Eulálio de Miranda Motta (Mundo Novo, 15 de abril de 1907 – Salvador, 15 de outubro de 1988) foi um poeta, jornalista, cronista, panfletário, farmacêutico e integralista brasileiro. Sua obra, produzida ao longo de mais de seis décadas, compreende poesias, crônicas, causos, cordéis, artigos jornalísticos, panfletos políticos e religiosos, além de vasta documentação manuscrita que permaneceu inédita durante sua vida.

Embora tenha publicado apenas três livros de poesia, sua produção preservada em acervo revela um dos mais extensos conjuntos documentais de um escritor do sertão baiano do século XX. Seu trabalho é considerado importante para os estudos da literatura regional, da imprensa baiana e da história política do interior da Bahia.

Biografia

Infância e juventude

Filho de Eremita Miranda Motta e Antônio Manoel da Motta, Eulálio de Miranda Motta nasceu em 15 de abril de 1907, na vila de Alto Bonito, no município de Mundo Novo, na Bahia. Passou a infância entre o arraial de Alto Bonito e a Fazenda Morro Alto, propriedade da família. O contato permanente com a vida rural marcou profundamente seu imaginário literário e forneceu matéria para boa parte de sua produção posterior, especialmente os causos e poemas regionalistas.

Na adolescência mudou-se para Monte Alegre (atual Mairi), onde trabalhou como balconista de farmácia. Nesse período conheceu Edy, a jovem por quem se apaixonou. O casamento dela com outro homem transformou esse sentimento em um amor platônico que permaneceu durante toda sua vida e influenciou profundamente sua poesia, convertendo Edy em sua principal musa.

Em 1925 mudou-se para Salvador para estudar no Ginásio Ipiranga. Durante os anos de formação estabeleceu amizade com nomes como Adonias Filho e Jorge Amado e teve aulas com Arthur de Salles, importante poeta baiano. Posteriormente ingressou no curso de Farmácia da antiga Faculdade de Medicina da Bahia, formando-se em 1933.

Formação intelectual

Os anos vividos em Salvador foram decisivos para sua formação literária. O contato com a literatura brasileira e francesa consolidou seu desejo de tornar-se escritor. Frequentando o ambiente intelectual da capital baiana, passou a publicar sonetos em jornais e revistas, aproximando-se inicialmente da tradição parnasiano-simbolista.

Entre 1927 e 1929 publicou poemas nas revistas A Luva, Renascença e Vanguarda, bem como nos jornais O Imparcial, Caderno da Bahia, Diário de Notícias e A Tarde, veículos que naquele período dedicavam amplo espaço à poesia de inspiração parnasiana. Retorno ao sertão

Após concluir o curso de Farmácia em 1933, Eulálio Motta retornou a Mundo Novo. Pouco depois estabeleceu uma farmácia em Itabira, comunidade remanescente de quilombo pertencente ao município de Miguel Calmon.

A permanência em Itabira foi decisiva para a transformação de sua literatura. O escritor passou a observar e registrar a linguagem popular, os costumes sertanejos, as crenças religiosas e o cotidiano dos trabalhadores rurais. Esse material serviria de base para o projeto Bahia Humorística, conjunto de causos nunca publicado em vida.

Em 1935 transferiu definitivamente sua farmácia para Mundo Novo, onde permaneceu durante a maior parte de sua existência.

Produção literária Apesar de dedicar mais de sessenta anos à atividade literária, Eulálio Motta publicou apenas três livros de poesia e um número relativamente pequeno de poemas em jornais, revistas e panfletos. Segundo os pesquisadores responsáveis pela organização de seu acervo, essas publicações representam menos de um terço de sua produção literária, permanecendo a maior parte de seus escritos inédita em manuscritos e datiloscritos preservados no acervo do escritor;

Entre 1927 e 1929 publicou sonetos nas revistas A Luva, Renascença e Vanguarda, além dos jornais O Imparcial, Caderno da Bahia, Diário de Notícias e A Tarde. Nesse período, a vida literária de Salvador valorizava a poesia de herança parnasiana, e os periódicos dedicavam espaço significativo à publicação desse gênero.

Sua poesia inicial caracteriza-se pela influência da estética parnasiano-simbolista, especialmente pela composição de sonetos. Essa produção apresenta um tom pessimista e de desencanto diante da vida. Entre os temas recorrentes encontram-se o amor impossível, inspirado na figura de Edy; a memória da infância; o desencanto existencial; e a ação do tempo sobre as pessoas e a paisagem.

Após retornar a Mundo Novo, em 1933, sua produção literária passou a incorporar elementos do Modernismo, tratando com maior frequência de temas ligados ao cotidiano sertanejo, aos falares regionais e aos ritmos das cantigas populares. Durante sua permanência em Itabira, observou atentamente a linguagem e os costumes da população local, registrando expressões populares e episódios do cotidiano que serviriam de base para o projeto inédito Bahia Humorística, dedicado aos causos do sertão baiano.

Obras

Embora sua produção escrita seja bastante extensa, apenas três livros foram publicados durante sua vida. Illusões que passaram... (1931)

Alma enferma (1933)

Canções de meu caminho (1948) Os versos de Eulálio Motta também foram publicados em livros de terceiros como, por exemplo, em: Poesias consagradas (1977); Poetas da Bahia e Minas, Antologia (1981); Anuário de poetas do Brasil – 1982 (1982); Mundo Novo, nossa terra, nossa gente (1988), entre outros.

Obras inéditas

Nos documentos preservados em seu acervo encontram-se títulos, índices, prefácios e projetos de diversos livros jamais publicados, entre eles Bahia Humorística e Meu caderno de trovas.

Grande parte dessa produção permanece inédita.

Jornalismo

A atividade jornalística acompanhou praticamente toda a vida de Eulálio Motta.

Entre 1926 e 1932 manteve a coluna Rabiscos no jornal Mundo Novo, onde publicava crônicas, comentários de leitura, causos e reflexões sobre literatura, economia e política.

Quando o periódico foi transferido para Jacobina, passando a chamar-se O Lidador, tornou-se um de seus principais colaboradores entre 1933 e 1942.

Posteriormente escreveu regularmente para O Serrinhense, onde assinava a coluna Atualidades, além de colaborar nos jornais Gazeta do Povo, Folha do Norte e Vanguarda.

Em seus artigos utilizou diferentes pseudônimos, entre eles Liota, Brás Cubas e João Ninguém. Atuação política

Na década de 1920 Eulálio Motta demonstrou simpatia pelo socialismo e pelo comunismo.

Entretanto, após assistir às conferências de Plínio Salgado em Salvador, aderiu à Ação Integralista Brasileira (AIB) no final de 1933. Em artigos publicados no jornal O Lidador, declarou ter abandonado voluntariamente o comunismo para abraçar o Integralismo, após considerar o Integralismo uma alternativa superior para o Brasil, tornando-se um de seus principais propagandistas na região de Mundo Novo.Entre 1933 e 1936 realizou conferências, fundou um núcleo integralista em Mundo Novo e publicou numerosos artigos e panfletos em defesa da doutrina integralista, abordando temas como democracia cristã, liberalismo, comunismo e nacionalismo. A participação de Eulálio Motta no movimento na AIB foi decisiva para a sua formação intelectual.

Estado Novo e conversão religiosa

Após o fechamento da AIB em 1938, reduziu significativamente sua atuação política.

Em 1º de outubro de 1940 converteu-se oficialmente ao catolicismo, fato que passou a orientar grande parte de sua produção literária.

Durante os anos do Estado Novo publicou diversos panfletos e crônicas em defesa da Igreja Católica, criticando o espiritismo e o protestantismo e apresentando-se como o "pasquineiro da roça".

Partido de Representação Popular

Com a redemocratização de 1945 voltou à militância política e, junto à outros antigos camisas-verdes, participou da fundação do diretório municipal do Partido de Representação Popular (PRP), de Plínio Salgado.

Em 1947 candidatou-se a deputado estadual, mas não conseguiu eleger-se.

Nas décadas seguintes permaneceu como principal representante do partido em Mundo Novo e utilizou intensamente panfletos para divulgar suas posições políticas e participar das disputas locais.

Regime Militar

Após 1964 apoiou o regime militar, interpretando-o como instrumento de combate ao comunismo.

Em diversos panfletos defendeu a continuidade da Revolução de 1964, criticou o abrandamento do regime e retomou conceitos característicos da doutrina integralista, como democracia orgânica, nacionalismo e anticomunismo.

Ao mesmo tempo, continuou utilizando seus panfletos para criticar adversários políticos de Mundo Novo, especialmente durante os debates relacionados à emancipação do município de Piritiba. O panfletário

Uma das características mais marcantes de Eulálio Motta foi sua intensa atividade panfletária. Reunindo crônicas do cotidiano, comentários políticos, textos religiosos e poemas, eles serviram como instrumento de intervenção na vida pública de Mundo Novo e região.

Segundo o próprio escritor, a função dos panfletos era "gritar, escrever, publicar, escandalizar", procurando despertar a população para aquilo que considerava problemas políticos e morais da sociedade.

Ao todo sobreviveram apenas dos 57 panfletos, que foram produzidos entre 1949 e 1988, embora os pesquisadores estimem que o número original tenha sido muito maior.

Segundo Patrício Barreiros, os 57 panfletos preservados no acervo podem ser agrupados em seis grandes eixos temáticos: a defesa do catolicismo; a controvérsia em torno da emancipação do município de Piritiba; a política partidária e as campanhas eleitorais; o apoio ao regime militar instaurado em 1964; questões relacionadas ao cotidiano de Mundo Novo; e a divulgação de sua própria produção poética.

Essas categorias, contudo, não são estanques. Um mesmo panfleto frequentemente combina diferentes temas, utilizando acontecimentos cotidianos como ponto de partida para discutir questões políticas, religiosas ou sociais. Da mesma forma, poemas podiam ser empregados para promover candidatos, defender posições ideológicas ou formular críticas à administração pública, revelando a versatilidade desse gênero na produção de Eulálio Motta.

O acervo

Após o falecimento do escritor, em 1988, seu acervo permaneceu na residência da família em Mundo Novo.

A documentação encontrava-se distribuída por armários, estantes e até mesmo no porão da casa.

Em 1999, Helder Sampaio, sobrinho do escritor, transferiu a guarda do acervo para o pesquisador Patrício Nunes Barreiros, responsável por sua organização, catalogação e conservação.

O objetivo futuro anunciado pelos organizadores era a criação de um Núcleo de Estudos de Acervos de Escritores do Sertão Baiano, vinculado à Universidade Estadual de Feira de Santana, destinado à preservação e consulta pública desse patrimônio documental.

Organização

O acervo é constituído principalmente por documentos reunidos e arquivados pelo próprio escritor.

Após sua organização foram identificados documentos, produzidos entre 1910 e 1988, distribuídos em nove séries documentais, além de diversas subséries.

Os documentos encontram-se acondicionados em dez caixas plásticas, cinco pastas catálogo formato A3 e recipientes específicos destinados à conservação do diploma de Farmácia e da máquina de escrever do escritor.

O conjunto inclui manuscritos, datiloscritos, fotografias, jornais, panfletos, correspondência, cadernos, folhetos e documentos pessoais. Posteriormente, novos documentos doados por familiares e amigos do escritor foram incorporados às séries já existentes.

Categoria:Alunos da Faculdade de Medicina da Bahia da Universidade Federal da Bahia Categoria:Católicos do Brasil Categoria:Cordelistas da Bahia Categoria:Cronistas do Brasil Categoria:Farmacêuticos da Bahia Categoria:Jornalistas da Bahia Categoria:Membros da Ação Integralista Brasileira da Bahia Categoria:Membros do Partido de Representação Popular da Bahia Categoria:Mortos em 1988 Categoria:Nascidos em 1907 Categoria:Naturais de Mundo Novo (Bahia)