Roberto Godin, também referido como Robert Godin, foi um fabricante francês de sedas activo em Portugal no século XVIII, conhecido por ter promovido a criação da Companhia da Fábrica das Sedas, mais tarde Real Fábrica das Sedas, em Lisboa. Em 13 de fevereiro de 1734, obteve de D. João V autorização para estabelecer fábricas de lavrar sedas com ouro, prata, matizes e outras qualidades, com privilégio monopolista por vinte anos para manufaturas semelhantes no reino e conquistas.

Associado à introdução de técnicas e artífices estrangeiros na indústria portuguesa da seda, Godin desempenhou funções de mestre da fábrica na fase privada da companhia, intervindo de perto no trabalho dos oficiais e na formação técnica dos aprendizes. Após a passagem da fábrica para a tutela régia e a reorganização pombalina de 1757, foi nomeado, por alvará de 22 de setembro de 1758, para o quinto lugar de diretor da Real Fábrica das Sedas.

Biografia

Origem e vinda para Portugal Roberto Godin era francês e surge na documentação portuguesa como fabricante ou mestre de sedas. A sua presença em Portugal insere-se no contexto da política joanina de atração de artífices estrangeiros e de incentivo a manufaturas capazes de reduzir a dependência de importações. A Real Fábrica das Sedas viria a constituir um dos casos mais significativos desse esforço, no âmbito do segundo surto de industrialização portuguesa, entre 1720 e 1740, assente na iniciativa privada de negociantes portugueses e estrangeiros e no recurso a conhecimentos técnicos estrangeiros.

Segundo a investigação de Alex Faverzani da Luz, Godin esperou vários anos pela autorização régia para instalar a fábrica. Em carta dirigida ao príncipe D. José, em 10 de dezembro de 1749, o próprio Godin afirmou ter aguardado sete anos pela concessão real. A 17 de julho de 1732, Godin e Cláudio Sibert, também referido como seu sogro, submeteram uma nova consulta reformulada ao tribunal competente. Após parecer favorável do cardeal da Mota, datado de 9 de fevereiro de 1734, a resolução régia de 13 de fevereiro do mesmo ano autorizou finalmente o estabelecimento da manufatura de sedas em Lisboa.

Autorização régia e privilégios de 1734 A autorização concedida a Roberto Godin resultou da sua súplica a D. João V para estabelecer "fábricas de lavrar sedas com ouro, prata, e matizes, e de outras diferentes qualidades". O privilégio autorizava a produção de tecidos e artigos como veludos, damascos, primaveras, gorgorões lisos e lavrados, brocados, chamalotes, cetins, peluças, nobrezas, tafetás, meias e galões de ouro, prata ou seda com linha.

A autorização garantia a Godin o exclusivo do estabelecimento de fábricas semelhantes no reino e nas suas conquistas durante vinte anos, impedindo que outros particulares fundassem manufaturas da mesma natureza sem a sua intervenção ou licença. Estabelecia ainda isenções de direitos por dez anos sobre a seda importada para a fábrica e sobre os instrumentos e materiais necessários à sua construção e produção, bem como sobre as manufaturas consumidas no reino.

As condições pactuadas foram aprovadas em fevereiro de 1734, tendo sido lavrados os instrumentos relativos ao contrato e às condições das fábricas de sedas que Roberto Godin pretendia estabelecer em Portugal. Para Luz, a concessão deve ser entendida no quadro de uma política mercantilista que procurava proteger o mercado interno e criar capacidade técnica local para um ramo de produção considerado estratégico.

Companhia da Fábrica das Sedas Verificada a incapacidade de Godin para apresentar sozinho todo o capital necessário à criação da fábrica, foi constituída uma sociedade comercial. A escritura foi lavrada em 4 de outubro de 1734, reunindo Roberto Godin e vários investidores, entre eles Manuel Nunes da Silva Tojal, Manuel de Sande de Vasconcelos, Francisco Xavier Ferraz de Oliveira, João da Costa Carneiro, Manuel da Costa Pinheiro, Domingos da Silva Vieira, D. Gabriel António Gomes, Cristiano Stockler e Domingos da Cruz Lisboa. O financiamento inicial foi fixado em 60:400$000 réis.

A direção do estabelecimento ficou composta por três membros, encarregados da compra de matérias-primas, da venda das peças, da vinda de artífices, do pagamento de salários e do balanço financeiro da fábrica. Embora não integrasse formalmente essa primeira direção, Godin exerceu a função de mestre da fábrica, acompanhando de perto o trabalho dos oficiais, instruindo-os quando necessário e intervindo na dimensão técnica da produção.

Durante a primeira fase da Companhia da Fábrica das Sedas, Godin colaborou na organização do estabelecimento e na aplicação de técnicas e modelos de fabrico. A companhia dependia fortemente da contratação de artífices estrangeiros e do domínio de conhecimentos especializados que ainda escasseavam entre os trabalhadores portugueses. Esta dependência técnica, conjugada com a falta de capitais próprios, a dificuldade de acesso a matéria-prima e a concorrência internacional, esteve entre os fatores que explicam as dificuldades da fábrica na sua fase privada.

Crise financeira e intervenção régia A Companhia da Fábrica das Sedas conheceu sucessivas dificuldades financeiras. A primeira direção, entre 1734 e 1745, acumulou perdas significativas, em parte devido aos custos da construção do edifício do Rato, à aquisição de matérias-primas e equipamentos e à contratação de artífices. As administrações seguintes continuaram a enfrentar problemas de capitalização, conflitos internos e dificuldade em obter novas fontes de financiamento.

Na terceira direção, entre 1747 e 1750, a fábrica encontrava-se em situação crítica, por falta de fundos, incapacidade de contrair novos empréstimos, atraso no pagamento de salários e escassez de matéria-prima. Perante estas circunstâncias, Godin dirigiu uma súplica ao poder régio, nomeadamente ao príncipe e futuro rei D. José, solicitando intervenção e auxílio financeiro para a fábrica.

Em 1749, foi expedido aviso pelo secretário de Estado Marco António de Azevedo Coutinho para que os diretores da fábrica se obrigassem a prover o estabelecimento de tudo o que fosse necessário no prazo de trinta dias. Na falta dessa providência, a fábrica, instrumentos e fazenda seriam entregues a quem pudesse assegurar a sua conservação e aumento. Em 1750, após avaliação dos instrumentos, fazendas e dívidas, a fábrica transitou para a posse da Real Fazenda e foi concessionada a Vasco Lourenço Veloso.

Conflitos com Vasco Lourenço Veloso A administração de Vasco Lourenço Veloso, iniciada em 1750, constituiu uma nova fase da história da fábrica, já sob posse da Real Fazenda. Godin e Manuel Nunes da Silva Tojal, ligados à fase privada, entraram em conflito com o novo administrador, contestando aspectos da sua gestão e da reorganização do estabelecimento.

Entre os pontos de tensão encontravam-se a reorganização técnica e administrativa da fábrica, a gestão da tinturaria e os direitos ou expectativas dos antigos sócios e técnicos da companhia. Luz identifica esta fase como marcada por críticas, conflitos e dificuldades de adaptação a um modelo de administração diferente do anterior. A oposição de Godin e Tojal ao administrador não impediu, contudo, que a fábrica continuasse dependente de intervenção pública e de sucessivas experiências de reorganização.

Direção da Real Fábrica das Sedas Terminada a concessão a Vasco Lourenço Veloso, a fábrica passou, a partir de 1757, a ser administrada diretamente pelo poder régio, adotando a designação de Real Fábrica das Sedas. Sob orientação de Sebastião José de Carvalho e Melo, a administração transitou para a recém-criada Junta do Comércio e foi dotada de estatutos próprios, confirmados por alvará de 6 de agosto de 1757.

A direção inicialmente prevista era composta por quatro diretores, dois pertencentes à Junta do Comércio e dois à Junta da Administração da Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão. Por alvará de 22 de setembro de 1758, foi criado um quinto lugar de diretor, para o qual foi nomeado Roberto Godin, identificado nas fontes arquivísticas como fundador da Companhia da Fábrica das Sedas.

Godin manteve, assim, presença institucional na fase pombalina da Real Fábrica. A sua nomeação para a direção representou uma reintegração formal do fundador na administração do estabelecimento, depois dos conflitos e afastamentos ocorridos durante a administração de Vasco Lourenço Veloso. O seu falecimento ocorreu antes de dezembro de 1769, pois, por decreto real de 16 de dezembro desse ano, António Martins Bastos foi nomeado para o lugar deixado vago pelo falecimento de Robert Godin.

Legado Roberto Godin é sobretudo recordado como o principal proponente e fundador da Companhia da Fábrica das Sedas, instituição que esteve na origem da Real Fábrica das Sedas do Rato. A sua iniciativa levou à criação de uma das maiores manufaturas portuguesas do século XVIII e contribuiu para a introdução, em Portugal, de técnicas, artífices e modelos organizativos ligados à produção de sedas de luxo.

A fábrica que promoveu viria a ultrapassar largamente o âmbito inicial da produção de sedas, tornando-se centro de coordenação de numerosas oficinas e fábricas anexas, entre as quais a Real Fábrica de Louça do Rato e a Fábrica de Tapetes de Lisboa. Apesar dos problemas financeiros da fase privada, a iniciativa de Godin constitui um episódio central da história da indústria portuguesa setecentista e da política manufatureira que antecedeu e acompanhou o reformismo pombalino.

Bibliografia

Ligações externas Real Fábrica das Sedas, eViterbo

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