Mãe Bonifácia (falecida em 1867) foi uma figura histórica e símbolo da resistência negra em Cuiabá, Mato Grosso, durante o século XIX. Foi uma mulher possivelmente escravizada e posteriormente alforriada, que viveu em uma região que servia de rota de fuga e acolhimento para escravizados fugitivos. Conhecida por fornecer apoio, alimentação e praticar curandeirismo com os fugitivos feridos e doentes, ela obteve uma forte reputação popular. Seu legado na memória cuiabana dá nome a bairros da região e ao Parque Estadual Mãe Bonifácia, uma das principais áreas verdes da capital mato-grossense que se localiza na região de sua moradia. Biografia miniaturadaimagem|Estátua da Mãe Bonifácia no Parque Estadual Mãe Bonifácia Há controvérsias sobre a história de Mãe Bonifácia, tendo em vista que a documentação e os estudos sobre a sua vida ainda são escassas, existindo inclusive uma discussão sobre a sua existência, não tendo sido encontrados registros do seu nascimento, o que dificulta estabelecer o seu local e data de nascimento. Entretanto, há diversos registros oficiais e relatos orais que comprovam que, ao longo do século XIX, os cuiabanos referiam-se à Mãe Bonifácia como uma personalidade real da região.

O professor e escritor cuiabano Francisco Alexandre F. Mendes publicou no Jornal de Mato Grosso de Cuiabá, em 1960, que Mãe Bonifácia não teria sido uma mulher escravizada. Por outro lado, o geógrafo Aníbal Alencastro afirma que Mãe Bonifácia teve a condição de escravizada e alforriada. Já com a idade avançada, residiu numa localidade de Cuiabá onde se encontrava um quilombo e que, nos dias atuais, corresponde ao bairro denominado "Quilombo".

Mãe Bonifácia vivia da renda do ensino de crivo e rendas de bilro a mulheres cuiabanas, bem como da hortaliça que cultivava no terreno em que vivia, na margem do Córrego do Caixão, à margem da estrada da antiga "Rua dos Tocos", local onde hoje se encontra a Avenida Marechal Floriano Peixoto em Cuiabá, além de produzir diversas peças artesanais para venda a famílias cuiabanas, o que lhe garantia uma vida confortável.

O local de moradia de Mãe Bonifácia servia como uma parada de descanso e abastecimento nas rotas de fuga dos negros escravizados fugitivos de Cuiabá. Boa parte destes seguiam viagem para a região do Quilombo do Manso, que atualmente encontra-se submerso pela barragem de mesmo nome. Por esse motivo, diversos bairros e avenidas atuais que se encontram na localidade dessa rota de fuga colonial e imperial em Cuiabá possuem nomenclaturas que remetem a territorialidades africanas, como Baú Sereno, Lixeira, Araés, Quilombo, Lava-pés e o próprio Parque Estadual Mãe Bonifácia.

Em sua moradia, Mãe Bonifácia exercia práticas de curandeirismo com a população negra, e era conhecida pelos préstimos e generosidade, tendo sido esse o motivo de passar a ser conhecida pela alcunha de "Mãe Bonifácia". Há relatos do final do século XIX que testemunham que Mãe Bonifácia curava os escravizados fugitivos afligidos por lepra, varíola e outras doenças, e dava a eles proteção, cuidado e alimentação. Depois de curados, alguns desses fugitivos construíram casas de adobe cobertas com folha de coqueiro perto da moradia de Mãe Bonifácia, e passaram a trabalhar cuidando da roça de arroz, mandioca, feijão, banana e abóbora junto com a Mãe Bonifácia.

Durante o século XIX, Mãe Bonifácia possuía uma fama de feiticeira, com relatos populares de que ela fazia com que os invasores ficassem cegos, caíssem em desgraça, e que ela tinha o poder de desaparecer na mata. Essa imagem, inclusive, tinha a capacidade de inibir os aventureiros em busca de capturar escravizados fugitivos na região.

Mãe Bonifácia faleceu no ano de 1867, possivelmente em decorrência da epidemia da varíola que atingiu Cuiabá durante a Guerra do Paraguai. Em certidão de óbito, ela foi identificada como Bonifácia, escrava de Dona Leopoldina da Gama e Silva.

Seu impacto na memória cuiabana era notável já nos seus últimos anos de vida, tendo sido encontrada uma menção a localidade "Mãe Bonifácia" em um processo crime sobre a fuga de um escravizado no ano de 1864. A região em que morava já era denominada de "Mãe Bonifácia" desde o ano de 1835.

Legado Em junho de 2000, foi criado na região em que Mãe Bonifácia morou o Parque Estadual Mãe Bonifácia, que possui 77 hectares e é uma das maiores áreas verdes inseridas em Cuiabá, capital do estado de Mato Grosso.

Em março de 2026, foi lançado um longa-metragem de ficção denominado "Mãe Bonifácia", estrelado por Zezé Motta. Gravada no ano de 2025 no município de Sorriso, estado de Mato Grosso, a obra retrata a história de Mãe Bonifácia e suas ações em prol dos escravizados fugitivos no estado.

Referências

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