Dom Quixote é uma série de 370 gravuras em metal e xilogravuras criada por Gustave Doré, eminente artista francês do século XIX, para a ilustração de Dom Quixote de La Mancha de Miguel de Cervantes na edição em francês de 1863."Gustave Doré’s Exquisite Engravings of Cervantes’ Don Quixote" na página web "Open Culture", consultado em 29 de abril de 2018,
Do total das gravuras de Gustave Doré para ilustração de D. Quixote é apresentada a seguir uma selecção ilustrativa dos capítulos do volume II da edição em inglês de 1880 editado por J. W. Clark e integrada no ebook "Don Quixote" do Project Gutenberg, que utiliza a tradução de John Ormsby de 1885.Miguel de Cervantes, The History of Don Quixote, ilustrador: Gustave Doré, tradução para o inglês de John Ormsby, 1880, .
Para as ilustrações constantes do Volume I ver Dom Quixote (Gustave Doré).
Volume II Dedicatória ao Conde de Lemos Prólogo esquerda|miniaturadaimagem|O autor do segundo D. Quixote, ilustração (1863) de Gustave Doré
"VALHA-ME DEUS, com quanta vontade deves de estar esperando agora, leitor ilustre, ou plebeu, este prólogo, julgando achar nele vinganças, pugnas e vitupérios contra o autor do segundo D. Quixote; quero dizer, contra aquele que dizem que se gerou em Tordesilhas e nasceu em Tarragona. Pois em verdade te digo que te não hei-de dar esse contentamento, que, ainda que os agravos despertam a cólera nos mais humildes peitos, no meu há-de ter exceção esta regra. Quererias que eu lhe chamasse asno, atrevido e mentecapto; mas tal me não passa pelo pensamento; castigue-o o seu pecado e trague-o a seu bel-prazer, e que lhe não faça engulhos."
direita|miniaturadaimagem|"E finalmente morto e sepultado", ilustração de Gustave Doré para "D. Quixote" (1863), Prólogo, Volume II
"...e não lhe digas mais, nem eu quero dizer-te mais a ti, senão advertir-te que esta segunda parte do D. Quixote, que te ofereço, é cortada pelo mesmo oficial e no mesmo pano que a primeira, e que te dou nela D. Quixote dilatado, e finalmente morto e sepultado, para que ninguém se atreva a levantar-lhe novos testemunhos, pois já bastam os passados, e basta também que um homem honrado desse notícia destas discretas loucuras, sem querer de novo entrar com elas; que a abundância das coisas, ainda que sejam boas, faz com que se não estimem, e as más, quando são raras, alguma coisa se apreciam. Esquecia-me de te dizer que esperes o Pérsiles, que já estou acabando, e a segunda parte da Galateia.
Capítulo I — Do que passaram o cura e o barbeiro com D. Quixote acerca da sua enfermidade esquerda|miniaturadaimagem|Acharam-no sentado na cama, ilustração (1863) de Gustave Doré "...o cura e o barbeiro estiveram mais dum mês sem o ver, para lhe não renovarem e trazerem à memória as coisas passadas; mas nem por isso deixaram de visitar a sobrinha e a ama, recomendando-lhes que cuidassem de lhe dar bastantes regalos, guisando-lhe manjares confortativos e apropriados para o coração e o cérebro, donde procedia segundo o bom discorrer, toda a sua má ventura, e disseram elas que assim o faziam e continuariam a fazer com a melhor vontade e o maior cuidado possível, porque viam que o fidalgo ia dando a cada momento sinais de estar em todo o seu juízo. direita|miniaturadaimagem|Ilustração de Gustave Doré para "D. Quixote" (1863), Cap. I, Volume II
Ficaram ambos muito satisfeitos, por lhes parecer que tinham procedido acertadamente em o trazer encantado num carro de bois, como se contou na primeira parte desta grande e verídica história, no último capítulo, e assim resolveram visitá-lo e experimentar se estava curado, ainda que tinham quase por impossível que o estivesse, e deliberaram não lhe falar em coisa alguma de cavalaria andante, para não correrem perigo de lhe abrir de novo a ferida, que ainda estava tão fresca.
Visitaram-no, enfim, e acharam-no sentado na cama, vestido com um roupão de baeta verde, e na cabeça um barrete toledano de cor; e estava tão seco e mirrado, que não parecia senão uma múmia. Foram por ele muito bem recebidos, perguntaram-lhe pela sua saúde, e ele deu conta de si e dela, com muito juízo e muito elegantes palavras; e, no decorrer da sua prática, vieram a tratar do que chamam razão de estado e modos de governo, emendando este abuso e condenando aquele, reformando um costume e desterrando outro, fazendo-se cada um dos três um legislador, um Licurgo moderno ou um Sólon flamante.
Capítulo II — Que trata da notável pendência, que Sancho Pança teve com a sobrinha e ama de D. Quixote, e de outros sucessos graciosos esquerda|miniaturadaimagem|Sancho Pança, que pugnava para entrar e ver D. Quixote, ilustração (1863) de Gustave Doré "..os brados que ouviram D. Quixote, o cura e o barbeiro, eram da sobrinha e da ama, dizendo esta a Sancho Pança, que pugnava para entrar e ver D. Quixote, enquanto elas defendiam a porta: — Que quer este mostrengo nesta casa? Ide-vos para a vossa, irmão, que sois vós e não outrem quem tresvaria e alicia o meu amo, e o arrasta para essas andanças. direita|miniaturadaimagem|"Que vem de estudar em Salamanca", ilustração de Gustave Doré para "D. Quixote" (1863), Caoítulo II, Volume II A que Sancho respondeu: — Ó ama de Satanás, o tresvariado e o aliciado e o arrastado sou eu, e não teu amo; ele me levou por esses mundos de Cristo, e vós outras vos enganais de meio a meio; foi ele que me tirou da minha casa, com muitas lérias, prometendo-me uma ilha, que ainda hoje estou à espera dela. — Más ilhas te afoguem — respondeu a sobrinha — Sancho maldito; e que vem a ser isso de ilhas? é coisa de comer, guloso e comilão que tu és? — Não é de comer — tornou Sancho — mas de reger e governar, melhor do que quatro cidades e quatro alcaidarias da corte. — Pois com tudo isso — insistiu a ama — não entrareis cá, saco de maldades e costal de malícias; ide-vos governar a vossa casa, e lavrar as vossas leiras, e deixai-vos lá de querer ilhas nem ilhos.
"....mas se Vossa Mercê quer saber ao certo tudo o que há acerca das calunas que lhe levantaram, eu aqui lhe trago logo quem lhas dirá todas, sem lhe faltar nem uma mealha, que esta noite chegou o filho de Bartolomeu Carrasco, que vem de estudar em Salamanca e feito bacharel, e, indo-lhe eu a dar os emboras pela sua chegada, disse-me que já andava em livros a história de Vossa Mercê, com o nome do Engenhoso fidalgo D. Quixote de la Mancha, e que lá dão conta de mim com o meu próprio nome de Sancho Pança, e da senhora Dulcinéia del Toboso, com outras coisas que passamos a sós, que eu me benzi de espantado, de como as pôde saber o historiador que as escreveu.
Capítulo III — Do divertido arrazoamento que houve entre D. Quixote, Sancho Pança e o bacharel Sansão Carrasco esquerda|miniaturadaimagem|Pondo-se de joelhos diante dele, ilustração (1863) de Gustave Doré
"Era o bacharel, apesar de se chamar Sansão, não muito alto nem robusto, magano deveras, de cor macilenta, mas de ótimo entendimento; teria os seus vinte e quatro anos, cara redonda, nariz chato e boca grande, tudo sinais de ser malicioso de condição, e amigo de donaires e de burlas, como mostrou assim que viu D. Quixote, pondo-se de joelhos diante dele, e dizendo-lhe: — Dê-me Vossa Mercê as suas mãos, senhor D. Quixote de la Mancha, que, pelo hábito de S. Pedro que visto apesar de não ter outras ordens senão as quatro primeiras, é Vossa Mercê um dos mais famosos cavaleiros andantes que tem havido, ou haverá em toda a redondeza da terra. Bem haja Cid Hamete Benengeli, que deixou escrita a história das vossas grandezas, e se bem haja o curioso que teve cuidado de a mandar traduzir do árabe no nosso castelhano vulgar, para universal entretenimento das gentes. D. Quixote fê-lo levantar, e disse: — Com que então, é verdade haver uma história dos meus feitos, e ser mouro e sábio quem a compôs?...." direita|miniaturadaimagem|"E, sem esperar resposta, nem dizer mais palavra, foi para casa", ilustração de Gustave Doré para "D. Quixote" (1863), Capítulo III, Volume II
"... e alguns culparam de falta e de dolo a memória do autor, pois se esquece de contar quem foi o ladrão que furtou o ruço a Sancho, coisa que ali se não declara, e só do que está escrito se infere que lho tiraram, e dali a pouco vemo-lo montado no mesmo jumento, sem se saber como; também dizem que se esqueceu de dizer o que Sancho fez aos cem escudos que encontrou na maleta na Serra Morena, que nunca mais falou neles, e há muitos que desejam saber em que os gastou, que é um dos pontos essenciais que faltam na obra. Sancho respondeu: — Eu, senhor Sansão, não estou agora para contas; deu-me uma fraqueza no estômago, que, se lhe não acudo com uma pinga, é capaz de me pôr na espinha; tenho-a em casa, onde me espera, e, em acabando de jantar, por aí estou de volta para o satisfazer a Vossa Mercê e a todo o mundo que me quiser dirigir perguntas; tanto a respeito da perda do jumento como do gasto dos cem escudos. E, sem esperar resposta, nem dizer mais palavra, foi para casa. D. Quixote pediu ao bacharel que ficasse para fazer penitência com ele. ..."
Capítulo IV — Em que Sancho Pança satisfaz ao bacharel Carrasco, acerca das suas dúvidas e perguntas, com outros sucessos dignos de se saber e de se contar direita|miniaturadaimagem|"Em cima de quatro estacas", ilustração de Gustave Doré para "D. Quixote" (1863), Capítulo IV, Volume II "...Voltou Sancho a casa de D. Quixote, e, tornando à mesma palestra: esquerda|miniaturadaimagem|"Dei comigo no chão", ilustração de Gustave Doré para "D. Quixote" (1863), Capítulo IV, Volume II
— Visto que o senhor Sansão disse desejar saber quem me furtou o jumento, e como e quando, respondo que na mesma noite em que, fugindo à Santa Irmandade, nos internamos na Serra Morena; depois da desventurada aventura dos galeotes e da do defunto que levavam a Segóvia, eu e meu amo metemo-nos por uma espessura, onde meu amo, arrimado à sua lança, e eu em cima do meu ruço, moídos e cansados das passadas refregas, nos pusemos a dormir como se estivéssemos em cima de quatro colchões de plumas, eu especialmente com sono tão pesado, que quem quer que foi pôde chegar-se a mim, amezendar-me em cima de quatro estacas, que pôs aos quatro cantos da albarda, de forma que me deixou a cavalo nelas, e tirou debaixo de mim o burro, sem eu o sentir. — Isso é coisa fácil de acontecer, e não caso novo, que o mesmo sucedeu a Sacripante, quando, estando no cerco de Albraca, o famoso ladrão Brunelo, com essa mesma invenção, lhe tirou o cavalo debaixo das pernas. direita|miniaturadaimagem|Fiz uma lamentação, ilustração (1863) de Gustave Doré — Amanheceu — prosseguiu Sancho — e apenas acordei, logo, escapando-me as estacas, dei comigo no chão. Procurei o jumento e não o vi. Vieram-me as lágrimas aos olhos, fiz uma lamentação, que, se a não pôs no livro o autor da nossa história se pode gabar de que lhe faltou uma coisa boa deveras. ..."
Capítulo V — Da discreta e graciosa prática que houve entre Sancho Pança e sua mulher Teresa Pança, e outros sucessos dignos de feliz recordação esquerda|miniaturadaimagem|"Convida a que lhe tenhamos respeito", ilustração de Gustave Doré para "D. Quixote" (1863), Capítulo V, Volume II "...— Donde nasce que, quando vemos alguma pessoa, bem ajaezada, ricamente vestida, e com grande pompa de criados, parece que à viva força nos move e convida a que lhe tenhamos respeito, ainda que a memória nesse momento nos lembre alguma baixeza em que a tivéssemos visto, e essa ignomínia, ou venha da indigência ou da linhagem, como já passou, não existe, e o que existe é o que vemos presente; e se este que a fortuna tirou da pobreza (que por estas mesmas razões assim o disse o padre), para o levantar à altura da sua prosperidade, for bem-criado, liberal, e cortês com todos, e não se quiser igualar com aqueles que por antiguidade são nobres, tem por certo, Teresa, que não haverá quem se recorde do que foi, mas reverenciará o que é, a não serem os invejosos, contra os quais não está segura nenhuma próspera fortuna.