Maria Rosa foi uma jovem sertaneja brasileira que, entre 1913 e 1914, assumiu a liderança religiosa e militar do reduto de Caraguatá, um dos principais redutos rebeldes da Guerra do Contestado (1912–1916), conflito armado ocorrido na região de fronteira entre os atuais estados do Paraná e Santa Catarina. Considerada pelos sertanejos como "a santa que tudo sabia" e como principal representante da vontade do monge José Maria, Maria Rosa é apontada pela historiografia como a mais destacada das lideranças femininas do movimento, ao lado de Teodora, Chica Pelega e Nega Jacinta, e passou a ser designada por parte da imprensa, do folclore regional e da historiografia recente como a "Joana d'Arc do Contestado" ou "Joana d'Arc do Sertão".

Filha de Eliasinho da Serra, morador de Perdizinhas e devoto dos monges João Maria e José Maria, Maria Rosa liderou, a partir do comando-geral de Caraguatá, a vitória sertaneja no combate de 9 de março de 1914 contra as forças legalistas, tida como seu principal feito militar. Sua idade exata é objeto de controvérsia historiográfica: ao passo que a maior parte da bibliografia a descreve como adolescente entre 14 e 16 anos, dois depoimentos prestados a inquéritos policiais militares da época atribuem-lhe não mais que nove ou dez anos. Seu destino após a evacuação de Caraguatá, no fim de março de 1914, também permanece incerto: parte dos relatos afirma que morreu em combate, em datas e locais que variam conforme a fonte, ao passo que outra tradição oral sustenta que sobreviveu, foi criada por família adotiva e viveu sob outro nome.

Contexto A Guerra do Contestado foi um movimento social e armado, de causas múltiplas e várias lideranças, que reuniu sertanejos, ervateiros, pequenos proprietários expropriados pela expansão da estrada de ferro e da exploração madeireira, e opositores políticos dos coronéis da região. A partir do final da década de 1840, a figura de um monge peregrino, identificada pela população, ao longo de décadas, sob o nome único de "João Maria", circulou pela região do planalto, exercendo funções de conselheiro, curandeiro e pregador. Em 1912, um terceiro homem a assumir esse papel, José Maria, reuniu seguidores em Taquaruçu; sua morte em combate, em outubro daquele ano, no episódio conhecido como combate do Irani, deflagrou a fase mais aguda do conflito.

Após a morte de José Maria, os sertanejos elaboraram uma releitura religiosa do movimento, sustentada pela crença de que o monge retornaria à frente de um "exército encantado" de São Sebastião. Nesse contexto surgiu a figura das "virgens": mulheres e adolescentes escolhidas pelas lideranças dos redutos para estabelecer contato com o monge morto, transmitindo suas ordens aos demais sertanejos. A pesquisadora Karoline Fin observa que a historiografia sobre a participação feminina no Contestado concentrou-se nessas lideranças religiosas, permanecendo pouco estudado o papel da mulher cabocla comum no conflito.

Antes de Maria Rosa, destacaram-se como "virgens" Teodora, menina de onze anos cuja liderança durou cerca de duas semanas antes de perder credibilidade, e Chica Pelega (Francisca Roberta), figura cuja existência histórica é questionada por pesquisadores, mas que permanece na memória popular como guerreira morta em combate na defesa de Taquaruçu, em fevereiro de 1914.

Liderança religiosa e militar A partir do comando-geral de Caraguatá, Maria Rosa distribuía funções de forma (organização de tropas), guarda, piquetes de combate, reza e abastecimento. Diferentemente de Teodora, que se submetia a um conselho de anciãos, Maria Rosa dividia o comando diretamente com Elias de Morais, comandante da forma, e com Venuto Bahiano, comandante militar, sem intermediários.

Depoimentos coletados em inquéritos policiais militares da época, hoje preservados no Arquivo Histórico do Exército, reforçam essa autoridade quase incontestada. O sertanejo Antonio Geraldo Pires declarou que os revoltosos obedeciam cegamente a "uma virgem menina de nove a dez annos", e Francisco Hicek, comandante de uma das forças rebeldes, afirmou que lutava "pela monarchia, religião" por ordem direta "de uma virgem que tudo controlava". Em outro depoimento, Pedro Sakalugame relatou que os sertanejos recebiam ordens das virgens sediadas em Tamanduá, entre elas Maria Rosa, "que é obedecida em tudo que manda", acrescentando que ela teria caminhado, impune, em meio às forças do governo em Taquaruçu — episódio interpretado pelos sertanejos como prova de sua santidade.

Maria Rosa também exercia função judicante sobre forasteiros e suspeitos que chegavam ao reduto. Segundo Maurício Vinhas de Queiroz, ao ser apresentado a ela um certo Nhôca Quadros, preso ao chegar a Caraguatá em busca de sua noiva, Maria Rosa determinou seu destino em poucas palavras: caso permanecesse como companheiro, deveria ser bem tratado; caso se mostrasse contrário, deveria ser morto.

O combate de Caraguatá Maria Rosa é lembrada pela memória local sobretudo pelo combate de Caraguatá, ocorrido em 9 de março de 1914 e vencido pelos sertanejos. O ataque foi conduzido por uma ação conjunta do Exército e do Regimento de Segurança de Santa Catarina, sob o comando do tenente-coronel Gameiro, reforçada por vaqueanos civis que se ofereceram para guiar as tropas pelos atalhos da região — sem que o oficial percebesse tratar-se de uma armadilha arquitetada por espiões sertanejos, localmente chamados de "bombeiros". Subestimando o poderio adversário, as forças legalistas foram derrotadas após combate sangrento em que os sertanejos empregaram táticas de guerrilha até então desconhecidas dos soldados, incluindo emboscadas com atiradores escondidos entre as árvores; as forças do governo tiveram 24 mortos, 21 feridos e três desaparecidos, sem conseguir penetrar no reduto.

Relatos orais descrevem Maria Rosa à frente dos combatentes, vestida de branco, montada em cavalo branco e portando bandeira com cruz verde, sem que tivesse sido ferida no confronto — fato interpretado pelos sertanejos como um milagre atribuído à sua proteção espiritual. Segundo o pesquisador Átila José Borges, Maria Rosa também supervisionava treinamentos militares diários, prestava apoio a enfermos e famílias necessitadas, e "incorporava um espírito guerreiro e autoritário" ao definir estratégias de combate. Trovas populares recolhidas por Euclides Felippe reforçam essa imagem de comando inconteste no reduto.

Uma narrativa de teor distinto é oferecida pelo militar Dermeval Peixoto, que participou do conflito como soldado e publicou, em 1920, obra de historiografia militar na qual descreve Maria Rosa como manipulada por Elias de Moraes e por "espertos exploradores dos infelizes", questionando o caráter genuíno de sua liderança espiritual.

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