Dolichothele diamantinensis é uma espécie de aranha migalomorfa da família dos terafosídeos (Theraphosidae) e do gênero Dolichothele. É endêmica do Brasil e restrita aos campos rupestres da Serra do Espinhaço, em Minas Gerais. Descrita originalmente em 2009 como Oligoxystre diamantinensis, foi posteriormente transferida para o gênero Dolichothele após a revalidação desse táxon e a sinonimização de Oligoxystre e Goniodontium. A espécie pertence à subfamília e apresenta uma combinação de características morfológicas que a distingue de seus congêneres, incluindo a forma das espermatecas, a estrutura da espora tibial dos machos e a ausência de quilhas no êmbolo do bulbo copulador. Estudos filogenéticos sugerem que ela ocupa uma posição relativamente distinta dentro do gênero, compartilhando algumas características ancestrais ausentes em outros representantes do grupo.

A espécie apresenta dimorfismo sexual, com fêmeas significativamente maiores do que os machos. Sua característica mais marcante é a coloração azul-metálica produzida por cerdas que recobrem grande parte do corpo, contrastando com as longas cerdas avermelhadas do abdome. Essa tonalidade permanece visível mesmo em exemplares preservados em álcool, sendo interpretada como uma coloração estrutural. Os indivíduos vivem em ambientes rochosos de altitude, entre aproximadamente e metros acima do nível do mar, onde ocupam fendas naturais e espaços sob grandes blocos de pedra. Nesses locais constroem túneis revestidos por seda que funcionam como abrigo permanente. O clima da região é tropical sazonal, com estações seca e chuvosa bem definidas e vegetação típica dos campos rupestres.

O comportamento reprodutivo de D. diamantinensis está entre os mais complexos conhecidos para o gênero. A corte envolve uma sequência elaborada de vibrações corporais, flexões das pernas, exibição do primeiro par de pernas em forma de “V”, solavancos e batidas contra a teia ou o substrato, culminando na contenção das quelíceras da fêmea e na cópula. Algumas dessas categorias comportamentais foram descritas pela primeira vez para o grupo e parecem desempenhar papel importante no reconhecimento específico e no isolamento reprodutivo. Atualmente, a espécie é considerada Em Perigo (EN) no Brasil devido à sua distribuição restrita, ao isolamento das subpopulações e à degradação de seu habitat. Entre as principais ameaças estão os incêndios nos campos rupestres, a fragmentação da paisagem por atividades agropecuárias e a captura ilegal para o comércio de animais de estimação.

Taxonomia

Dolichothele diamantinensis é uma espécie de aranha migalomorfa da família dos terafosídeos, pertencente à subfamília . Foi descrita por Rogério Bertani, Thiago dos Santos e Alexandre Ferreira Righi em 2009, sob o nome Oligoxystre diamantinensis, com base em três exemplares coletados no município de Diamantina, em Minas Gerais. O holótipo, um macho depositado no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, foi coletado em 4 de dezembro de 2005, nas coordenadas 18°13′57,2″S e 43°35′14,9″W. Um segundo macho e uma fêmea, coletados na mesma localidade e data, foram designados como parátipos. O epíteto específico diamantinensis deriva do nome da localidade-tipo. Na descrição original, os autores atribuíram a espécie a Oligoxystre, gênero que então reunia pequenas caranguejeiras conhecidas no Brasil e na Bolívia. A posição filogenética da espécie dentro de Oligoxystre foi discutida a partir do cladograma anteriormente proposto para o gênero. O. diamantinensis compartilhava três características então empregadas para sustentar a monofilia de Oligoxystre: o número reduzido de cúspides nas maxilas, o número reduzido de cúspides no lábio e o lábio mais largo do que longo. Essas características, entretanto, não eram exclusivas do gênero e também ocorriam de forma homoplástica em outros iscnocolíneos. A espécie não apresentava nenhuma das apomorfias empregadas para delimitar os dois principais clados internos de Oligoxystre. A fêmea não possuía os lobos laterais das espermatecas que caracterizavam o grupo formado por O. tucuruiense e O. rufoniger, enquanto o macho carecia das quilhas do êmbolo compartilhadas por O. bolivianum e O. dominguense. A ausência de clípeo também correspondia ao estado plesiomórfico da característica. Em razão dessa combinação, os autores sugeriram que a espécie poderia ocupar uma posição basal, formando uma tricotomia com os dois agrupamentos então reconhecidos no gênero.

Em 2015, Sylvia Marlene Lucas e Rafael Prezzi Indicatti reavaliaram a delimitação dos gêneros Dolichothele, Goniodontium e Oligoxystre. Dolichothele havia sido estabelecido por Cândido Firmino de Mello-Leitão em 1923 para Dolichothele exilis, descrita com base em uma fêmea da Paraíba. Na mesma publicação, Mello-Leitão estabeleceu Goniodontium, cuja espécie-tipo era Goniodontium muticum, da Bahia. Oligoxystre foi descrito no ano seguinte por Vellard, tendo Oligoxystre auratum como espécie-tipo. Posteriormente, Raven havia considerado Dolichothele e Goniodontium sinônimos de Hapalotremus, mas essa interpretação foi questionada porque o material-tipo de Hapalotremus albipes apresenta características próprias dos terafosíneos, incluindo bulbo copulador com subtégulo prolongado, quilha subapical conspícua no êmbolo e espermatecas com os receptáculos fusionados. A comparação dos tipos de D. exilis e G. muticum, das descrições de Oligoxystre e de exemplares depositados em coleções zoológicas demonstrou que os três gêneros compartilhavam o mesmo conjunto fundamental de características. Entre elas estavam o lábio muito mais largo do que longo e provido de poucas cúspides, as maxilas com cerca de vinte cúspides no ângulo interno basal, o esterno oval com sigilas posteriores marginais, as escópulas dos metatarsos I e II estendidas por toda a superfície ventral, as escópulas dos metatarsos III e IV ocupando aproximadamente os três quartos anteriores, as escópulas tarsais não divididas, as garras tarsais superiores sem dentes e as espermatecas pares, mais longas do que largas e terminadas por cinco a sete lobos apicais. Nas pernas IV, uma faixa longitudinal esparsa de cerdas atravessa a escópula, mas sem dividi-la completamente. A semelhança entre esses caracteres levou Lucas e Indicatti a revalidarem Dolichothele e a considerá-lo sinônimo sênior de Goniodontium e Oligoxystre.

A precedência de Dolichothele sobre Goniodontium foi estabelecida porque ambos foram publicados na mesma obra, mas o primeiro nome aparece em página anterior e o holótipo de D. exilis se encontra em melhor estado de conservação. Além disso, sua espermateca permanecia preservada, enquanto essa estrutura havia sido perdida no holótipo de G. muticum. Dolichothele também foi distinguido de Hapalotremus pela ausência de um subtégulo prolongado e de uma quilha subapical no êmbolo do bulbo copulador dos machos, pelas espermatecas formadas por dois receptáculos longos e separados e pela ausência de cerdas urticantes em ambos os sexos. Como consequência da revalidação, todas as espécies então incluídas em Oligoxystre foram transferidas para Dolichothele. Oligoxystre diamantinensis passou, assim, a ser tratada na nova combinação Dolichothele diamantinensis. Na mesma revisão, o gênero passou a compreender oito espécies: D. exilis, D. aurata, D. boliviana, D. dominguensis, D. tucuruiensis, D. rufonigra, D. diamantinensis e D. mineira.

Diagnose

Dolichothele diamantinensis foi distinguida das demais integrantes do gênero pela combinação entre características dos órgãos copuladores, da espora tibial do macho e da coloração. Nos machos, o êmbolo do bulbo copulador não apresenta a pequena quilha subapical observada em D. boliviana e D. dominguensis e mede menos de 2,5 vezes o comprimento do tégulo, diferindo do êmbolo proporcionalmente mais longo de O. caatinga (hoje sinônimo de Dolichothele exilis). A espora tibial da primeira perna possui seus ramos inseridos perpendicularmente ao eixo da tíbia, em contraste com a disposição inclinada encontrada em D. tucuruiensis e D. rufonigra e com a orientação aproximadamente paralela descrita para D. aurata. Nas fêmeas, as espermatecas são muito mais longas do que largas, não possuem lobos laterais e terminam em um grande lobo apical circundado por cinco lobos menores. Esse arranjo as diferencia das espermatecas aproximadamente tão longas quanto largas de D. boliviana, das estruturas providas de lobos laterais de D. dominguensis, D. tucuruiensis e D. rufonigra e dos numerosos pequenos lobos apicais de O. caatinga. A coloração também foi considerada diagnóstica. Machos e fêmeas apresentam a carapaça, as quelíceras, o abdome e as pernas recobertos, dorsal e ventralmente, por cerdas azul-metálicas, contrastando com as cerdas longas avermelhadas do abdome. As demais espécies então atribuídas a Oligoxystre exibiam predominantemente coloração castanha ou avermelhada. A tonalidade azul permanece visível nos exemplares conservados em álcool, o que levou os autores a interpretá-la como uma coloração estrutural, e não decorrente de pigmentos biológicos.

Descrição

Dolichothele diamantinensis apresenta dimorfismo sexual, com as fêmeas atingindo dimensões consideravelmente superiores às dos machos. O macho holótipo possui comprimento total de 25,5 milímetros, incluindo as quelíceras, enquanto a fêmea parátipo mede 37,6 milímetros. No macho, a carapaça mede 9,3 milímetros de comprimento por 8,6 milímetros de largura, e o abdome 11,2 milímetros por 6,4 milímetros; na fêmea, a carapaça mede 10,9 milímetros por 9,9 milímetros e o abdome 19,8 milímetros por 11,9 milímetros. Em ambos os sexos, a região cefálica é baixa e pouco diferenciada do restante da carapaça, a fóvea é curta, profunda e reta, e as estrias torácicas são pouco evidentes. As quelíceras não apresentam rastelo e possuem nove dentes na margem basal. O clípeo está ausente. Os olhos dispõem-se em duas fileiras levemente curvas, com os olhos medianos anteriores arredondados, os laterais anteriores elípticos e os olhos posteriores de contorno ovalado. O lábio é mais largo do que longo e apresenta poucas cúspides, variando de seis na fêmea a oito no macho. As maxilas possuem formato sub-retangular, com o lobo anterior prolongado em um processo cônico e cerca de vinte e cinco cúspides concentradas no ângulo interno. As fieiras medianas posteriores são unissegmentadas, enquanto as laterais posteriores são formadas por três segmentos.

As pernas são relativamente longas, sendo o quarto par o mais desenvolvido em ambos os sexos. No macho, os comprimentos totais das pernas I a IV são de 34,2 milímetros, 32,5 milímetros, 29,6 milímetros e 37,6 milímetros, respectivamente, enquanto o palpo mede 16,4 milímetros. Na fêmea, as pernas I a IV medem 30 milímetros, 27,3 milímetros, 25,7 milímetros e 32,8 milímetros, respectivamente, e o palpo alcança 18,4 milímetros. Os tarsos possuem densas escópulas e não apresentam espinhos. As garras tarsais superiores são desprovidas de dentes. Os tufos de pelos adesivos estão presentes e as cerdas estridulatórias e os pelos urticantes estão ausentes. Nos machos, a tíbia da primeira perna apresenta uma pequena espora copulatória formada por dois ramos ligeiramente curvos que se originam de uma base comum elevada. O ramo retrolateral é mais longo do que o prolateral, e ambos estão orientados perpendicularmente ao eixo longitudinal da tíbia, característica diagnóstica da espécie. O metatarso da primeira perna é levemente curvado na região basal e passa lateralmente ao ramo retrolateral da espora quando flexionado.