Lucila Estrada de Pérez foi uma poetisa hondurenha, nascida na cidade de Gracias, Honduras e capital do departamento de Lempira. Ela é reconhecida pelo papel relevante que exerceu no desenvolvimento da poesia hondurenha e salvadorenha. Suas produções apresentam elementos românticos e espirituais, característicos da poesia do século XIX, mas também exploram emoções e pensamentos de maneira mais pessoal e introspectiva. Entre suas principais obras, destaca-se: “Á mi amiga Concepción Loucel” (1878); “Mi destino es sufrir” (1878); “Á la ciencia” (1879); “Á mi querida hija amada” (1888); “Al bachiler Don Pedro Flores” (1884) e “Á una flor inodora” (1890).UMAÑA, Helen. La palabra iluminada: el discurso poético en Honduras. Ciudad de Guatemala: Letra Negra Editores, 2006. p. 56-57.

Vida e infância Lucila Estrada de Pérez nasceu em Gracias, Honduras, em 1856, filha de José Símon Estrada, administrador de finanças do distrito de Gracias e de Elena Marín de Estrada. Seu pai morreu logo após seu nascimento, o que levou a família a migrar para El Salvador, buscando o amparo de seu tio biológico e pai de criação, o General Ezequiel Marín.Referências: ÁVALOS, Jorge. Lucila Estrada de Pérez: «La tumba del soldado» (poesía). La Zebra, n. 104, 10 abr. 2025. Disponível em: https://lazebra.net/2025/04/10/lucila-estrada-de-perez-la-tumba-del-soldado-poesia/. Acesso em: 11 maio 2026. PÉREZ ESTRADA, Álvaro; PÉREZ ESTRADA, Héctor; PÉREZ ESTRADA, Tito. Homenaje a la ciudad de Gracias a Dios en el CD aniversario de su fundación: 1536-1936. San Sula, Honduras: Tipografía Pérez Estrada, 1936. Disponível em: https://www.cervantesvirtual.com/research/homenaje-a-la-ciudad-de-gracias-a-dios-en-el-cd-aniversario-de-su-fundacion-1536-1936-953067/9e866774-1c3e-4fdd-b395-af469f1146e4.pdf. Acesso em: 12 maio 2026.

Nesse contexto, a autora oitocentista cresceu e estudou em El Salvador, desde a escola primária até a graduação na Escola Normal de Senhoritas, “onde também demonstrou sua vocação para as letras”. A história das escolas normais em El Salvador remonta à 1858, quando foi criada a escola Normal de San Salvador, e, posteriormente, as de Santa Ana e San Miguel. Foram instituídas como instituições públicas, subordinadas ao Ministério da Educação, guiadas pelos seguintes princípios: defender a liberdade e a integridade da Pátria, respeitar a Constituição e promover o ideal da unidade centro-americana.

Em 1877, Lucila escreveu o poema “O Túmulo do Soldado” (traduzido do espanhol La Tumba del Soldado) um dos de seus mais célebres escritos em homenagem a Ezequiel Marín, tio biológico e pai de criação. Em 8 de fevereiro de 1878, Marín junto com o então presidente hondurenho José María Medina, foram fuzilados em Santa Rosa. A pena de morte por fuzilamento foi ordenada pelo Consejo de Geral de Oficiales Generales de Santa Rosa de Copán e do Consejo Supremo de la Guerra de Honduras para castigar a traição à pátria durante uma fracassada rebelião armada.  

O poema de homenagem ao seu pai adotivoPÉREZ ESTRADA, Álvaro; PÉREZ ESTRADA, Héctor; PÉREZ ESTRADA, Tito. Homenaje a la ciudad de Gracias a Dios en el CD aniversario de su fundación: 1536-1936. San Sula, Honduras: Tipografía Pérez Estrada, 1936. Disponível em: Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes. Acesso em: 12 maio 2026. denota que o general não teve as honras funerárias merecidas: “y tal vez en la tumba del soldado no da sombra ni un sauce funeral” e promete “a su lado un ciprés yo plantaré, y con mi llanto regaré la tierra”. No poema, é possível perceber a centralidade da figura masculina do pai militar, da religião e da fé como amparo na orfandade e no exílio. Conforme se observa no trecho: “Padre querido, en la orfandad me dejas (...) e es por eso que exhalo tristes quejas, que expresan mi terrible desventura”.DURÓN, Rómulo Ernesto (org.). Honduras literaria: escritos en prosa y verso. Tomo II: Escritores en verso. Tegucigalpa: Tipografía Nacional, 1899. p. 393-408. Disponível em: https://babel.hathitrust.org/cgi/pt?id=mdp.39015074770853&seq=408&q1=Lucila Acesso em: 14 maio 2026.

A instabilidade política de Honduras e as tensões políticas com El Salvador, impediram o retorno de Lucila e sua família. Lucila recebeu as condições políticas e burocráticas para deixar e regressar a Honduras em 1883, durante a presidência do General Luis Bográn, que integrou a corte marcial que condenou à morte ao seu pai Ezequiel Marín. No mesmo ano, aos vinte e sete anos, Lucila casou-se com Tito Pérez, com quem gerou a Álvaro de Jesús, Manuel Héctor, Tito e María Elena, além de uma menina com nome desconhecido, falecida no ano de 1888, a quem dedicou o poema: “A mi querida hija amada”. Nesse poema a religião é acionada como força superior para transitar o luto. A filha é elevada à condição de “anjo” que “está no céu” com possibilidades de intercessão privilegiada à Virgem por consolo para a “triste vida” e “alma dolorida” de Lucila Estrada. miniaturadaimagem|Lucila Estrada de Pérez acompanhada por netos

Obras Seus trabalhos literários revelam uma recorrência temática e estilística, que permite situá-los no horizonte da lírica hispano-americana oitocentista, fortemente marcada por traços do romantismo tardio e por uma sensibilidade moral-religiosa característica do período. A análise comparativa evidencia um sistema simbólico relativamente estável, no qual se reiteram motivos como a dor, a perda, a religiosidade, a natureza e a função moral da poesia.  

Lucila fez parte das poetisas românticas que deixaram a centralidade do estilo grandioso e heroico para explorar emoções e pensamentos de maneira mais pessoal e introspectiva, junto com as escritoras salvadorenhas Luz Arrué de Miranda (1852-1932) e Antonia Galindo (1858-1893)PINEDA DE GÁLVEZ, Anadaluz. Honduras: mujer y poesía: antología de poesía hondureña escrita por mujeres (1865-1998). Tegucigalpa: Guardabarranco, 1998. p. 53-66. ISBN 978-99926-12-04-0. . Dessa forma, a autora expressou com clareza os sentimentos que definiram os momentos mais marcantes de sua vida: a tristeza das perdas e separações familiares, a paixão pela poesia, o reconhecimento e o respeito pela razão — visão influenciada por sua formação acadêmica em El Salvador, marcada pelos ideais liberais, o romantismo e o positivismo da épocaÁVALOS, Jorge. Lucila Estrada de Pérez: «La tumba del soldado» (poesía). La Zebra, n. 104, 10 abr. 2025. Disponível em: https://lazebra.net/2025/04/10/lucila-estrada-de-perez-la-tumba-del-soldado-poesia/. Acesso em: 11 maio 2026. .

Além de poeta hondurenha devido a sua nacionalidade, a autora também é considerada uma escritora salvadorenha em razão de sua formação intelectual no país. Lucila foi a primeira mulher de El Salvador a publicar, a partir de 1870, suas poesias com seu próprio nome, sem recorrer ao uso de pseudônimo, recurso amplamente utilizado por autoras da época como estratégia de inserção pública e legitimação autoral.

Ademais, Lucila Estrada manteve laços com escritores de El Salvador. Por exemplo, possuía uma relação de amizade próxima com Román Mayorga Rivas, jornalista e poeta nicaraguense, exilado também em El Salvador, que apoiava poetisas e escritoras. Foi ele quem primeiro divulgou a obra de Lucila em El Salvador, publicando-a pela primeira vez nos jornais que editava: El Cometa (1878-1882), em São Salvador; El Independiente (1885-1886), na Nicarágua; e o Diario del Salvador (1895-1932).

Uma coletânea dos poemas de Lucila Estrada apareceu no livro Honduras literaria, escritos en prosa y verso, tomo II: Escritores en verso, organizado por Rómulo Ernesto Durón e distribuído pela editora La Unión, em Tegucigalpa, 1899. Ela é destacada como “modesta, afável, espiritual, e de elevados e puros sentimentos”. Suas principais publicações são: “O Túmulo do Soldado” de 1878; “Meu destino é sofrer” de mesmo ano; “À minha amiga Concepción Loucel”, também de 1878; “Para a ciência”, de 1879; “Para minha querida filha amada” de 1888; “Minha humilde lira”, 1884; “Para uma flor sem aroma”, 1890 e “O caminho da vida” de 1905.

Nos poemas: À minha amiga Concepción Loucel e Minha humilde lira declara seu desejo de ser poeta afirmando “Yo quisiera poseer [...] del poeta la sublime inspiración [...]” e “De los poetas yo deseaba pulsar el arpa divina [...] Desde niña tributaba tierno culto a la poesía. Con su amor el alma mía enteramente llenaba. Porém, faz uso da falsa modestia, estratégia implementada por escritoras oitocentistas para amenizar a virulencia da crítica literaria, queixando-se de não possuir o talento. Essa estratégia retórica, pode ser interpretada como uma forma de autolegitimação paradoxal: ao declarar-se incapaz, a voz poética constrói uma imagem de humildade que reforça sua autenticidade. Segundo Lucila Estrada (1878), “el destino me negó estos dones [de poeta] en vez de un canto dulce, apasionado [...] tan sólo, tristes vibraciones [...] de mi laúd, discorde y destemplado”. Em Estrada (1884), diz ainda: “no he nacido poetisa,  sólo soy admiradora de la diosa arrobadora que todo lo diviniza [por eso]  Ni de mi patria [Honduras] he cantado la belleza de su suelo”.

Legado Seu legado influenciou as futuras gerações de sua família. Os seus filhos: Álvaro (?-1940), Hector (1889-1961) e Tito (?-?) Estrada Pérez migraram na primeira metade do século XX para San Pedro Sula e também se dedicaram ao campo das letras, são destacados como “homens notáveis que deram virtude e grandeza” a seu país e cidade natal. Eles foram os fundadores das tipográficas: A. Pérez Estrada y Co. (1921) e Pérez Estrada y Hermano'' que imprimiam importantes periódicos locais. Além disso, eles publicaram o livro “Homenagem a Cidade de Gracias” (1936), que possui um capítulo dedicado ao legado de sua mãe, Lucila de Estrada PérezGONZÁLEZ, José. Presencia de los hermanos Pérez Estrada en San Pedro Sula, 1910-1965. Jose Gonzalez, 29 dez. 2012. Disponível em: https://josegonzalezparedes.blogspot.com/2012/12/presencia-de-los-hermanos-perez-estrada.html .

Categoria:Poetas de Honduras Categoria:Escritoras de Honduras