Le langaige du Bresil () é um vocabulário produzido na década de 1540, considerado o registro substancial mais antigo de uma língua brasileira, especificamente do tupi antigo. Está contido em um manuscrito da Bibliothèque nationale de France, catalogado como "Ms. Fr. 24269", do fólio 53r ao 54r, e apresenta 88 entradas. Pouco se sabe sobre seu compilador, um capitão de navio ou organizador de viagens, provavelmente de Bordéus ou Rouen, chamado Jehan Lamy.
Le langaige du Bresil é importante pois demonstra que as relações sociais entre os franceses e os povos indígenas brasileiros não se limitavam apenas a interações comerciais, mas, ao contrário, ambos os povos mantinham contatos sociais íntimos entre si.
Contexto As tribos que falavam tupi antigo foram mencionadas pela primeira vez durante o descobrimento do Brasil em 1500, por ocasião da viagem de Pedro Álvares Cabral, mas tais relatos — como a carta de Pero Vaz de Caminha de 1 de maio de 1500 — não incluíam registros dessa língua. Embora a palavra () apareça na carta de Caminha, é considerada "com alta probabilidade" um empréstimo caribe. Documentos escritos após Caminha sobre o descobrimento e a natureza do Brasil igualmente não refletem o contato linguístico com os tupis. Topônimos, antropônimos, bem como termos tupis, podem ser encontrados em documentos náuticos portugueses antigos, como os da viagem de 1511 do navio Bretoa, o primeiro a conter palavras de tal origem. O diário de bordo do navio lista — junto com papagaios, macacos e gatos — as designações específicas de duas espécies, nomeadamente (na grafia original ; uma pequena ave predominantemente verde da ordem Psittaciformes) e (na grafia original ; um primata da família Callitrichidae), que se tornaram as primeiras palavras brasileiras de origem tupi documentadas em português.
No entanto, a primeira tentativa conhecida de preparar uma lista de termos tupis ocorreu durante a viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães em 1519. Coletadas na Baía de Guanabara pelo cronista italiano Antonio Pigafetta no apêndice de seu relato de viagem , as cinco ou seis palavras registradas, num total de 12 designadas como "", referem-se aos nomes dados pelos tupinambás aos itens de troca trazidos pelos europeus, bem como o nome do alimento que esses viajantes obtinham por meio de escambo, ou seja, a farinha de mandioca. Segundo o linguista brasileiro Aryon Dall'Igna Rodrigues, algumas palavras foram erroneamente atribuídas ao Brasil e são na verdade de uma língua da família aruaque nas Grandes Antilhas, como (), () e (); Volker Noll especifica como sendo do "taíno caribenho".
Manuscrito O manuscrito está localizado na Bibliothèque nationale de France, catalogado como "Ms. Fr. 24269". Muito pouco se sabe sobre seu autor, exceto que era um capitão de navio ou organizador de viagens, provavelmente de Bordéus ou Rouen, chamado Jehan Lamy. O documento, originário da década de 1540 e datado de 1547, contém um compêndio náutico, um vocabulário de uma língua africana falada na Costa do Malagueta (Libéria) identificada como "língua Kra" (do fólio 51r ao 52r), e um vocabulário de tupi antigo (do fólio 53r ao 54r).
220x220px|thumb|direita|alt=Mapa da Baía de Guanabara baseado em relatos franceses do século XVI (colorido)|Mapa da Baía de Guanabara baseado em relatos franceses do século XVI (colorido)
As entradas de Le langaige du Bresil foram provavelmente coletadas na Baía de Guanabara, semelhante às poucas palavras registradas por Antonio Pigafetta. Apresenta 88 itens, embora algumas palavras sejam repetidas. As expressões e palavras indígenas foram colocadas à esquerda e seus equivalentes em francês à direita. Não há diferenças entre "u" e "n" mediais no manuscrito, e essa ausência dificulta a compreensão precisa do que está escrito, pelo menos nas entradas em tupi antigo. Há também a possibilidade de erros na leitura de sequências envolvendo as letras "i", "u" (ou "n") e "m". Entre as palavras registradas por Pigafetta, o vocabulário de Jehan Lamy inclui "faca" e "tesoura" (respectivamente grafadas como e por ele, diferentemente do e de Pigafetta).
Le langaige du Bresil é aproximadamente contemporâneo dos primeiros registros espanhóis do quíchua, sendo assim uma das fontes documentais mais antigas de qualquer língua sul-americana. Sua existência é conhecida pelo menos desde 1916, quando a obra foi citada pelo historiador francês Albert Anthiaume.
Conteúdo do vocabulário O vocabulário de tupi antigo compilado por Jehan Lamy tem importância histórica por ilustrar as relações sociais entre marinheiros franceses e povos indígenas brasileiros. Quando comparado com o outro vocabulário do mesmo manuscrito, ou seja, o de Kra, algumas diferenças relevantes podem ser notadas.
Em primeiro lugar, o vocabulário tupi, com 88 itens, é mais extenso que o vocabulário Kra, que tem 64 entradas. Os termos transmitem, por exemplo, contatos individuais, conversas amigáveis, laços familiares e de amizade, partes do corpo, comida, fome e sede, objetos e roupas, bem como noções geográficas e climáticas. Um único termo designa uma instituição política, (; ). Expressões hostis são menos numerosas, e há apenas dois termos relacionados à guerra, (; ) e (; ). Uma das palavras indígenas, , não tem equivalente em francês, e provavelmente se refere a um tipo de árvore frequentemente mencionada em fontes antigas, o imbu ou umbu, Spondias tuberosa. Há uma palavra, registrada duas vezes nas formas ligeiramente diferentes e , de presumível origem portuguesa, possivelmente emprestada de , ; Lamy traduz ambas como , .
Le langaige du Bresil parece ter sido baseado principalmente em conversas não comerciais; não há referências ao pau-brasil, que era o principal produto exportado da costa brasileira na época. Além disso, a existência de termos relacionados a partes do corpo e relações indica um certo grau de contato social íntimo (nem sempre necessariamente amigável). Algumas entradas referem-se à sociedade e cultura dos tupis, bem como outras dedicadas à fauna e flora do Brasil. Por outro lado, o vocabulário da língua Kra concentra-se principalmente em interações comerciais, enfatizando frases relacionadas a negociação e barganha. Não há palavras relacionadas à cultura ou sociedade africana. Tampouco há referências a escravos ou seu comércio.
A maior extensão do vocabulário tupi pode ser atribuída a melhores condições linguísticas e climáticas na região onde foi coletado em comparação com a região da Guiné. De fato, era mais fácil para os europeus se estabelecerem na costa brasileira e permanecerem lá por mais tempo, e a existência de uma língua principal falada em toda a área tornava válido dominá-la. Variações na grafia do tupi antigo encontradas em documentos de viajantes franceses do século XVI, como André Thevet e Jean de Léry, parecem indicar que esses materiais não provinham de uma fonte comum, mas, ao contrário, de um contexto histórico de interações sociais com os povos indígenas do Brasil.
Galeria
Ver também Arte de Gramática da Língua Mais Usada na Costa do Brasil Doutrina Cristã na Língua Brasílica História do tupi Língua geral dos índios das Américas
Notas e referências Notas
Referências
Bibliografia
Ligações externas
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