Geoffrey Cannon (12 de Abril de 1940) é um autor, jornalista, ex-editor de revistas e pesquisador inglês. Entre 1968 e 1972, foi o crítico musical do The Guardian, função que fez dele o primeiro crítico especializado em rock de um jornal diário britânico.
Após atuar como editor de artes da revista New Society, tornou-se editor da publicação da BBC Radio Times, cargo que ocupou de 1969 a 1979. Durante esse período, também escreveu sobre música e cultura popular para The Listener, o Los Angeles Times, o Chicago Sun-Times, Creem, Rock et Folk, Melody Maker e Time Out.
Desde o início da década de 1980, Cannon trabalha na área da saúde pública, principalmente em políticas de alimentação e nutrição. Em coautoria com Hetty Einzig, publicou o best-seller Dieting Makes You Fat (1983), e, com Caroline Walker, o best-seller The Food Scandal: What's Wrong with the British Diet and How to Put It Right (1984). Entre seus outros livros está The Politics of Food.
Foi diretor científico do World Cancer Research Fund e atualmente reside no Brasil, onde integra o Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (NUPENS) da Universidade de São Paulo. Primeiros anos e educação
Cannon obteve uma bolsa de estudos para a Christ's Hospital, escola pública localizada em Horsham, no condado de Sussex. Posteriormente, ingressou na Universidade de Oxford como estudante de graduação do Balliol College.
Cannon recorda que, aos quatorze anos, ao ouvir A Sagração da Primavera, de Stravinsky, reproduzida em alto volume em um sofisticado aparelho de som pertencente a um amigo da família, compreendeu pela primeira vez o poder da música. Como outros acontecimentos marcantes, cita a audição de Why Do Fools Fall in Love em uma cabine de escuta de uma loja de discos em Horsham e, um ano depois, o momento em que "uma van percorreu uma rua de Essen, na Alemanha, tocando a gravação promocional de Heartbreak Hotel". Carreira
Reino Unido
Revistas, cultura popular e jornalismo musical
Oxford Opinion
Em 1960 e 1961, enquanto estudava na Universidade de Oxford, Cannon foi editor e proprietário, juntamente com Stephan Feuchtwang, da revista Oxford Opinion (OO). Entre os colaboradores regulares estavam Richard Gott, John Gittings, o historiador britânico Timothy Mason, JG Farrell, Ian Hamilton e Kevin Crossley-Holland. A OO introduziu a crítica cinematográfica associada aos Cahiers du Cinéma, por meio de Ian Cameron, Mark Shivas, VF Perkins e outros, que posteriormente fundariam a revista Movie.
A Oxford Opinion foi descrita pelo The Times Literary Supplement como "incomparavelmente a mais bem produzida de todas as revistas de Oxford". New Society, The Guardian
Os primeiros textos publicados de Cannon sobre cultura popular apareceram em 1962 na revista New Society, da qual foi um dos membros fundadores da equipe editorial. Trabalhou internamente na publicação, tornando-se posteriormente editor de design, artes, produção e da seção de artes. A partir de 1967, passou a escrever sobre cultura popular para The Listener, revista que também redesenhou sob a direção editorial de Karl Miller. Em 1968, começou a escrever uma coluna semanal sobre música pop e rock para o The Guardian.
Juntamente com Tony Palmer, do jornal dominical The Observer, foi uma das principais figuras no surgimento da crítica britânica de rock no final da década de 1960. George Melly, que se tornou o primeiro comentarista de cultura popular do The Observer em 1965, descreveu ambos como empenhados em "estabelecer um aparato crítico" para avaliar a música popular contemporânea.
Favorecido por sua associação com o The Guardian, Cannon passou a colaborar com artigos mais extensos para o Los Angeles Times e o Chicago Sun-Times, além de revistas da imprensa underground, como Creem. Escreveu o documentário London Rock (1970), dedicado ao movimento contracultural britânico.
Cannon recorda que, juntamente com os jornalistas da Rolling Stone David Dalton e Jonathan Cott, colaborou com documentaristas da Granada Television, como Jo Durden-Smith, John Sheppard e Michael Darlow, na concepção de "programas para o horário nobre da televisão concebidos como hinos da revolução". Entre esses projetos do final da década de 1960, afirma que o especial televisivo Johnny Cash at San Quentin foi ideia sua e que compartilha o mérito pelas concepções dos filmes-concerto The Doors Are Open e The Stones in the Park. Também dirigiu, para a emissora pública italiana RAI, o filme do concerto de Frank Zappa no Festival Pop de Palermo de 1970.
Em julho de 1971, foi um dos quatro palestrantes da sessão "Youth and Music" ("Juventude e Música"), realizada durante a primeira Conferência Internacional da Indústria Musical, organizada pela revista Billboard. Em sua apresentação, discutiu o papel inspirador do rock no estilo de vida da juventude contemporânea, bem como sua capacidade de atuar como "o catalisador de estilos de morte", em referência às mortes de Sharon Tate, em Los Angeles, de Meredith Hunter, durante o Festival Gratuito de Altamont, e da militante da Weather Underground Diana Oughton.
Segundo Cannon, ele se frustrava com o hábito do The Guardian de reduzir significativamente seus textos e, por isso, deixou de escrever para o jornal em 1972. Além disso, afirmou que havia perdido o interesse pelas tendências musicais contemporâneas, percepção refletida no fato de ter recebido, por dois anos consecutivos, o prêmio satírico "Pseud of the Year", concedido pela revista Private Eye. Posteriormente, durante a década de 1970, escreveu o que considera alguns de seus "melhores textos" para as revistas Melody Maker e Time Out, então editadas por Richard Williams. Radio Times
No início de 1969, Cannon tornou-se editor da Radio Times, que então tinha uma circulação de 3,8 milhões de exemplares. Brian Gearing, seu sucessor na editoria, escreveu:
Elkan Allan, então editor do The Sunday Times Guide for Viewers, criticou a Radio Times, afirmando que ela continha "artigos periféricos e tangenciais, frequentemente de natureza trivial".
Em 1976, a Radio Times e Cannon receberam os prêmios de ouro da Design and Art Direction pela direção editorial de arte.
Cannon deixou a revista em 1979. Running
Entre 1979 e 1987, Cannon escreveu mensalmente a coluna Fun Runner para a revista Running. Organizou uma equipe, da qual também fazia parte, para participar da Maratona de Nova Iorque de 1980.
Posteriormente, criou o grupo London 1982/50, composto por 50 pessoas que treinaram e participaram da Maratona de Londres de 1982.
Como resultado dessa iniciativa, foram criados quatro clubes de corrida comunitários em diferentes regiões de Londres, entre eles o Serpentine Running Club, do qual Cannon foi um dos fundadores. Saúde, nutrição e condicionamento físico
The Sunday Times, Dieting Makes You Fat
Após seus dez anos como editor da Radio Times, Cannon tornou-se editor assistente do The Sunday Times. Seu interesse pelo condicionamento físico resultou na cobertura regular do projeto comunitário de corrida Getting in Shape, desenvolvido a partir do Fun Runner '82. Na edição de Ano-Novo de 1982 do The Sunday Times, foi publicada uma reportagem de Cannon intitulada Dieting Makes You Fat ("Fazer dieta engorda").
Em seguida, Cannon e Hetty Einzig escreveram o livro Dieting Makes You Fat, que alcançou o primeiro lugar na lista de livros mais vendidos do Reino Unido.
Posteriormente, Cannon descobriu que um relatório oficial sobre o estado da nutrição e da saúde no Reino Unido havia sido adiado e, supostamente, suprimido devido à sua principal conclusão: a de que a dieta típica britânica era uma das principais causas de diversas doenças e condições incapacitantes ou fatais.
Rascunhos sucessivos desse relatório foram repassados a Cannon. Como resultado, ele publicou uma reportagem de capa e uma reportagem de página inteira no interior do The Sunday Times. Esses artigos receberam o Van den Berghs Reporting Award de 1983.
Cannon deixou o The Sunday Times em 1983. New Health
No início de 1984, Cannon tornou-se editor da revista New Health, publicada pela Haymarket Press. De outubro de 1984 até o encerramento da revista, em outubro de 1986, escreveu uma coluna mensal, pela qual recebeu, em 1986, o prêmio da revista The Publisher de melhor colunista especializado.
Em 1985, idealizou uma série de seis reportagens intitulada Fat to Fit e, em 1986, outra série de cinco reportagens sobre aditivos alimentares, que recebeu o prêmio da Periodical Proprietors' Association de melhor campanha do ano.
Ambas as séries deram origem a livros. The Food Scandal
Em 1984, juntamente com Caroline Walker, nutricionista e ativista inglesa da alimentação que mais tarde se tornaria sua segunda esposa, Cannon escreveu The Food Scandal, obra que se tornou um best-seller no Reino Unido.
Com base no livro, o The Times publicou três reportagens de página inteira escritas por Cannon: Food, treacherous food, The cover-up that kills, e So you think you eat healthily.
Dois capítulos de The Food Scandal abordavam o consumo de sal e açúcar, ambos identificados no relatório do National Advisory Committee on Nutrition Education (NACNE) como nutrientes consumidos em excesso pela população britânica. O livro citava marcas que continham esses ingredientes, entre elas Bovril. Contudo, o produto continha caramelo, que, em sua forma industrial, não é uma variação do açúcar. A Beecham Group — então proprietária da Bovril — moveu uma ação judicial por difamação e obteve na Alta Corte britânica uma liminar contra os autores e a editora.
Em 1985, foi publicada uma edição de bolso revisada e ampliada da obra.
Posteriormente, Cannon escreveu The Good Fight, biografia de Caroline Walker, que morreu de câncer colorretal em 1988. The Politics of Food
Apesar de seu título sugestivo, o livro The Politics of Food (1987) limitava-se a examinar como a indústria de fabricação de alimentos processados, sem ser contida pelo governo ou por seus consultores especializados, influenciava o abastecimento alimentar e, consequentemente, os hábitos de consumo no Reino Unido durante a década de 1980. A obra recebeu críticas divergentes.
A revista The Economist mostrou-se cética em relação ao livro, enquanto Bernard Levin escreveu no The Times:
"O que comemos e a forma como nos alimentamos são o próximo alvo daqueles que não descansarão enquanto não nos obrigarem, sob ameaça de processo judicial, a fazer o que desejam [...] O líder incontestável dessa nova espécie de fanático é Geoffrey Cannon."
O livro foi publicado em capítulos no The Independent e recebeu, em 1987, o Argos Award de melhor reportagem em jornal. Também foi serializado na revista She, cuja publicação recebeu o Publisher Award de melhor reportagem em revista.
No final da década de 1980 e durante a década de 1990, Cannon colaborou com organizações profissionais e entidades da sociedade civil voltadas ao interesse público. Entre elas estavam o London Road Runners Club, onde, juntamente com outros colegas, desenvolveu o sistema de classificação por idade STAR*RANK (standards, records and ranking), utilizado em corridas de rua oficialmente homologadas, e o Caroline Walker Trust, do qual foi cofundador e secretário.
Em 1985, foi um dos fundadores da National Food Alliance (NFA), organização que reunia cerca de cem entidades nacionais do Reino Unido dedicadas à alimentação, agricultura e saúde, exercendo sua presidência ao longo da década de 1980. Posteriormente, a NFA transformou-se na Sustain: the alliance for better food and farming.
Nessa condição, Cannon integrou a delegação do governo do Reino Unido, representando a sociedade civil, na Conferência Internacional sobre Nutrição de 1992, organizada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Participou das reuniões preparatórias realizadas em Copenhague e Genebra, bem como da conferência final, realizada em dezembro de 1992, em Roma.