A divisão racial do trabalho de cuidados corresponde à separação e hierarquização das atividades de cuidado com base nas relações de raça/etnia. Antes de tudo, é importante compreender que o trabalho de cuidado concerne à atividade de cuidar de outra pessoa, seja dando atenção e acolhimento, ou possibilitando as condições para que as suas necessidades básicas sejam atendidas. Esse trabalho se concentra na manutenção da vida dos/as beneficiários/as do cuidado, fornecendo respostas que mobilizam as dimensões físico, cognitiva, sexual, relacional e emocional.

Relações sociais de raça/etnia Essencialmente, as relações sociais de raça/etnia se encontram enraizadas no sistema colonial, uma ordem societária produtora de relações baseadas na inferioridade e na dominação da população negra (preta e parda). Essas concepções dão materialidade não somente à estigmatização social, mas à uma subalternização estrutural que associa as pessoas pretas e pardas a um rol de atividades socialmente desvalorizadas. Logo, é possível inferir que a divisão de classes e e a divisão sociossexual são indissociáveis da divisão racial do trabalho, pois, de maneira entrelaçada, elas forjam os determinantes para uma sociedade com desigualdades alarmantes.

Trabalho de cuidados e divisão racial no Brasil Em suas obras, a autora Helena Hirata afirma que no contexto do Brasil e da França o trabalho de cuidados é realizado por migrantes. Especificamente em território brasileiro, o trabalho formal e informal de cuidados não ocorre associado à imigração, mas a processos migratórios internos protagonizadas por mulheres em situação de extrema pauperização, que mudam de regiões em busca de uma remuneração mais estável. Esses fluxos são expressivos na região Nordeste, entretanto, o fenômeno pode ser observado em outras localidades do país.

À luz das particularidades brasileiras, pode-se mencionar o trabalho realizado pelas trabalhadoras domésticas, importantes agentes que são reflexo da formação sócio-histórica do país e sustentam a base de cuidados das sociedades mais abastadas. Tais mulheres desempenham um papel central para a manutenção da vida e a reprodução da força de trabalho, mas também para o pacificação dos conflitos intrafamiliares da classe média/alta. Isso porque, no Brasil, o emprego doméstico é marcado pelo recorte de raça/etnia, sendo majoritariamente atribuído às mulheres em condições de vulnerabilidade socioeconômica.

Segundo um estudo publicado pelo Ministério das Mulheres, em 2025, as trabalhadoras domésticas representam 25% da força de trabalho remunerada no setor de cuidados no Brasil. Assim, a categoria já soma quase 6 milhões no país, das quais 64,5% recebem menos do que um salário mínimo. Nesse contexto, a Lei Complementar nº 150/2015 ou popularmente conhecida como PEC das Domésticas constituiu-se como um marco histórico para o reconhecimento da categoria, que define:

É claro que as mulheres não estão presentes apenas nessa dimensão do trabalho (mas em diversas outras, como técnicas de enfermagem, enfermeiras médicas, babás, cuidadoras sociais e de idosos, professoras, assistentes sociais, etc), mas é evidente que a elas são delegadas as atividades rotineiras, incessantes, inadiáveis e incontornáveis que garantem a sustentabilidade da vida humana.

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