O Convento de Nossa Senhora da Nazaré, mais conhecido como Convento de Arroios, é um antigo convento setecentista erigido em Arroios, na cidade de Lisboa. Originalmente fundado como colégio jesuíta com patrocínio régio, o complexo albergou ainda um cenóbio da Ordem da Imaculada Conceição e o Hospital de Arroios, funcionado este até à década de 1990.

História

O convento jesuíta A edificação do convento foi intenção do padre jesuíta Francisco Sarmento, procurador nas missões da Índia, que em 1690 manifestou o desígnio de instituir um seminário para preparar missionários com destino ao Oriente. O projecto materializou-se a 13 de Fevereiro de 1697, graças ao testamento clérigo João Serrão, datado de 2 de Dezembro de 1696, que destinava bens para a edificação de um mosteiro em Frielas, no concelho de Loures, local onde se venerava a imagem de Nossa Senhora da Nazaré numa ermida. Com a respectiva autorização papal concedida a 24 de Outubro de 1698, a congregação optou por alterar a localização inicial, adquirindo por 12 mil cruzados a quinta do Almotacé-mor na capital, situada perto do chafariz de Arroios. Dada a insuficiência dos fundos originais, procuraram-se novos contributos, destacando-se como mecenas D. Catarina de Bragança (filha de D. João IV e viúva de Carlos II de Inglaterra, regressada a Portugal em 1693), que doou 50 mil cruzados e assumiu o papel de fundadora oficial do noviciado.

Por determinação régia, o colégio adoptou a designação de São Francisco Xavier, embora a igreja tenha sido consagrada a Nossa Senhora da Nazaré para respeitar a vontade de João Serrão. O projecto arquitectónico foi confiado a João Antunes, tendo a primeira pedra sido lançada a 1 de Outubro de 1705, escassos meses antes do falecimento da rainha consorte a 31 de Dezembro desse mesmo ano. Em 1733, assinala-se a execução de dois retábulos de pedraria pelo escultor João António Bellini de Pádua, posteriormente transferidos para a actual Sé de Beja. O ritmo moroso da empreitada ditou que o complexo apenas recebesse os primeiros noviços a 27 de Abril de 1735 (contando com treze noviços em 1737), inaugurando-se o templo religioso a 5 de Agosto desse mesmo ano.

Ainda que o edifício tenha resistido quase incólume ao terramoto de 1755, os jesuítas não tiveram um destino agradável: a 13 de Dezembro de 1758 o espaço foi cercado por contingentes militares, levando, no dia 21 de Fevereiro de 1759, à expulsão e encarceramento dos religiosos por ordem directa do Marquês de Pombal. Segundo o relato epocal do jesuíta José Caeiro, o cerco ocorreu duas horas após o nascer do sol: o desembargador Bartolomeu Gomes Monteiro confiscou dinheiros e livros de contas, trancando a despensa. Foram expulsos sete padres (incluindo o reitor Brás de Andrade, Francisco Correia, Inácio António, João Antunes, Manuel Andrade, José Caturro e o paralítico João Lopes) e seis irmãos co-adjutores (Caetano Vieira, José Francisco, Manuel Lourenço, Jacinto Nunes, José Diogo e Manuel Miranda). Os jesuítas foram transportados em carruagens, sob escolta armada e perante o silêncio da população, para o Colégio de Santo Antão, tendo os soldados chegado a vender a ceia dos religiosos. O desembargador apreendeu os bens da congregação e ordenou a destruição parcial dos interiores (picando paredes e arrancando ladrilhos) na vã tentativa de encontrar bens valiosos debaixo do pavimento, motivado pela convicção do Marquês de que os jesuítas seriam comerciantes opulentíssimos.

A ocupação concepcionista Devoluto, o noviciado foi repovoado a 10 de Julho de 1766 pelas monjas da Ordem da Imaculada Conceição. Esta transferência inusitada de um património da Companhia de Jesus deveu-se à influência de Paulo de Carvalho e Mendonça, irmão do Marquês de Pombal e monsenhor da Patriarcal de Lisboa (futuro cardeal), que providenciou asilo às religiosas cujo convento original ruíra em Carnide, rebaptizando então a instituição como Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição da Luz de Arroios.

Durante a primeira invasão francesa em 1807, a população sob comando de Junot viu-se forçada a acampar em tendas improvisadas nas imediações do recinto, e mais tarde, em 1831, o edifício serviu de cárcere político para a Condessa da Ribeira Grande e a Condessa de Ficalho devido às contínuas convulsões liberais. Em 1833, com a criação das Linhas de Defesa de Lisboa e o desenrolar da Guerra Civil, as religiosas refugiaram-se temporariamente no Convento de Santos-o-Novo por ordem de D. Pedro. De acordo com uma descrição de Luís Gonzaga Pereira desse mesmo ano, a igreja encontrava-se pintada de branco e possuía três capelas, destacando-se a capela-mor com a imagem de Nossa Senhora da Conceição e um retábulo antigo (semelhante ao das dominicanas do Convento do Sacramento à Alcântara), e exibia nos ângulos da nave imagens de madeira a imitar pedra, retratando Santo Inácio de Loyola, São Francisco Xavier, São Estanislau Kostka e São Luís de Gonzaga. Com a extinção geral das ordens regulares ditada em 1834, as concepcionistas ocuparam o cenóbio até ao falecimento da última freira, a 4 de Agosto de 1890. Ironicamente, a igreja conventual serviu de jazigo temporário, em 1856, para as ossadas do próprio Marquês de Pombal (trasladadas do Convento de Santo António de Pombal) aquando da trasladação para a capital.

O hospital Após a entrega do complexo ao Estado português, sendo anexado a 16 de Fevereiro de 1892 ao Hospital de São José para funcionar estritamente como unidade de isolamento epidemiológico para doentes com peste bubónica, cólera, varíola, lepra e tuberculose. O espaço foi rebaptizado alternadamente como Hospital Rainha Dona Amélia em 1898 (destinado à prevenção e tratamento da tuberculose) e de novo como Hospital de Arroios em 1911, após a instauração da República. Entre 1893 e 1910, a igreja esteve reaberta para a celebração do culto hospitalar, servindo inclusive como sede da paróquia de Arroios entre 12 de Junho de 1895 e 31 de Dezembro de 1897; subsequentemente, de 1911 a 1917, o hospital aquartelou uma das primeiras companhias da Guarda Nacional Republicana. O recinto viveu o seu apogeu entre as décadas de 1930 e 1950, destacando-se pelas exigentes enfermarias cirúrgicas e de medicina geral que originaram a alcunha popular de "universidade de Arroios".

Entre 1950 e 1951, o complexo foi alvo de beneficiações para a profilaxia da tuberculose, recebendo mobiliário e equipamento fornecidos pela Olaio e pelo Instituto Pasteur de Lisboa. Intervenções de manutenção nas décadas seguintes revelaram múltiplos vestígios setecentistas: em 1960, foram desenterradas três lápides de mármore com inscrições latinas no local da antiga cascata das hortas e pomares jesuítas; e em 1981, descobriu-se um ossário abobadado do início do século XVIII, oculto no altar-mor a três metros de profundidade, contendo esqueletos e inscrições murais de freiras. Em 1987, uma grade de ferro e uma teia de madeira foram enviadas para depósito no Hospital de Santa Marta. Contudo, a degradação irreversível das infra-estruturas ditou o seu encerramento definitivo em 1992, transformando-se o complexo temporariamente num vasto arquivo inactivo dos Hospitais Civis de Lisboa, depois transferido para Santa Marta. Em Março de 2004, a Câmara Municipal de Lisboa rejeitou um projecto do arquitecto Miguel Correia que previa a demolição de grande parte do núcleo, pertencente a privados; todavia, em 2005, foi aprovado um novo projecto do mesmo arquitecto visando a construção de 150 apartamentos e uma zona comercial (condomínio privado), com a garantia de manutenção do claustro. O antigo convento ganhou a 29 de Maio de 2012 o estatuto de (após propostas iniciadas em 1996 e 2000), encontrando-se a igreja principal formalmente cedida, desde 3 de Janeiro de 2011, à liturgia da comunidade greco-católica ucraniana de Lisboa.

Descrição

Exterior O conjunto arquitectónico reflecte uma tipologia educativa setecentista, articulando uma área monacal quadrangular disposta em redor de um claustro e uma igreja adossada à secção esquerda.

O alçado principal, orientado a Noroeste e virado para a Rua Quirino da Fonseca, apresenta uma fachada conventual sóbria em nítido contraste com a monumentalidade estilística do exterior do templo religioso. A elevação frontal da igreja desenvolve-se em três andares, evidenciando-se ao nível térreo um portal de verga recta com arquitrave sobre o qual repousa um imponente grupo escultórico armoriado, contendo o escudo bipartido de D. Catarina de Bragança com as armas de Portugal e Inglaterra amparadas por animais fantásticos. O remate superior compreende uma estrutura tripartida constituída por um frontão axial que ostenta um nicho albergando a imagem de Nossa Senhora da Conceição, flanqueado lateralmente por duas torres sineiras. Estas torres exibem pequenos campanários coroados por cruzes de ferro, encontrando-se os sinos originais substituídos por grandes janelões, ao passo que no flanco esquerdo do alçado sobrevive um relógio em pedra com numeração romana mas desprovido de ponteiros. Relativamente às restantes fachadas exteriores, o alçado Nordeste é praticamente cego, a elevação Sudeste direcionada para a Avenida Almirante Reis exibe janelas assimétricas com emolduramento pétreo de diferente tamanho e disposição, e a vertente Sudoeste revela um alçado moderno que foi justaposto à edificação primitiva monacal.

Interior

Igreja A antiga igreja ocupa predominantemente a ala Norte do complexo institucional e estrutura-se através de uma planta em cruz grega com um centro de conformação octogonal. A cobertura unificadora faz-se mediante uma cúpula de oito panos que assenta directamente numa cornija construída em dois tipos de cantaria, nomeadamente lioz e mármore encarnado de Negrais.

A sustentação no interior do cruzeiro recorre a arcos de volta inteira posicionados sobre pilastras da ordem dórica (as quais enquadram arcos semelhantes situados a um nível inferior), englobando nichos decorativos em pedra encastrados nas quatro esquinas do polígono central, sendo a iluminação global do recinto garantida pela captação de luz de um janelão cimeiro e duas aberturas rasgadas lateralmente. O vestíbulo que funcionava como entrada primordial do edifício, orientado a Sudoeste, permitia o acesso articulado ao pátio interior e encontrava-se outrora revestido por silhares de azulejos figurativos da primeira metade do século XVIII alusivos a múltiplos episódios da vida de Santo Inácio de Loyola. Estes singulares azulejos ilustravam a conversão do santo, o momento em que, ajoelhado, troca as vestes de guerreiro pelas de mendigo, o salvamento de um rapaz de afogamento e a aparição de São Pedro antes da sua morte, sabendo-se que um quinto painel desapareceu em data desconhecida. Dessa divisão nobre de recepção, que abrigara extensos bancos corridos esculpidos em pedra lioz de tonalidade rosa, restam actualmente apenas alguns dos suportes rudimentares originais nas paredes.

Dependências conventuais O corpo conventual distribui-se por quatro pisos funcionais dispostos em redor de um claustro de dois andares com planta rectangular, cujo logradouro ajardinado da época jesuíta se encontra modernamente revestido por lajes de mosaico hidráulico. O perímetro da referida praça claustral é estritamente delimitado por arcos plenos em cantaria conjugados com pilares de base quadrada, contabilizando-se duas estruturas de apoio nos eixos Norte e Sul, e três suportes nas alas Este e Oeste.

As respectivas galerias de circulação apresentam tectos abobadados repousando de forma harmoniosa sobre pilastras que se encontram parcialmente embebidas nas paredes, das quais o capitel se mantém como o único elemento integralmente visível. O piso térreo, edificado numa cota topográfica inferior, é caracterizado por abóbadas maciças e serviu de localização fundamental para as cozinhas durante o período de adaptação do espaço às lides do hospital, tendo sido completamente remodelado para tal fim.