miniatura|Sede do Templo do Povo, 1859 Geary Boulevard, São Francisco, 1978

O Templo do Povo, o novo movimento religioso que se tornou conhecido pelos assassinatos em massa em Jonestown, teve sua sede em São Francisco, Califórnia, Estados Unidos, desde o início até meados da década de 1970, até a transferência do Templo para a Guiana em 1977. Durante esse período, o Templo e seu fundador, o reverendo Jim Jones, alcançaram projeção nacional graças ao interesse de Jones por causas sociais e políticas, exercendo considerável influência sobre o governo municipal de São Francisco.

O Templo do Povo teve origem em 1955 como uma igreja cristã racialmente integrada fundada pelo reverendo Jim Jones. Embora o Templo tenha surgido em áreas suburbanas de Indiana, a congregação mudou-se para Redwood Valley, na Califórnia, no final da década de 1960, após Jones prever um holocausto nuclear que daria início a um paraíso socialista na Terra. Em meados da década de 1970, a organização possuía mais de uma dúzia de instalações na Califórnia, incluindo em São Francisco e Los Angeles.Wessinger, Catherine. How the Millennium Comes Violently: From Jonestown to Heaven's Gate. Seven Bridges Press, 2000. .Reiterman, Tim; Jacobs, John. Raven: The Untold Story of Rev. Jim Jones and His People. Dutton, 1982. . pp. 163–164.

Posteriormente, sua sede foi transferida para São Francisco, onde Jones permaneceu até julho de 1977, quando fugiu com quase mil membros do Templo para o assentamento isolado do grupo em Jonestown, na Guiana, após a publicação de uma reportagem investigativa na revista New West.

Atividades em São Francisco

Quando o Templo expandiu suas operações para a Área da Baía de São Francisco na década de 1970, seus funcionários concentraram-se em divulgar as caravanas de ônibus da organização para atrair novos convertidos, inclusive distribuindo pequenos brindes gratuitos. Em 1972, embora o Templo ainda chamasse sua instalação em Redwood Valley de "igreja mãe" de um movimento de âmbito estadual, a transferência do centro de poder para uma área urbana parecia uma necessidade estratégica.Reiterman, Tim; Jacobs, John. Raven: The Untold Story of Rev. Jim Jones and His People. Dutton, 1982. . p. 164. Desde 1970, o Templo já realizava cultos em São Francisco e Los Angeles.

miniatura|300px|O edifício na Geary Boulevard, 1859, após o terremoto de 1906.

Em 1971, o Templo estabeleceu uma instalação permanente em São Francisco, no número 1859 da Geary Boulevard, em um antigo edifício da Maçonaria do Rito Escocês. Dois anos depois, uma instalação foi aberta em Los Angeles. O Templo adquiriu o edifício da Geary Boulevard por US$ 122.500 em 1972.Kilduff, Marshall; Javers, Ron. Suicide Cult: The Inside Story of the Peoples Temple Sect and the Massacre in Guyana. Bantam Books, Nova Iorque, 1978. . p. 39. Embora a unidade de Los Angeles tenha inicialmente atraído um número maior de membros, em sua maioria afro-americanos, o Templo posteriormente convenceu centenas de seguidores devotados de Los Angeles a se mudarem para o norte, a fim de participar das reuniões realizadas na Geary Boulevard.

Em agosto de 1975, Jones havia abandonado completamente os planos anteriores de transformar Redwood Valley em uma "terra prometida" interna. A mudança do foco das atividades do Templo das áreas rurais para os centros urbanos, onde se concentrava quando estava em Indiana, estava completa. O ambiente liberal e contracultural de São Francisco refletia melhor a política do Templo do que a conservadora Indiana, e a mudança para São Francisco permitiu que Jones e seus seguidores fossem mais abertos em relação à sua ideologia.

Entretanto, as cerimônias de cura pela fé realizadas por Jones representavam um problema para o Templo, pois também atraíam conservadores religiosos menos propensos a aderir a uma organização socialista. Por essa razão e devido ao temor constante do Templo em relação a supostas conspirações externas contra sua mensagem, os novos membros eram cuidadosamente examinados.

Os visitantes da instalação da Geary Boulevard não tinham livre acesso às áreas internas do edifício. Em vez disso, eram recebidos por um grupo de interrogadores discretos e cordiais, encarregados de avaliar os visitantes, enquanto indivíduos considerados "suspeitos" eram instruídos a esperar indefinidamente no saguão.Reiterman, Tim; Jacobs, John. Raven: The Untold Story of Rev. Jim Jones and His People. Dutton, 1982. . p. 165. Aos participantes admitidos, o Templo designava uma espécie de "intérprete" para observar suas reações durante as reuniões e "explicar" as declarações de Jones. Se o visitante não despertasse objeções, iniciava-se um período de observação de cinco semanas, que geralmente incluía a inspeção do lixo do indivíduo na terceira ou quarta semana.

Vida no Templo em São Francisco

À medida que o Templo transferiu seu foco para os centros urbanos em meados da década de 1970, as comunas tornaram-se um importante instrumento para reforçar o controle sobre os membros e melhorar as finanças da organização.Reiterman, Tim; Jacobs, John. Raven: The Untold Story of Rev. Jim Jones and His People. Dutton, 1982. . p. 256. Os membros do Templo em São Francisco eram incentivados a adotar um estilo de vida comunitário.Reiterman, Tim; Jacobs, John. Raven: The Untold Story of Rev. Jim Jones and His People. Dutton, 1982. . p. 255. Esperava-se que os integrantes promovidos ao principal órgão dirigente do Templo, a Comissão de Planejamento, passassem a viver em comunas. O dinheiro economizado por meio da vida comunitária deveria ser doado ao Templo.

As crianças dos membros também eram criadas de forma "comunitária", frequentemente em outras comunas do Templo ou sob tutela de outros membros. O Templo enfatizava a disciplina física, que incluía repetidas palmadas aplicadas com uma pá de madeira diante de outros membros.Reiterman, Tim; Jacobs, John. Raven: The Untold Story of Rev. Jim Jones and His People. Dutton, 1982. . p. 259. Posteriormente, essa prática evoluiu para lutas de boxe disciplinares, nas quais a criança punida era colocada em desvantagem contra um ou mais membros. Mais tarde, os próprios adultos do Templo passaram a ser submetidos tanto às punições com a pá quanto às lutas de boxe.

As reuniões da Comissão de Planejamento em São Francisco frequentemente se estendiam por toda a noite.Kilduff, Marshall; Javers, Ron. Suicide Cult: The Inside Story of the Peoples Temple Sect and the Massacre in Guyana. Bantam Books, Nova Iorque, 1978. . pp. 61–64. Elas geralmente envolviam longas sessões de "catarse", nas quais alguns membros eram chamados ao centro da sala para serem submetidos a uma análise emocional pública, incluindo questionamentos sobre o motivo de usarem roupas elegantes enquanto outras pessoas no mundo passavam fome. Esperava-se que os demais participantes acusassem aqueles que estavam "no centro" de diversas condutas proibidas, sendo considerado inadequado que os acusados apresentassem defesa. O Templo também exigia que os adultos assinassem documentos confessando diversos crimes e irregularidades, incluindo conspiração contra o governo dos Estados Unidos, participação em atos terroristas e abuso sexual contra os próprios filhos. Caso tentassem deixar o Templo, Jones ameaçava divulgar tais declarações.

O Templo converteu alguns imóveis anteriormente pertencentes a seus membros em unidades de habitação comunitária, chegando a possuir pelo menos uma dúzia dessas instalações espalhadas pelo distrito de Fillmore, em São Francisco.Kilduff, Marshall; Javers, Ron. Suicide Cult: The Inside Story of the Peoples Temple Sect and the Massacre in Guyana. Bantam Books, Nova Iorque, 1978. . p. 84. Os bens dos membros que viviam nas comunas eram vendidos por meio de duas lojas de antiguidades do Templo e em mercados de pulgas realizados nos fins de semana. Devido às limitações de espaço nas comunas, o chefe de segurança do Templo, Jim McElvane, matou a tiros e enterrou em valas comuns os animais de estimação pertencentes aos membros.

Relações com a mídia

miniatura|300px|Dr. Carlton B. Goodlett (à direita) e o reverendo Jim Jones (segundo à direita) recebendo o Prêmio Humanitário Martin Luther King Jr. na Glide Memorial Church, em janeiro de 1977

Em 1972, Jones conheceu pela primeira vez o Dr. Carlton Goodlett, editor do jornal de São Francisco The Sun Reporter, voltado ao público afro-americano.Reiterman, Tim; Jacobs, John. Raven: The Untold Story of Rev. Jim Jones and His People. Dutton, 1982. . p. 263. Os dois encontraram-se em comícios políticos e no consultório médico de Goodlett. Pouco depois, o The Sun Reporter concedeu ao Templo um "Prêmio Especial de Mérito".Reiterman, Tim; Jacobs, John. Raven: The Untold Story of Rev. Jim Jones and His People. Dutton, 1982. . p. 264. Michael Prokes, assessor de imprensa do Templo e ex-repórter de uma afiliada da CBS, jantou com Tom Fleming, editor do The Sun Reporter, e falou sobre supostos atos de perseguição contra o Templo por parte da CIA e do FBI.

O Templo e Goodlett logo estabeleceram uma aliança, permitindo que o Templo imprimisse seu jornal Peoples Forum nas prensas do The Sun Reporter.Reiterman, Tim; Jacobs, John. Raven: The Untold Story of Rev. Jim Jones and His People. Dutton, 1982. . p. 265. O acordo mostrou-se lucrativo para o The Sun Reporter, e Jones e Goodlett iniciaram outro empreendimento na área da comunicação para investir e reorganizar o jornal The Journal and Guide, de Norfolk, na Virgínia.Goodlett, Carlton B. Notes on Peoples Temple, reimpresso em Moore, Rebecca; McGehee III, Fielding M. The Need for a Second Look at Jonestown. Edwin Mellen Press, 1989. . A primeira edição do Peoples Forum foi publicada em 1973, enquanto uma edição em formato ampliado passou a ser produzida em 1976.Reiterman, Tim; Jacobs, John. Raven: The Untold Story of Rev. Jim Jones and His People. Dutton, 1982. . p. 137.

Embora Jones esperasse transformar o Peoples Forum no terceiro maior jornal diário de São Francisco, atrás apenas do San Francisco Chronicle e do San Francisco Examiner, e exagerasse ao afirmar que a circulação atingia 600 mil exemplares, o periódico alcançou uma circulação de aproximadamente 60 mil exemplares.Kilduff, Marshall; Javers, Ron. Suicide Cult: The Inside Story of the Peoples Temple Sect and the Massacre in Guyana. Bantam Books, Nova Iorque, 1978. . p. 43. Apesar de o The Sun Reporter publicar matérias favoráveis ao Templo e da proximidade entre Jones e Goodlett, Jones referia-se ao editor, em privado, como um "comunista de Cadillac".

Jones também cultivou relações com outros meios de comunicação. No Chronicle, o renomado colunista Herb Caen era o contato mais influente do Templo na imprensa, enquanto o editor municipal Steven Gavin frequentava os cultos do grupo acompanhado por um repórter do Chronicle.Reiterman, Tim; Jacobs, John. Raven: The Untold Story of Rev. Jim Jones and His People. Dutton, 1982. . pp. 285, 306, 587. Diversos jornalistas de jornais e emissoras locais também se manifestavam favoravelmente ao Templo.

Em suas colunas, Caen reproduziu algumas das alegações feitas por Prokes sobre uma campanha coordenada de assédio ao Templo promovida pela CIA e pelo FBI.Reiterman, Tim; Jacobs, John. Raven: The Untold Story of Rev. Jim Jones and His People. Dutton, 1982. . p. 587. Jones também recebeu o prêmio de Homem do Ano da National Newspaper Publishers Association, concedido pela imprensa afro-americana dos Estados Unidos. O Templo mantinha ainda um programa semanal de rádio com duração de uma hora, transmitido em diversas cidades, incluindo pela emissora KFAX em São Francisco.