Família Baptista da Silva é uma família de Porto Alegre, com suas origens, até onde se tem evidências, na matriarca Lívia Baptista, uma escravizada batizada no ano de 1849, mãe de Sophia Baptista (1857-?), de Paulo e Thomé (1859-1860) e, um dos membros mais célebres da linhagem, do Major João Baptista da Silva (1855-1837).

Tal família é reconhecida, principalmente, pela sua presença marcante na sociedade porto-alegrense no período pós-abolição, por meio do jornal O Exemplo, da ocupação de cargos públicos, da participação em Irmandades Religiosas, e, para além dos locais, por sua atuação inolvidável na luta contra o racismo, pela inclusão e ascensão socioeconômica da população negra de Porto Alegre, tornando-se, assim, símbolo de resistência e poder.

Conforme obras como as de Vitor da Silva Costa e Maria Angélica Zubarán, os projetos e realizações dessa família, com destaque para áreas culturais, socioeconômicas e intelectuais, tiveram impactos indescritíveis para a preservação, difusão e desenvolvimento da cultura negra no Rio Grande Sul. Não apenas na sua família, mas nas suas redes de sociabilidade, em que estavam incluídas outras famílias negras com atividades de repercussões de extrema importância para a análise histórica. As infinitas possibilidades de contatos, contextos e resultados em um período de transformações, como o em que a família Baptista da Silva se destacou, são parte significativa da história, com sua infinitude de interpretações e perspectivas, todas expressivas.

Para a historiografia, de acordo com os autores citados anteriormente, a família Baptista da Silva extrapola essas definições, sendo, ademais, um objeto de análise histórica que carrega um protagonismo comumente marginalizado pela Academia, fora do âmbito eurocêntrico branco. Assim, Lívia e seus descendentes são, atualmente, um exemplo da diversidade e amplitude incomensurável, anteriormente ignorada e negada, das vivências e experiências negras brasileiras após a abolição da escravidão no país.

Apesar das dificuldades enfrentadas por famílias negras em ganhar notoriedade, a família Baptista tinha grande mobilidade social associada a suas relações, como por exemplo a Irmandade Nossa Senhora do Rosário e à Sociedade Beneficência Porto-Alegrense. Além disso, mantinha associações com parte da elite branca, como Dr. Eduardo Sarmanho Leite (médico e diretor da Faculdade de Medicina) e Aristides José Lourenço.

Livia Baptista Apadrinhada por Manoel e Venância, respectivamente escravizados de Elias Francisco de Araújo e Álvaro José de Araújo, sogro e pai de seu senhor Antônio Álvaro de Araújo. Livia foi “emprestada” como ama seca ou de leite (não especificado) a uma família de amigos de seu senhor, ajudando a criar seus filhos Palmira e Ramiro.

Lívia teve seu filho João enquanto situada como escrava, sendo uma forte teoria de que Antônio Álvaro de Araújo seja o pai da criança que veio a nascer como “parda”. A mesma veio a ser apadrinhada por seu senhor em um momento posterior.

Major João Baptista da Silva Filho de Lívia Baptista e, conforme suspeitas embasadas em documentação de inventários, Antônio Álvaro de Araújo, João Baptista da Silva nasceu no dia 28 de agosto de 1858, na capital gaúcha. No ano de 1880, casou com Francisca Baptista da Silva, com quem viria a ter três filhos biológicos, Maria Delphina Baptista da Silva, Felippe Baptista da Silva e João Baptista da Silva Júnior, também conhecido como Janguito ou apenas Baptista Júnior, além de uma filha de criação chamada Magdalena Baptista da Silva.

Trabalhou na Delegacia Fiscal e, em 1886, tornou-se Primeiro Secretário da Beneficência Porto-Alegrense, até assumir, por meio de uma eleição na sociedade, a posição de presidente em 1891 e, de acordo com o jornal O Exemplo, do qual fazia parte do grupo Mantenedor, foi Tesoureiro da instituição por volta de 1918. Na esfera militar, foi, em 1893, intitulado Tenente da Guarda Nacional, mas ficou mais conhecido por sua nomeação posterior como Major.

Já na área religiosa, João Baptista era um leal membro da Irmandade do Rosário, chegando a ser Prior da Arquiconfraria do grupo, e irmão da Santa Casa de Misericórdia, cargo que lhe deu poder de influência administrativa ampla, e que tinha, dentre seus requisitos, um certo status socioeconômico necessário para fazer parte de tal associação.

Felippe Baptista da Silva Nascido em primeiro de maio de 1883, Felippe Baptista da Silva é o primogênito de João e Francisca Baptista da Silva. O jovem frequentou, por cerca de três anos, o Seminário de Pareci Novo, em São Sebastião do Caí, local ocupado majoritariamente por meninos com ascendência europeia branca e em que, conforme relatos orais, aprendeu alemão.

Descrito pelo jornal O Exemplo como um guia para aqueles que acompanhavam o periódico e se sentiam pertencentes ao seu público, Felippe, assim como outros membros de sua linhagem, foi exaltado pelo seu intelecto, educação e atuação na defesa dos ideais da comunidade e organização do referido jornal.

João Baptista da Silva Junior saiu da instituição para se tornar o Servente de Escrita da Delegacia do Tesouro Nacional do Estado e, após algum tempo, em 1913, o 4° Escriturário da Alfândega, posições estáveis, que proporcionaram redes de sociabilidade e oportunidades de ascensão. O respeito vinculado a esses cargos é evidenciado pela sua presença, em 24 de fevereiro de 1911, no evento do “lançamento da pedra fundamental” para a construção do edifício dos Correios em Porto Alegre.

Em 1904, e novamente em 1907, realizou exames preparatórios com o objetivo de ingressar na Faculdade de Medicina, entretanto, faltou à segunda chamada de provas de sua segunda tentativa.

Ainda em 1907, participou da fundação da Sociedade Centro Porto Alegrense, atuando como secretário, tesoureiro e, em 1923, presidente. Esse projeto reforça o papel da família nas atividades de instrução, recreação e sociabilidade para famílias negras.

No mesmo ano, Felippe começa um relacionamento através da troca de cartas com Ercília Eutropia dos Santos, que viria a tornar-se sua esposa na Igreja de Nossa Senhora da Conceição em 12 de junho de 1912. Do matrimônio surgiram Felippe Baptista da Silva Junior (1913–1983) e Joanna Maria de Lourdes Baptista da Silva (1914–1977).

Infelizmente, Ercília viria a falecer em 1916, uma das principais motivações para Felippe abandonar a Faculdade de Medicina Homeopática, em que teve sua inscrição aprovada em 1914. Não apenas isso, mas conflitos internos e pressões comuns da época, incluindo possíveis divergências com o próprio pai, levaram a faculdade a não se sustentar por um longo período, e Baptista a optar por não finalizar o curso de Medicina.

Em 1909, foi nomeado alferes da 1° Companhia do 224° Batalhão de Infantaria de Porto Alegre, alcançando a patente de Tenente da Guarda Nacional. Além disso, ocupou, desde 1917 ou 1918, diversas posições no jornal O Exemplo, sendo a última tesoureiro e, eventualmente, fez parte do grupo Mantenedor da instituição.

Assim como seu pai, Felippe tinha uma profunda conexão com a sua religião, com um currículo que inclui seu papel como o 1° escrivão da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, procurador da Venerável Ordem 3° de Nossa Senhora das Dores e 2° secretário da Irmandade do Rosário, organização, como tantas outras de natureza semelhante, com grande influência na inserção e sociabilidade da população negra, auxiliando na criação de conexões, consolidação de estabilidade e reconhecimento de intelectualidades.

No dia 5 de agosto de 1923, Felippe Baptista da Silva morreu por conta da pneumonia diagnosticada pelo Dr. Paula Esteves, enfermidade que também atingiu sua tia e duas irmãs em um período semelhante. Seu enterro contou com aproximadamente 257 pessoas, dentre as quais estavam personalidades relevantes da política, administração pública, alta sociedade, associações, etc., e 35 veículos, e foi sepultado no Cemitério da Santa Casa de Misericórdia, na sepultura 241.

Nessa mesma data, no ano seguinte, um quadro com a sua imagem foi instalado em sua homenagem na Sala de Honra do jornal O Exemplo, o único, junto do de seu irmão, a receber tal honra.

João Baptista da Silva Junior Nascido no dia 28 de setembro de 1891, filho de João e Francisca Baptista da Silva, João Baptista da Silva Junior teve como protetora Nossa Senhora da Conceição, e padrinho Antônio Álvaro de Araújo, possível pai de seu pai, segundo fontes do inventário de Araújo.

Descrito como um intelectual “contraído aos estudos de gabinete”, artista, exemplo de moralidade e prodígio nas áreas jurídica e literária, o “Janguito” foi um membro valioso e respeitável, apesar de mais “retraído” que o restante da família. Sua luta pela conquista de espaços seguros de socialização e preservação da cultura e da memória da população negra, pela educação e construção de identidades para além de estereótipos, pelas artes, entre tantas outras são destacadas nas produções sobre a família.

João Baptista da Silva Junior foi aluno do Colégio Anchieta por volta de 1907 e, logo em seguida, em 1912, é possível constatar seu ingresso na Faculdade de Direito, assim como sua participação, no ano seguinte, como secretário do Atheneu Litterário.

Em 28 de janeiro de 1917, ao assumir o cargo de diretor de redação, se torna o primeiro membro de sua família a fazer parte da equipe do jornal O Exemplo, contexto no qual ficou conhecido, pelos colegas, como Baptista Junior. Essa inserção foi paralela a uma nova fase da instituição, caracterizada pelos posicionamentos sociopolíticos do grupo que liderava o periódico, principalmente se tratando do preconceito racial.

A difusão de novas intelectualidades para a reforma e criação da identidade nacional e étnica é central para essa nova fase, assim como para toda a história da atuação da família Baptista da Silva. Portanto, os debates e incentivos à educação, não apenas formal, como também social e civil, tiveram uma forte presença no periódico nesse período.

É nesse aspecto que as relações familiares tem uma relevância mais acentuada, sendo a família a primeira experiência de socialização do indivíduo e uma ferramenta de ascensão, estabilidade e segurança sociopolítica e econômica indispensável e inegável no Brasil, especialmente para as famílias negras após a abolição da escravidão.

Caracterizar a vida profissional de Baptista Junior no âmbito do direito é uma questão que exige cuidado, já que, de acordo com as fontes documentais, ele não estava formado enquanto exercia as atividades de um advogado de defesa, sendo o mais correto afirmar, caracterizando como uma ocupação de nível superior, tais casos como consultorias em que adquiriu experiência e legitimidade na área e em seus círculos de convivência.

Dentre seus casos mais marcantes, foram destacados o de Epifanio Américo dos Santos, absolvido do crime de morte em 5 de março de 1920 e, no mesmo ano, o de Leopoldina Krall, acusada do crime de infanticídio, e solta em 12 de agosto. Ademais, conquistou a absolvição de um sargento da Brigada militar, em conselho de guerra.

Porém, antes de ter a chance de finalizar o curso de Direito, Baptista Junior foi diagnosticado com uma doença grave, hoje reconhecida como septicemia, pelos médicos Paula Esteves e Sarmento Leite, e isolado no Hospital São José pelo Dr. Campos Velhos. Ainda assim, esteve acompanhado, na hora de sua morte, pelos colegas de redação.

Assim, no dia 28 de outubro de 1920, aos 29 anos, morreu Baptista Junior. Seu funeral, assim como viria a ocorrer no de seu irmão mais velho, foi preenchido por importantes personalidades das áreas de política, jornalismo, associações, esportes, artes, entre outras que conheceram “Janguito”, somando cerca de 105 pessoas acompanhando o corpo até o Cemitério da Santa Casa de Misericórdia.