A ventriculite, também denominada ependimite, é uma patologia inflamatória e infeciosa de elevada gravidade que acomete o sistema ventricular do cérebro, afetando diretamente o revestimento ependimário das cavidades responsáveis pela produção e circulação do líquido cefalorraquidiano (LCR). Esta condição surge maioritariamente como uma complicação secundária de meningites bacterianas agudas, traumatismos cranioencefálicos graves ou, com elevada incidência no meio hospitalar, após intervenções neurocirúrgicas que requerem a colocação de dispositivos invasivos, tais como cateteres de drenagem ventricular externa (DVE) ou derivações ventriculoperitoniais. Fisiopatologicamente, a proliferação de micro-organismos patogénicos no LCR — frequentemente estafilococos, bacilos gram-negativos ou Pseudomonas — despoleta uma resposta imunitária local robusta, culminando na formação de um exsudado purulento que se acumula no interior dos ventrículos; este processo pode obstruir os forames de drenagem e as vias de reabsorção do fluido, desencadeando hidrocefalia obstrutiva, edema cerebral e um aumento crítico e potencialmente fatal da pressão intracraniana. O diagnóstico clínico constitui um desafio complexo, uma vez que a sintomatologia — caracterizada por febre persistente, deterioração do estado de consciência, rigidez da nuca, cefaleias intensas e crises convulsivas — se sobrepõe frequentemente ao quadro da doença neurológica de base ou à sépsis sistémica. A confirmação diagnóstica assenta na análise laboratorial do LCR, que revela caracteristicamente pleocitose marcada, hiperproteinorraquia, hipoglicorraquia severa e culturas bacterianas positivas, sendo o diagnóstico apoiado por exames de neuroimagem, como a ressonância magnética (RM) cerebral com contraste, que evidencia o realce e espessamento do epêndimo ventricular e, em casos graves, a presença de detritos purulentos (pyocephalus) flutuantes nos cornos ventriculares. Devido ao prognóstico reservado e à elevada taxa de mortalidade e sequelas neurológicas crónicas, o tratamento de emergência exige uma abordagem multidisciplinar agressiva, combinando a administração intravenosa — e, por vezes, intraventricular direta — de antibioterapia de largo espetro com elevada penetração na barreira hematoencefálica, a remoção ou substituição imediata de qualquer material protésico infetado e o controlo cirúrgico da pressão intracraniana.
Categoria:Doenças do sistema nervoso central