de graças à Virgem Maria, dado que o surto parecia estar contido. Respondeu o rei:Vi vossa Carta de 10 d’este mez, e os testemunhos dos Fisicos, que com ella me enviastes sobre a saude d’essa Cidade, pelos quaes parece que, louvado Nosso Senhor, está agora sã; e porque he já tempo de se fazer a Procissão solemne, que me escrevestes, que tínheis assentado, que se fizesse, para se darem graças a Deus por tão grande mercê, como esta he, vos encommendo, que ordeneis como logo se faça dita Procissão com toda a solemnidade, devoção, e demostrações de reconhecimento, que se deve a Nosso Senhor por esta mercê sua tão mal merecida dos homens, e tão propria da sua Misericordia; e deveis tambem ter muy particular cuidado de fazer prosseguir com toda a diligencia a obra do Templo do Bemaventurado S. Sebastião, conforme ao que vos tenho escripto, e ao voto, que eu fiz, e assim ao que vós tendes feito em nome da Cidade, eu o hey.A primeira marcha rogativa realizou-se a 20 de Abril desse ano, instituindo-se concomitantemente a Irmandade da Senhora da Saúde, cuja insígnia mariana repousava no oratório do Colégio dos Meninos Órfãos. Nas suas Memórias para a História del-rei D. Sebastião, Barbosa Machado assim descrevia a procissão:Na vespera illuminaram se todos os edificios e todas as egrejas, formando os sinos uma plausivel e estrondosa consonancia. Precediam a procissão varias danças e invenções jocosas, que augmentavam o jubilo geral. Compunha-se de toda a comitiva do clero, familias religiosas, parochiaes e confrarias, sendo tão numerosa, que saindo da sé pela manhã, eram duas horas depois do meio dia quando entrou na egreja do convento de S. Domingos. Sobre um precioso andor ia a imagem de Nossa Senhora da Saude, a cuja protecção era a cidade devedora do que experimentava depois de tão horrivel contagio. No fim de toda a procissão, se via outro andor onde iam collocadas as mais insignes reliquias, que se veneram n’esta côrte. Depois de entrar a procissão em S. Domingos, subiu ao pulpito o mestre fr. João da Silva, da ordem dos prégadores, o qual fez um eloquente discurso. miniaturadaimagem|331x331px|A igreja implanta-se entre o Martim Moniz e o Castelo de São Jorge A edilidade assumiu o compromisso de perpetuar o acto de contrição na terceira quinta-feira do mês de Abril, justificando a decisão em virtude de ser "cousa mui devida, que tão milagrosa saúde e victória recebida de Deus tão propício e misericordioso, ficasse para sempre lembrada".
O trajecto do cortejo partia inicialmente da Mouraria em direcção ao convento dominicano, retornando depois ao colégio tutelar. A data foi posteriormente alterada para a última quinta-feira de Abril por deliberação camarária de 18 de Abril de 1592, determinando-se a inclusão de música cortesã, da pregação e de uma charola com as relíquias de Santa Ana e de São Sebastião. Escreveu a Igreja ao Senado da Câmara:Em quinta feira, que se contam 15 do corrente, se ha de celebrar a procissão da saude, saindo da Santa Egreja Patriarchal ao convento de S. Domingos; porque, como é de voto (?) pela saude d'esta cidade e reino, não devemos faltar em contribuir pela nossa parte com as rogativas a Deus Nosso Senhor, para que nos conserve livres da oppressão que se padecia ao tempo em que se fez o voto
A igreja de Nossa Senhora da Saúde Em 1596, o arcebispo D. Miguel de Castro elevou o modesto templo a igreja paroquial, mediante o desmembramento da circunscrição de Santa Justa. O edifício sofreu intervenções a cargo do arquitecto Teodósio de Frias, conservando o estatuto de sede de paróquia até 1646, data da sua transferência para a recém-edificada Igreja do Socorro. Por conseguinte, em 1654, a zona da Mouraria representava um dos oito bairros da organização administrativa da capital portuguesa, abrangendo quatro freguesias distintas na sua área periférica.
Surgiram clivagens em 1661 entre a administração do Colégio dos Meninos Órfãos e os confrades da Senhora da Saúde. Os artilheiros propuseram acolher a irmandade mariana nas suas instalações, impondo como condição que a invocação do santuário passasse a homenagear Nossa Senhora da Saúde e que a respectiva imagem assumisse o altar principal. A concordata obteve aprovação por parte do Papa Alexandre VII, resultando na criação da Associação da Senhora da Saúde e de São Sebastião, que transpôs a efígie para o seu novo reduto a 20 de Abril de 1662. miniaturadaimagem|329x329px|A Mouraria em festa, em princípios do século XX A união das associações gerou um notório enriquecimento da decoração interior do templo. Logo em Dezembro de 1670, o marceneiro Manuel Fernandes Valadão acordou a execução de um retábulo e de uma tribuna, e em Abril de 1705 contratou-se o mestre Manuel Antunes para remodelar a nave segundo o risco de João Antunes, o responsável pelo portal barroco ladeado por aletas. A violento terramoto de 1755 provocou estragos residuais, prontamente colmatados com a reconstrução do frontispício e da capela-mor, dotando-se posteriormente o interior de talha dourada e painéis de azulejos atribuídos à oficina de António de Oliveira Bernardes.
O culto à Senhora da Saúde atravessava as paredes do templo, já que se faziam enormes desfiles com o clero, fidalgos e regimentos bélicos, cantando-se habitualmente um Te Deum na catedral lisboeta. No trágico surto de febre amarela de 1857, a efígie foi levada em romagem até às Mercês, permanecendo em vigília na Igreja de Jesus antes de recolher à sua base. Durante o século XIX, o rei D. Pedro V distinguiu o imóvel com a dignidade de Capela Real através de um alvará de 1861, ano em que o general António Florêncio de Sousa Pinto financiou a edificação do altar do Evangelho, seguido do altar da Epístola apenas três anos mais tarde.
A vitalidade da irmandade prosseguiu com a instalação da imagem de Santo António no retábulo do Senhor dos Aflitos em 1864 e, logo em 1871, a viúva do rei D. Fernando II, a Condessa d'Edla, instituiu a Real Irmandade de Santo António Lisbonense. Os estatutos ditavam a magna protecção da coroa, prevendo que "a mesa seria composta de Provedor, que seria sempre Sua Majestade El-Rei, perpétuo Protector da Irmandade". Em 1875, construiu-se a torre sineira, obra supervisionada por F. Joaquim Barbosa e custeada por figures ilustres como o Marquês de Fronteira. miniaturadaimagem|339x339px|A igreja segundo gravura de Roque Gameiro (década de 1910) O acervo engrandeceu-se graças ao legado de Maria Balbina Reis Pinto, benemérita que possibilitou a fundação de um asilo para cegos na Rua da Mouraria. A Senhora da Saúde reuniu valiosos paramentos, sobressaindo uma veste cor de cereja associada ao casamento de D. Maria Ana de Áustria, e um sumptuoso tecido alvo ofertado pela rainha D. Maria II durante a epidemia de Colera morbus em 1856. Integram ainda o espólio as oferendas de D. Libânia Queiroz da Veiga e do rei D. Miguel, sendo o ajuar pontuado por coroas cravejadas de pedras e variadas jóias sumptuosas.
O século XX trouxe fortes oscilações na prática religiosa. Interrompida em 1908 por motivos conjunturais ligados à queda da monarquia, a procissão anual só retomou a cadência na década de 1940, voltando a sofrer uma pausa entre 1974 e 1981. Em 1970 ponderou-se a demolição do reduto religioso para remodelações viárias da praça adjacente, o que não se deu. O gradeamento protector da frontaria foi fundido em 1993, e a romaria readquiriu a sua regularidade a partir de 1984, desfilando hoje dividida em cinco secções unidas em torno do centro de Lisboa, mantendo vivo o antiquíssimo agradecimento citadino.
Descrição
Exterior O templo apresenta dimensões contidas, medindo 18×9 metros, com uma altura de 6,5 metros. A sua estrutura obedece a uma planta longitudinal composta, dividida entre uma nave única, a capela-mor e a sacristia adossada na zona posterior. Inserida na Praça Martim Moniz e disposta paralelamente à Rua da Mouraria, a capela encontra-se encostada a Norte ao Centro Comercial da Mouraria.
Fachada principal miniaturadaimagem|Fachada principal da capela O alçado principal, orientado a Sul, é antecedido por um pequeno adro separado do espaço público através de um gradeamento. Uma cornija percorre a totalidade do edifício, servindo de sustentação a um beiral saliente. A frontaria divide-se verticalmente por quatro pilastras toscanas de cantaria que se prolongam até à referida cornija, exibindo um esquema marcadamente barroco. No pano central rasga-se um portal de vão rectangular da autoria de João Antunes, que ostenta um entablamento encimado por um frontão curvo interrompido com vértices enrolados em volutas. Sobrepujando este acesso, encontra-se um janelão rectangular com moldura de cantaria, rematado pelo escudo de armas da Casa Real. Acima do beiral ergue-se um frontão de lanços posterior ao terramoto de 1755, abrangendo toda a largura da fachada, onde se incrusta uma pedra contendo o monograma coroado e entrelaçado "AM", evocativo de "Ave Maria".
Fachadas laterais