Ducineia Cardoso (São Francisco do Conde, 13 de maio de 1968), mais conhecida como Nega Duda, é uma cantora, compositora, escritora, sambadeira, arte-educadora e Makota (cargo atribuído dentro do candomblé de tradição Angolana). É uma das fundadoras do Bloco afro paulista Ilú Obá De Min. É considerada uma das principais referências do samba de roda do Recôncavo Baiano e do candomblé em São Paulo, tendo criado e liderado o grupo Samba de Roda Nega Duda, desde 2005 na capital paulista.

Biografia Ducineia Cardoso nasceu em 13 de maio de 1968, data que coincide com o aniversário da Abolição da Escravatura no Brasil, na cidade de São Francisco do Conde, município localizado a aproximadamente 90 km de Salvador, no Recôncavo Baiano. É a mais velha de doze irmãos; quatro deles faleceram ainda bebês por desnutrição.

Criada pela mãe, Hildete Cardoso — conhecida como dona Dete do Xangó —, limpadora de peixes da espécie xangó, teve desde a infância contato com o candomblé e o samba de roda. Seu nome artístico, Nega Duda, surgiu em associação à data de nascimento: na Bahia, o 13 de maio era celebrado como Dia dos Negros, e a família participava do Bembé do Mercado, festa de candomblé que reunia terreiros da região.

A infância foi marcada por privações materiais. Desde cedo, acompanhava a mãe nos rituais religiosos e registrava em cadernos os cantos e ritos aprendidos, que depois lia em voz alta para a mãe, analfabeta. Seu pai, era um operário em plataforma de petróleo, esteve ausente durante a criação dos filhos, retornando apenas quando Nega Duda já era mãe adolescente de dois filhos, Jackson e Jaqueline. Tem cinco netos.

Em 2003, mudou-se para São Paulo, onde passou a trabalhar como empregada doméstica. Sua ida à capital paulista não foi motivada por uma carreira artística, mas pela necessidade de trabalho.

Carreira artística A música esteve presente na vida de Nega Duda desde a infância. Sua avó cantava enquanto se dedicava a tarefas domésticas, e sua mãe assobiava pela casa e preferia o samba de roda. As frequentes idas ao candomblé ensinaram-lhe canções nos dialetos africanos iorubá (Nigéria) e quimbundo, da etnia bantu (Angola e Congo).

Sua estreia em âmbito internacional ocorreu aos 37 anos, em 2002, quando produtores culturais franceses vieram ao Brasil em busca de grupos regionais para participar do 17º Festival Printemps des Comédiens, em Montpellier, França. Ao todo, 38 artistas brasileiros representaram o país no evento, sendo que da Bahia, foram selecionadas apenas Nega Duda, então integrante do grupo Lindro Amor, e a sua conterrânea também sambadeira Rita da Barquinha. A experiência no exterior, segundo a própria artista, foi transformadora, especialmente no que diz respeito ao reconhecimento de sua identidade enquanto mulher negra.

Antes de se dedicar integralmente às atividades artísticas, trabalhou como diarista. Uma cirurgia nas cordas vocais para remoção de pólipos e o fato de alguns produtos de limpeza começarem a lhe fazer mal motivou-a a abandonar o trabalho doméstico. A partir disso, passou a cuidar da voz de maneira mais sistemática, abandonando inclusive o hábito de fumar.

Grupo Samba de Roda Nega Duda miniaturadaimagem|295x295px|Apresentação do grupo Samba de Roda Nega Duda. Em 2005, Nega Duda fundou em São Paulo o Samba de Roda Nega Duda, grupo voltado à preservação e difusão do samba de roda do Recôncavo Baiano — ritmo alçado a patrimônio oral e imaterial da humanidade pela UNESCO no mesmo ano. O grupo reúne percussionistas e sambadeiras e realiza apresentações periódicas na capital paulista.

O repertório do grupo é centrado nos sambas-corridos e nos sambas de caboclo, modalidades que Nega Duda aprendeu desde a infância e nos terreiros de candomblé. Além das apresentações musicais, o grupo produz eventos culturais que articulam samba, ancestralidade afro-brasileira e educação, trazendo referências do culto à capoeira, aos caboclos e aos orixás.

Atuação no Ilú Obá de Min Ainda em 2003, após retornar da França, Nega Duda conheceu Beth Beli, com quem estreitou laços de amizade durante a viagem a Montpellier. Em novembro de 2004, as duas, junto com Girlei e Adriana Aragão, fundaram o Bloco afro Ilú Obá de Min — expressão em iorubá que significa "mãos femininas que tocam tambor para Xangô", orixá das religiões de matriz africana que significa "Deus da justiça". O coletivo, composto exclusivamente por mulheres, representava uma proposta inédita no carnaval de rua de São Paulo. O grupo tem sede no centro de São Paulo e reúne cerca de 400 mulheres de diferentes religiões, atuando nas áreas de educação, cultura e arte negra, tendo como foco a ação com as culturas de matriz africana e afro-brasileira e a mulher negra, por meio de ensaios, desfiles carnavalescos, oficinas e palestras.

Dentro do coletivo, Nega Duda aprendeu a tocar tambor e desenvolveu sua voz. Em 2014, foi protagonista de um dos desfiles do bloco cujo enredo foi dedicado à sua trajetória e sua relevância para o samba de roda. O Ilú Obá de Min chegou a ser eleito, em 2015, o melhor bloco de São Paulo pelos leitores da Folha de S. Paulo.

Outros projetos Para além da atuação musical, Nega Duda dedica-se à preservação de saberes e tradições de matrizes africanas, abrangendo culinária e práticas espirituais. Tem como aspiração a criação da Casa da Nega – Sampa Recôncavo, espaço para a difusão e o ensino da cultura do Recôncavo Baiano em São Paulo. Paralelamente, mantém atuação contínua em shows, oficinas e iniciativas de educação cultural voltadas à valorização da cultura afro-brasileira.

Discografia

Tem Recôncavo em SP (2019) Primeiro álbum de estúdio do Samba de Roda Nega Duda, lançado nas plataformas digitais em 31 de maio de 2019. O projeto foi viabilizado pelo ProAC (2018). O disco reúne 35 faixas de sambas-corridos e sambas de caboclo, incluindo a faixa-bônus Kambinda, composta por Nega Duda em homenagem à escritora e artista plástica Raquel Trindade. A produção musical contou com a participação de percussionistas como Beth Beli, Roberta Viana, Anderson Araka, entre outros, com harmonização vocal de Mazé Cintra.

Reconhecimentos e homenagens

2024ː Título de Cidadã Paulistana concedido pela Câmara Municipal de São Paulo, em sessão solene no Centro Cultural São Paulo, por iniciativa da vereadora Luana Alves (PSOL). 2026ː Homenagem "Mulheres que movem a história de São Paulo" concedida em ato solene da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo pela Frente Parlamentar pela Defesa da Vida e Proteção de Mulheres e Meninas.

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