Cyphocharax albiventris, popularmente chamado saguiru, é uma espécie de peixe caraciforme da família dos curimatídeos, endêmica do Brasil e distribuída pela bacia do rio Xingu, entre o rio Culuene, no alto curso, e a Volta Grande e a região de Belo Monte, no baixo curso. Foi descrita em 2024 por Andre L. Netto-Ferreira, Acacio F. Nogueira, Bruno F. Melo e Guilherme M. Dutra com base em exemplares provenientes dos estados de Mato Grosso e Pará. O nome específico deriva dos termos latinos albus, “branco”, e venter, “ventre”, em referência à intensa deposição de guanina na região ventrolateral do corpo. Análises moleculares reconheceram a espécie como uma linhagem distinta e a situaram no clado Curimatella alburna, embora seu posicionamento exato dentro desse agrupamento permaneça pouco sustentado e Cyphocharax continue sendo considerado parafilético.
A espécie apresenta corpo relativamente alongado e distingue-se pelo acentuado contrassombreamento, com a superfície dorsal escura e a região ventrolateral intensamente prateada ou esbranquiçada. Esse padrão resulta da abundância de iridóforos e guanina e da quase ausência de melanóforos nas escamas abaixo da linha lateral. Outra característica marcante é a mancha escura e arredondada presente na extremidade do pedúnculo caudal e nas bases dos raios medianos da nadadeira caudal. Possui entre 33 e 36 escamas perfuradas na linha lateral, dezesseis escamas circumpedunculares, nove raios ramificados na nadadeira dorsal e 31 ou 32 vértebras. Antes de sua descrição, exemplares haviam sido confundidos com C. gouldingi, C. spiluropsis e C. spilurus, das quais se diferencia principalmente pelo forte contraste entre as regiões dorsal e ventral do corpo.
Cyphocharax albiventris ocorre no canal principal do Xingu e em tributários e ambientes associados, incluindo os rios Iriri, Bacajá e Culuene, além de igarapés, praias fluviais, ilhas e canais. As aparentes lacunas em sua distribuição são atribuídas sobretudo à insuficiência de amostragens em terras indígenas, parques nacionais e outras áreas protegidas de difícil acesso. O contrassombreamento pode reduzir sua detecção por predadores visualmente orientados, especialmente durante o deslocamento em águas abertas. A espécie ainda não foi avaliada pela Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e não possui enquadramento registrado na CITES ou na CMS.
Etimologia
Cyphocharax albiventris é conhecida localmente como saguiru. O termo é provavelmente de origem tupi, embora sua etimologia permaneça obscura. O nome genérico Cyphocharax deriva do grego kýphos (), que significa “curvado” ou “corcunda”, e chárax (), nome aplicado na Antiguidade a um peixe marinho não identificado. O epíteto específico albiventris deriva da combinação dos termos latinos albus, que significa “branco”, e venter, “ventre”. O nome faz referência à intensa deposição de guanina entre a derme e a musculatura hipaxial, responsável pela coloração esbranquiçada e fortemente refletiva da região ventrolateral do corpo.
Taxonomia
Cyphocharax albiventris é uma espécie de peixe caraciforme da família dos curimatídeos, pertencente ao gênero Cyphocharax. Foi descrita em 2024 por Andre L. Netto-Ferreira, Acacio F. Nogueira, Bruno F. Melo e Guilherme M. Dutra com base em exemplares provenientes da bacia do rio Xingu, no Brasil. O holótipo, catalogado como MPEG 35000, possui 79,9 milímetros de comprimento padrão e foi coletado em 18 de junho de 2012 no rio Xingu, em Altamira, no estado do Pará. A atribuição da espécie a Cyphocharax foi sustentada por análises filogenéticas multilócus e pela ausência das características derivadas que definem os demais gêneros reconhecidos de curimatídeos. A filogenia recuperou C. albiventris como integrante do chamado clado Curimatella alburna, no qual representa a linhagem-irmã de um agrupamento formado por espécies de Curimatella e por C. leucostictus, C. microcephalus, C. notatus e C. plumbeus. O suporte estatístico para sua posição exata dentro do clado foi baixo, contudo, impedindo alterações na classificação genérica. Os autores mantiveram a classificação tradicional porque Cyphocharax é atualmente considerado parafilético, com Curimatella e Steindachnerina inseridos entre suas linhagens.
As análises de delimitação de espécies reconheceram inequivocamente os seis indivíduos sequenciados de C. albiventris como uma única linhagem distinta. Sua monofilia recebeu suporte máximo, e tanto o método ASAP quanto o modelo PTP separaram os exemplares das demais espécies do clado Curimatella alburna. A distância genética intraespecífica foi de apenas 0,06%, enquanto as distâncias em relação às demais espécies variaram de 9,7%, em comparação com C. notatus, a 13,2%, em relação a Curimatella immaculata. Esses resultados, combinados com suas particularidades morfológicas e de coloração, forneceram forte sustentação à descrição do novo táxon. Antes de sua descrição, exemplares de C. albiventris haviam sido identificados em coleções como C. gouldingi, C. spiluropsis ou mesmo C. spilurus, devido à presença compartilhada de uma mancha escura no pedúnculo caudal. A última espécie, entretanto, não ocorre na bacia do Xingu, sendo restrita principalmente aos rios associados ao Escudo das Guianas, ao alto rio Branco, ao alto rio Negro e, provavelmente, ao alto rio Orinoco. Cyphocharax spiluropsis ocorre simpatricamente com C. albiventris no Xingu, enquanto C. gouldingi é conhecida, entre outras regiões, do baixo curso desse rio e da Volta Grande.
As reconstruções dos estados ancestrais indicaram que a mancha escura no pedúnculo caudal surgiu repetidamente na evolução dos curimatídeos. Considerando-se a filogenia obtida, esse padrão teria aparecido de maneira independente pelo menos oito vezes e sido perdido secundariamente em outras oito ocasiões. No clado Curimatella alburna, a mancha teria surgido em uma linhagem interna e sido posteriormente perdida em alguns de seus integrantes. Esses resultados demonstram que a presença de uma mancha caudal, anteriormente empregada para reunir espécies em grupos artificiais como os grupos Cyphocharax spilurus e C. gilbert, deve ser utilizada com cautela na classificação. O caráter representa uma condição ancestral compartilhada por um agrupamento amplo que inclui os clados Curimatella alburna e Cyphocharax spilurus, tendo sofrido perdas independentes dentro do primeiro. Portanto, sua presença isolada não constitui evidência suficiente de parentesco próximo entre espécies morfologicamente semelhantes. O contrassombreamento acentuado também apresentou origem homoplástica, tendo evoluído independentemente em pelo menos oito linhagens de curimatídeos. Dentro do clado Curimatella alburna, o caráter foi recuperado como condição ancestral, mas sofreu perdas secundárias em C. microcephalus, C. notatus e C. plumbeus. Embora tenha surgido separadamente em diferentes grupos, o contrassombreamento pode ser interpretado como uma característica derivada compartilhada dentro de determinados clados e como uma autapomorfia em algumas espécies isoladas.
Diagnose
Cyphocharax albiventris distingue-se da maioria das espécies do gênero por apresentar acentuado contrassombreamento, com a superfície dorsal do corpo escura e a região ventrolateral intensamente clara e refletiva. As escamas abaixo da linha lateral possuem epiderme quase hialina, praticamente desprovida de cromatóforos escuros, enquanto numerosos iridóforos se distribuem na derme da porção lateroventral do corpo. A abundante deposição de guanina produz uma coloração prateada ou esbranquiçada conspícua, em contraste com a condição predominante nos demais congêneres, nos quais as regiões dorsal e ventral dos flancos apresentam pigmentação relativamente semelhante e os iridóforos concentram-se sobretudo na cabeça e nas bases das escamas. Entre as espécies de Cyphocharax, contrassombreamento igualmente acentuado ocorre em C. leucostictus, C. magdalenae e C. platanus. Cyphocharax albiventris diferencia-se das duas primeiras pela presença de uma mancha escura no pedúnculo caudal, ausente em ambas, e de C. platanus pelo formato arredondado dessa marca, que é horizontalmente alongada naquela espécie. A espécie possui entre 33 e 36 escamas perfuradas na linha lateral desde o supracleitro até a articulação hipural. Essa contagem permite distingui-la de C. aninha, que possui somente quatro a nove, de C. meniscaprorus e C. oenas, com 29–32, e de C. platanus, com 48–54. Apresenta ainda cinco fileiras de escamas entre a linha lateral e a origem da nadadeira anal, contra oito a dez em C. platanus e seis ou sete em C. tamuya. O pedúnculo caudal possui dezesseis escamas circumpedunculares, em comparação com vinte em C. naegelii, 23–25 em C. platanus e 19–20 em C. tamuya. A nadadeira dorsal apresenta nove raios ramificados, enquanto C. spilotus possui entre dez e doze. O esqueleto axial compreende 31 ou 32 vértebras, contra 29 ou 30 em C. aninha, 33 em C. tamuya e 34 em C. naegelii. Diferencia-se de C. mestomyllon pela ausência de uma expansão carnosa do lábio superior recobrindo a mandíbula inferior. Também possui corpo proporcionalmente menos alto, com profundidade equivalente a 30,6–35,8% do comprimento padrão, contra 36–45% em C. gillii e 38–42% em C. gouldingi. A cabeça representa 26,9–29,6% do comprimento padrão, sendo mais curta que em C. oenas, na qual corresponde a 32–36%. O pedúnculo caudal também é menos alto que nessa espécie, equivalendo a 10,8–12,5% do comprimento padrão, contra 14–15%. Por fim, as nadadeiras pélvicas são ligeiramente mais curtas que em C. spiluropsis, medindo 19,4–21,9% do comprimento padrão, contra 22–27%. Embora C. albiventris, C. gouldingi e C. spiluropsis apresentem aparência geral semelhante e compartilhem uma mancha escura no pedúnculo caudal, a primeira distingue-se pela ausência quase completa de melanóforos na epiderme e nas escamas da região ventral dos flancos. Nas outras duas espécies, as superfícies dorsal e ventral apresentam tonalidades mais semelhantes e possuem melanóforos conspícuos sobre as escamas ou na epiderme adjacente, formando um padrão reticulado ou quadriculado. O contraste característico de C. albiventris permanece perceptível mesmo em exemplares nos quais a guanina foi removida ou degradada por períodos prolongados de fixação em formalina.
Descrição