A Lacedaemonion Politeia (), conhecida em português como Constituição dos Lacedemônios ou A República dos Lacedemônios é um tratado atribuído ao historiador grego antigo Xenofonte, que descreve as instituições, os costumes e as práticas dos antigos espartanos. A obra examina as razões do poder e da fama de Esparta, apesar da população esparsa da cidade-estado. Possui quinze capítulos: os treze primeiros enumeram as práticas e instituições que tornaram Esparta grande; os dois últimos descrevem o declínio de Esparta e a sobrevivência de sua monarquia. A Constituição dos Lacedemônios data do período entre 387 e 375 AEC e é o único relato contemporâneo do sistema político espartano que sobreviveu.Lipka 9: "Both arguments carry all the more weight since the SC is the only surviving Spartan constitution". Juntamente com a " Vida de Licurgo " de Plutarco, fornece a descrição mais detalhada que sobreviveu do estado espartano,Hall 204. e é considerada a melhor fonte de informação sobre as mulheres espartanas durante a antiguidade clássica.
Autoria e datação A Constituição dos Lacedemônios está incluída na coleção de obras de Xenofonte que sobreviveram ao tempo. A atribuição da obra à Xenofonte é apoiada por uma menção nesse sentido nas obras de Plutarco. O consenso da maioria da opinião acadêmica dos séculos XIX e XX é que Xenofonte é o autor da obra. Quaisquer imperfeições são consideradas menores em comparação com sua estrutura e composição geral, e são atribuídas a erros de publicação e edição por outros ao longo dos séculos, ou mesmo a eventos angustiantes na vida de Xenofonte. Com base no conteúdo da obra, o capítulo XIV é datado de de 378 AEC, aproximadamente na época da Segunda Liga Ateniense em 375 AEC. Os capítulos anteriores a esse datam dos nove anos anteriores a 378 AEC, ou seja, 387–378 AEC.
Motivação Na introdução, Xenofonte escreveu:
Acredita-se que a atenção de Xenofonte se voltou para Esparta após alguma vitória militar daquela cidade-Estado. Parece que o evento que mais provavelmente impressionou Xenofonte foi a vitória de Esparta sobre Atenas durante a Guerra do Peloponeso, ocorrida quando ele era jovem. Ele descreveu todas as leis e práticas espartanas como derivadas das reformas de Licurgo, que também se acreditava terem sido santificadas por Apolo em Delfos. A maioria dos estudiosos modernos classifica a obra como um elogio a Esparta e aos esparciatas, exaltados por Xenofonte como exemplo dos valores aristocráticos helênicos. Tal termo foi generalizado por ele para pensar os cidadãos espartanos como um todo.
A obra é entendida como uma crítica à realidade ateniense por meio das descrições da pólis espartana. Xenofonte entendia o regime democrático de Atenas como declinante devido à perda de valores aristocráticos helênicos, mas que se mantinham predominantes em Esparta, difusora de tradições ancestrais. Com essa crítica em perspectiva, o autor tratou apenas questões que considerava exemplares dos espartanos, com o objetivo de melhorar a sociedade ateniense de que fazia parte e, por fim, superar Esparta.
Conteúdo e estrutura A obra consiste em quinze capítulos, numerados de I a XV. Nos primeiros treze capítulos, Xenofonte examina os atributos do Estado espartano que contribuíram para tornar Esparta uma cidade tão poderosa e renomada na Grécia Antiga. Os dois últimos capítulos divergem desse foco e se concentram, em vez disso, no declínio de Esparta e, em seguida, na sobrevivência da monarquia nesse Estado em declínio.
No Capítulo I, Xenofonte enumera os métodos de criação de filhos usados pelos espartanos para gerar crianças fortes. Os capítulos II a IV descrevem a educação das crianças espartanas como um processo que durava a vida toda, começando na infância e continuando até a idade adulta. Xenofonte explica como esse processo educacional produzia cidadãos humildes e cumpridores da lei, que ao mesmo tempo podiam ser ousados e engenhosos. Ele também menciona que os espartanos praticavam a caça durante a maior parte de suas vidas. O capítulo V descreve as instituições espartanas que produzem cidadãos moderados em seus hábitos, portadores de boas maneiras públicas e fisicamente fortes por meio de exercícios regulares.
O Capítulo VI explica o igualitarismo espartano e a indiferença dos espartanos em relação ao status econômico, bem como sua disposição em ajudar aqueles com menos recursos. O Capítulo VII aborda o completo desdém dos espartanos pelo dinheiro, seu grande interesse pelo dever cívico e seu compromisso com a liberdade de Esparta. O capítulo VIII descreve a deferência e obediência dos espartanos às suas leis e autoridades, e também o poder do governo espartano de administrar a justiça.
O capítulo IX refere-se ao senso de honra espartano, que os impelia a preferir uma morte honrosa em batalha ao invés da rendição. O capítulo X detalha como a sociedade espartana promove a boa cidadania por meio de premiações públicas, enquanto os capítulos XI a XIII detalham a estratégia militar espartana, a liderança e o ethos.
No capítulo XIV, Xenofonte muda de rumo e, em vez de explicar mais detalhadamente os fatores que tornaram Esparta grandiosa, enumera como o estado espartano da época se corrompeu e deixou de obedecer às leis de Licurgo. No mesmo capítulo, Xenofonte explica ainda como esse declínio da moral e do prestígio espartanos fez com que os outros Estados gregos deixassem de admirar Esparta como líder e, em vez disso, se unissem contra ela para impedi-la de governar o resto da Grécia. No capítulo XV, Xenofonte termina contando como, apesar de seu declínio, a cidade-estado permaneceu fiel à instituição do rei.
Educação espartana Para Xenofonte, a grandeza de Esparta está relacionada à organização de um sistema social e político voltado principalmente para a formação de cidadãos marcados pela virtude militar e pela obediência. Esse objetivo está presente em diferentes aspectos da vida espartana, como as refeições coletivas, a participação na guerra e os rituais conduzidos pelo rei. Na narrativa de Xenofonte, essas práticas aparecem como manifestações de uma ordem social constantemente regulada pelas autoridades e pela própria vigilância dos cidadãos.
A seção dedicada à educação lacedemônia apresenta uma proposta diferenciada em relação ao modelo de paideia ateniense. A formação das crianças está vinculada ao âmbito comunitário, sendo organizada coletivamente com a finalidade de evitar que decisões privadas possam alterar ou enfraquecer o caráter dos indivíduos. Dessa forma, a educação espartana estabelece mecanismos de controle que dependem tanto de funcionários específicos quanto da própria comunidade.
Xenofonte enfatiza essa dimensão comunitária da educação, pois entende que, ao deixar a cada indivíduo a possibilidade de praticar ou não a virtude, não há garantia de que ela produza efeitos reais na sociedade.
A centralidade atribuída à educação em A Constituição dos Lacedemônios também tem sido destacada pela historiografia contemporânea. A formação dos jovens é considerada um dos principais elementos utilizados pelos autores antigos para explicar a singularidade de Esparta. Nesse contexto, a descrição apresentada por Xenofonte integra uma tradição compartilhada também por Platão e Aristóteles, para os quais a organização da educação ocupava papel fundamental na estrutura política e social da pólis.
A historiografia também tem ressaltado o caráter seletivo da representação construída por Xenofonte. A obra concentra sua atenção nos esparciatas, grupo que detinha os direitos políticos em Esparta, e apresenta sua educação como parte de um modelo político voltado à preservação das leis, da ordem social e dos valores aristocráticos associados à pólis. Nessa perspectiva, a educação descrita em A Constituição dos Lacedemônios tem sido interpretada não apenas como uma instituição espartana, mas também como um dos principais elementos da construção da imagem de Esparta elaborada pelo autor.
Interpretações historiográficas
Interpretação tradicional Durante muito tempo, A Constituição dos Lacedemônios foi interpretada como um elogio das instituições espartanas e de seu sistema político-social. Essa leitura esteve associada à trajetória de Xenofonte, frequentemente relacionada à sua proximidade com Esparta e à sua ligação com o rei espartano Agesilau II. Em consequência, a obra foi muitas vezes considerada uma demonstração da admiração do autor pela organização da pólis espartana.
Nessa perspectiva, o texto foi compreendido como uma explicação para a proeminência alcançada por Esparta entre as póleis gregas. A força e a estabilidade da cidade são atribuídas à observância das leis tradicionalmente associadas a Licurgo, à educação coletiva dos cidadãos e à formação de valores como disciplina, obediência e autocontrole. Esses elementos são apresentados por Xenofonte como fatores centrais para a preservação da ordem social e para o desenvolvimento das virtudes cívicas entre os esparciatas.
Essa interpretação também destaca o contraste estabelecido ao longo da obra entre os costumes espartanos e aqueles observados em outras cidades gregas. Por meio dessas comparações, Xenofonte associa o sucesso de Esparta à manutenção de instituições e práticas que, segundo sua descrição, contribuíam para a formação de cidadãos comprometidos com os interesses da comunidade e com a observância das leis da pólis.
A partir do final do século XX, novas abordagens passaram a questionar a interpretação da obra como um elogio incondicional das instituições espartanas.
Interpretações contemporâneas Estudos mais recentes têm proposto interpretações que vão além da leitura da obra como um simples elogio das instituições espartanas. Nessa perspectiva, A Constituição dos Lacedemônios é entendida como uma obra inserida nos debates políticos e sociais do século IV AEC, período marcado por transformações nas relações de poder entre as póleis gregas e por discussões acerca dos modelos de organização política.
Sob essa interpretação, a descrição das instituições espartanas não se limita à apresentação dos costumes e leis da pólis. A valorização da educação coletiva, da disciplina, da obediência às leis e da formação moral dos cidadãos é frequentemente relacionada às preocupações de Xenofonte com a realidade ateniense de sua época. Desse modo, a obra tem sido analisada também como uma reflexão sobre a formação do cidadão e sobre os princípios que deveriam orientar a vida política e social da comunidade.
Essa abordagem destaca ainda o caráter seletivo da representação construída por Xenofonte. O autor concentra sua atenção nos esparciatas, grupo que detinha os direitos políticos em Esparta, apresentando-os como exemplos de virtude, autocontrole e compromisso com o bem comum. Em consequência, a obra tem sido interpretada não apenas como uma fonte sobre as instituições espartanas, mas também como uma expressão dos valores políticos e aristocráticos que o autor considerava exemplares no mundo grego.
Reavaliações historiográficas A recepção moderna das obras de Xenofonte passou por mudanças significativas ao longo dos séculos XIX e XX. Durante o século XIX, parte da historiografia considerava o autor inferior a pensadores como Platão e Aristóteles, avaliando sua escrita como excessivamente simples e marcada por sua experiência militar. Nesse contexto, Xenofonte foi frequentemente retratado como um escritor de menor sofisticação intelectual e como um defensor das posições aristocráticas e oligárquicas associadas às elites gregas.
Ao longo do século XX, novas abordagens passaram a questionar essa caracterização. Entre elas, destacaram-se os estudos de Leo Strauss, que propuseram uma leitura mais atenta às ambiguidades do texto e à possibilidade de que determinadas passagens contivessem críticas implícitas às instituições descritas. Embora essa interpretação permaneça objeto de debate, ela contribuiu para uma reavaliação mais ampla da obra e do próprio Xenofonte.