miniaturadaimagem|299x299px|Mulher indiana marrom em ensaio fotográfico (2018). Marrom é uma classificação racializada de pessoas, geralmente uma categoria política e social aplicada a populações específicas com essa tonalidade ou determinado fenótipo, especialmente usada em contextos anglófonos. É mais comumente aplicada a sul-asiáticos e latino-americanos mestiços, bem como indígenas americanos, norte-africanos, médio-orientais e alguns grupos austronésios e do Sudeste Asiático.

Na época do racismo científico Nos séculos XVIII e XIX, escritores europeus propuseram diferenças “científicas” baseadas em critérios geográficos entre “as raças”. Muitos desses modelos raciais atribuíam cores aos grupos descritos, e alguns incluíam uma “raça marrom” (brown race), como nos exemplos a seguir:

No final do século XVIII, o antropólogo alemão Johann Blumenbach expandiu o modelo racial de quatro cores de Carl Linnaeus ao adicionar a “raça marrom”, chamada de “raça malaia”, que incluía tanto o ramo malaio dos austronésios (sul da Tailândia, Camboja, Indonésia, Filipinas, Malásia, Brunei, Pattani, Sumatra, Madagascar, formosanos, etc.) quanto os polinésios e melanésios das ilhas do Pacífico (incluindo os papuas), além dos povos indígenas australianos; Em 1775, John Hunter incluiu, sob a designação “marrom claro”, os europeus do sul, italianos, espanhóis, persas, turcos e lapões, dentro da categoria “marrom”;Bernasconi, Robert. Race Blackwell Publishing: Boston, 2001 (em inglês). O esquema de cinco raças de Jean Baptiste Julien d'Omalius d'Halloy diferia do de Johann Blumenbach por incluir os etíopes na raça marrom, assim como os povos da Oceania. Louis Figuier adotou e adaptou a classificação de d'Omalius d'Halloy, incluindo também os egípcios na “raça marrom”; Em 1915, Donald Mackenzie concebeu uma “raça mediterrânea ou marrom, cujo ramo oriental se estenderia da Índia e o ocidental até as Ilhas Britânicas... [e incluiria] os egípcios pré-dinásticos... [e algumas populações do] homem neolítico”;Mackenzie, Donald A. Myths of Babylonia and Assyria Montana:Kessinger Publishing, 2004 (em inglês). O eugenista Lothrop Stoddard, em sua obra The Rising Tide of Color Against White World-Supremacy (1920), mapeou uma “raça marrom” como nativa do Norte da África, do Chifre da África, do Cáucaso (parcialmente), do Oriente Próximo, Oriente Médio, Ásia Central, Sul da Ásia, Sudeste Asiático e da Austronésia (raça malaia). A categoria “marrom” de Stoddard era uma das cinco “raças primárias”, em contraste com as raças “branca”, “preta”, “amarela” e “ameríndia” (ou “vermelha”); Devido ao que considerava a relação física relativamente próxima entre muitas populações “do Mar Vermelho até a Índia, incluindo semitas e hamitas”, Grafton Elliot Smith concebeu a “raça marrom” como uma extensão natural do conceito anterior de “raça mediterrânea” de Giuseppe Sergi. Nessa concepção popular, a “raça marrom” consistia em um agrupamento conjunto “mediterrâneo-hamita-semita” de povos ancestralmente relacionados, no qual Elliot Smith incluiu os proto-egípcios.

Essas e outras teorias raciais foram rejeitadas cientificamente. Como observa um livro didático de biologia humana de 2012, “essas alegações de taxonomia baseada em raça, incluindo as afirmações de Carleton Coon sobre a homo-sapienização, foram desacreditadas por pesquisas paleontológicas e genômicas, que demonstram a antiguidade das origens humanas modernas, bem como a natureza essencialmente africana do genoma de todos os seres humanos vivos”.

Subdivisões No século XIX, a noção de um único “povo marrom” foi, em alguns casos, substituída pela ideia de múltiplos “povos marrons”. Robert Needham Cust menciona, em Grammar (1852), a negação da existência de uma única “raça marrom”, defendendo que existiam, na verdade, várias raças que falavam línguas distintas. A Cyclopaedia of India and of Eastern and Southern Asia (1958) observa que Henry Keane dividia os “povos marrons” em quatro grupos: um ramo ocidental chamado de malaio; um grupo noroeste denominado micronésio; e os povos dos arquipélagos orientais, chamados de maoris e polinésios.

Identificador étnico e racial A denominação “pessoas marrons” (brown people) foi aplicada, nos séculos XX e XXI, a diversos grupos. Edward Telles, especialista em raça e etnicidade, e Jack D. Forbes argumentam que essa classificação é biologicamente inválida. No entanto, como observa Telles, ela ainda possui relevância sociológica. Independentemente das reais diferenças biológicas entre os seres humanos e das complexidades reais da coloração da pele humana, as pessoas ainda se identificam como “marrons” e identificam outros grupos como “marrons”, utilizando características que incluem cor da pele, textura ou espessura do cabelo, língua e cultura para classificá-los.

Forbes comenta sobre um processo de “agrupamento” (lumping), no qual características além da cor da pele, como a cor ou a curvatura do cabelo, atuam como “gatilhos” para categorias de cor, “mesmo quando isso pode não ser apropriado”.

Etnia na África do Sul Na África do Sul dos anos 1950 (e posteriormente), “brown people” (“pessoas marrons”) eram os “coloureds” (“coloridos”), termo que se referia àqueles nascidos de uniões sexuais multirraciais fora do casamento. Eles eram distintos dos Rehoboth Basters que habitavam a Namíbia, os quais eram principalmente de ascendência coissã e europeia. Os termos em africâner, que incorporam muitas sutilezas de herança, agenda política e identidade, são “bruin” (“marrom”), “bruines” (“marrons”) e “bruinmense” (“pessoas marrons”). Alguns sul-africanos preferem a denominação “bruinmense” a “coloured” (“colorido”).

O “teste do lápis” sul-africano foi um exemplo de característica além da cor da pele sendo usada como critério de determinação racial. O teste do lápis, que distinguia “pretos” de “coloridos” ou “coloridos” de “brancos”, baseava-se na textura e resistência do cabelo (isto é, se ele conseguia segurar um lápis preso por conta própria) e não em qualquer fator de cor da pele. O teste do lápis podia “superar a cor da pele”.

Steve Biko, em seu julgamento em 1976, rejeitou a designação “pessoa marrom” quando ela lhe foi atribuída incorretamente pelo juiz Boshoff:Boshoff: Mas por que vocês se referem ao seu povo como pretos? Por que não pessoas marrons? Quero dizer, vocês são mais marrons do que pretos.

Biko: Da mesma forma que acho que os brancos são mais rosados, amarelados e pálidos do que propriamente brancos.

Boshoff: Certo... mas então por que vocês não usam a palavra “marrom”?

Biko: Não, acho que, historicamente, fomos definidos como pessoas pretas e, quando rejeitamos o termo “não branco” e assumimos o direito de nos chamar daquilo que acreditamos ser, temos diante de nós várias alternativas disponíveis... e escolhemos esta precisamente porque sentimos que ela é a mais abrangente.Penelope Oakes caracteriza o argumento de Biko como uma escolha de “preto” em vez de “marrom” porque, para Biko, esse era “o retrato mais válido, significativo e apropriado, mesmo que, num sentido individualista e descontextualizado, possa parecer errado” (ênfase de Oakes).

Isso contrasta com Piet Uithalder, protagonista fictício da coluna satírica Straatpraatjes (cujo verdadeiro autor nunca foi revelado, mas acredita-se que tenha sido Abdullah Abdurahman) publicada na seção neerlandês-africâner do jornal APO entre maio de 1909 e fevereiro de 1922. Uithalder se autoidentificava como uma pessoa “colorida”, com a coluna voltada para leitores “coloridos”, apresentando-se como “een van de ras” (“um membro da raça”) e descrevendo-se como um “bruine mens” (“homem marrom”).

Pardos no Brasil

No uso popular, os brasileiros também utilizam a categoria “moreno(a)”, derivado da palavra portuguesa “mouro”, percebida como referente àqueles com fenótipos mais escuros do que os povos europeus. Assim, um moreno ou morena é uma pessoa com um fenótipo “mourisco”, o que é extremamente ambíguo, pois pode significar “pessoas de cabelo escuro”, mas também é usado como eufemismo para pardo e até mesmo para “preto”. Em uma pesquisa de 1995, 32% da população se autoidentificou como moreno, com outros 6% se identificando como “moreno claro”. 7% se autoidentificaram como “pardos”.

Um estudo abrangente apresentado pela Revista Brasileira de Pesquisas Médicas e Biológicas constatou que, em média, brasileiros brancos possuem mais de 70–90% de ancestralidade genômica europeia, enquanto brasileiros pretos possuem 60% de ancestralidade genômica europeia. O estudo concluiu que: “A alta variabilidade ancestral observada em brancos e negros sugere que cada brasileiro possui uma proporção singular e bastante individual de ancestralidade europeia, africana e ameríndia em seus genomas mosaicos. Assim, a única base possível para lidar com a variação genética nos brasileiros não é considerá-los membros de grupos de cor, mas sim analisá-los individualmente, como 190 milhões de seres humanos, com genomas e histórias de vida singulares”.

Uso no Canadá Relacionando-se à identidade “marrom”, o uso popular do termo no Canadá geralmente se refere a indivíduos de ascendência sul-asiática.Sumartojo, Widyarini. "My kind of Brown": Indo-Canadian youth identity and belonging in Greater Vancouver (PhD thesis) ().Frost, Heather. Being “Brown” in a Canadian SuburbSandhu, Danielle. Theorizing Brown IdentityPatel, Sharmi. The Politics of Belonging: Cultural Identity Formation among Second Generation Canadians

Uso na Bretanha “Brown” (“marrom”) tornou-se uma identidade cada vez mais comum para indivíduos de ascendência sul-asiática ou do Chifre da África, principalmente devido à influência estadunidense e canadense.

Uso nos Estados Unidos “Brown” (“marrom”) tem sido usado como termo na cultura popular para estadunidenses de origem sul-asiática, médio-oriental, norte-africana, do Sudeste Asiático, indígena e/ou latina, tanto como termo pejorativo quanto, às vezes, como forma de autoidentificação, como ocorre com a identidade brown. Judith Ortiz Cofer observou que essa denominação varia de acordo com a localização geográfica, notando que, em Porto Rico, ela era considerada uma “pessoa branca”, mas no território continental dos Estados Unidos era considerada uma “pessoa marrom”. Moustafa Bayoumi, professor egípcio-estadunidense de inglês no Brooklyn College, identificou-se como um “árabe-estadunidense marrom” em um artigo de opinião criticando o Censo dos Estados Unidos por forçar pessoas que se identificam como marrons a se classificarem como brancas.

O termo “brown American” (“estadunidense marrom”) tem sido usado tanto de forma pejorativa quanto como autoidentificação em referência a filipino-estadunidenses austronésios. Além disso, alguns estadunidenses de ascendência do Sudeste Asiático ou do Sul da Ásia utilizaram os termos “brown Asian” (“asiático marrom”) ou “brown South Asian” (“sul-asiático marrom”) para se distinguirem dos asiático-estadunidense do Leste Asiático, que são geralmente o grupo ao qual o termo “Asian American” costuma se referir nos Estados Unidos.

Orgulho marrom Brown pride (“orgulho marrom”) é um movimento, principalmente nos Estados Unidos, entre povos latinos mestiços, para desenvolver uma autoimagem positiva por meio da valorização da ideia de ser marrom como forma de orgulho. O brown pride é uma resposta à narrativa racista ou colorista de que a pele branca seria mais bonita do que a pele marrom. O movimento surgiu inicialmente entre mexicano-estadunidenses nos Estados Unidos, junto ao movimento chicano e ao movimento Black is Beautiful (“Preto é Belo”) nos anos 1960.

Representações midiáticas de pessoas “marrons”