Elisabeth Wollman (nascida Michelis; Minsk, 15 de agosto de 1888 – Auschwitz, 22 de dezembro de 1943) foi uma microbióloga russa.
Nascida em Minsk, em uma família judia, formou-se em física e matemática pela Universidade de Liège. Casou-se com Eugène Wollman, filho de amigos próximos da família, e mudou-se com ele para Paris, onde ele iniciou sua carreira no Instituto Pasteur. Pioneiros no campo da genética molecular e nos estudos sobre bacteriófagos, lisogenia e genética molecular bacteriana, os Wollman colaboraram durante duas décadas em pesquisas que estabeleceram bases fundamentais para a compreensão dos vírus, do câncer e do HIV.
Em dezembro de 1943, o casal foi deportado para o campo de concentração de Auschwitz, onde morreu pouco depois da chegada, provavelmente assassinado nas câmaras de gás. Um ex-aluno, André Michel Lwoff, deu continuidade ao trabalho deles após a guerra, o que contribuiu para a conquista do Prêmio Nobel em 1965. O filho do casal, Élie Wollman, fez parte dessa equipe. Tanto ele quanto seu filho, Francis-André Wollman, tiveram carreiras científicas de destaque. Uma das filhas dos Wollman, Nadine Marty, tornou-se professora de física, enquanto a outra, Alice, seguiu a carreira médica. Elisabeth, Eugène e Élie Wollman são homenageados por suas contribuições à biologia com uma placa no Instituto Pasteur.
Biografia Elisabeth Wollman (nascida Michelis) nasceu em Minsk, então parte do Império Russo e hoje capital da Bielorrússia, em 1888. Elisabeth vinha de uma família judaica instruída e de classe média e era uma das quatro crianças da família. Seu pai era empresário e atuava em diferentes áreas comerciais, incluindo seguros e fabricação de próteses dentárias. Excelente estudante desde jovem, seus pais decidiram enviá-la para a Bélgica após o ensino secundário, algo relativamente incomum para mulheres da época, especialmente para uma jovem judia oriunda do Império Russo no final do século XIX. Em Liège, estudou física e matemática na Universidade de Liège.
Foi nesse período que conheceu Eugène Wollman. As mães dos dois se conheciam em Minsk, e a mãe de Elisabeth lhe passou o contato de Eugène quando ela se mudou para Liège. Elisabeth recebia atenção de vários pretendentes, mas acabou se aproximando de Eugène enquanto ambos estudavam na Bélgica. O casal se casou depois que Eugène concluiu seu doutorado em medicina, em 1909. Ele recebeu uma bolsa de estudos para o Instituto Pasteur, em Paris onde trabalhou como assistente de Ilya Ilyich Mechnikov. Elisabeth o acompanhou e atuou como assistente voluntária do físico, biólogo e químico Jacques Duclaux entre 1910 e 1920. Nesse período, nasceram os três filhos do casal: Alice, Élie e Nadine.
Alice tornou-se médica. Élie Wollman, o segundo filho, nasceu em 1917 e recebeu esse nome em homenagem a Metchnikoff. Tornou-se microbiologista e um cientista renomado. Já Nadine Marty seguiu carreira na física e foi professora universitária, chegando a dirigir uma divisão do instituto de física nuclear da Universidade Paris-Sul. O filho de Élie, Francis-André Wollman, também se tornou biólogo e diretor de pesquisa do Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica (CNRS).
Durante a Primeira Guerra Mundial, Eugène atuou voluntariamente como médico. Serviu em Paris, na frente oriental e na África, recebendo uma medalha militar. Em 1922, obteve cidadania francesa em reconhecimento aos seus serviços de guerra.
Colaboração científica Em 1919, Eugène foi promovido à chefia de um laboratório no Instituto Pasteur, e Elisabeth passou a colaborar com ele, novamente de forma voluntária, entre 1923 e 1943. Entre 1929 e 1932, a família viveu no Chile, quando Eugène atuou como diretor do Instituto Sanitas, em Santiago. Os Wollman assinaram juntos a maior parte de suas publicações científicas. Elisabeth já havia coescrito um artigo com Eugène em 1915. Em 1933, publicou um trabalho sem a coautoria do marido, antecedendo uma publicação conjunta sobre o mesmo tema em 1935, um indicativo do papel central que ela exercia nos experimentos do casal.
Entre 1920 e 1943, os dois realizaram experimentos com bactérias para estudar bacteriófagos e lisogenia, o ciclo de infecções bacterianas. Estiveram entre os primeiros cientistas a reconhecer a transmissão infecciosa por bacteriófagos, fenômeno que inicialmente chamaram de “parahereditariedade”. Os Wollman identificaram a alternância entre estágios infecciosos e não infecciosos. Seus estudos sobre infecção bacteriana fizeram deles pioneiros da genética molecular.
Holocausto O trabalho do casal foi primeiro limitado e depois interrompido pela ocupação nazista da França, iniciada em 1940. Embora não pudessem publicar suas pesquisas e Eugène não pudesse continuar em seu cargo de liderança, os dois seguiram trabalhando no instituto. Em março de 1943, a polícia foi ao Instituto Pasteur para prender Eugène, mas o diretor da instituição o internou em um hospital e informou aos policiais que ele estava doente demais para ser removido. Desde então, Elisabeth passou a dormir no hospital todas as noites.
Em 4 de dezembro, a polícia prendeu Elisabeth e Nadine na casa da família, e Eugène foi preso no dia 10. Nessa época, Nadine já havia se casado com o físico Claude Marty, e ambos trabalhavam com Frédéric Joliot-Curie, genro de Marie Curie. Joliot-Curie conseguiu garantir a libertação de Nadine ao obter a intervenção da embaixada japonesa. Élie Wollman vivia no sudoeste da França sob identidade falsa e participava da Resistência Francesa. Ele retornou a Paris para tentar libertar os pais, mas o casal permaneceu preso no Campo de deportação de Drancy.
Elisabeth e Eugène Wollman foram enviados para Auschwitz no Comboio 63, que deixou Paris de trem em 17 de dezembro de 1943. Pouco mais da metade do grupo, formado por cerca de 900 pessoas, foi selecionada para as câmaras de gás ao chegar ao campo, e apenas 22 dos demais sobreviveram até 1945. Como Elisabeth e o marido morreram em Auschwitz em 22 de dezembro de 1943, presume-se que tenham sido assassinados nas câmaras de gás.
Legado científico Após a guerra, colegas de trabalho, junto com o filho do casal, continuaram as pesquisas dos Wollman. Um antigo estudante do Instituto Pasteur, André Lwoff, decidiu demonstrar a importância das descobertas feitas por eles e retomou os estudos exatamente de onde haviam parado, inclusive utilizando material de um manuscrito inédito.
Com equipamentos especializados que os Wollman não tiveram à disposição, Lwoff conseguiu observar processos que o casal apenas havia teorizado. Ele desenvolveu uma hipótese fundamental para a compreensão dos vírus e da relação entre vírus e câncer. Em 1965, recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina por esse trabalho, reconhecendo explicitamente a contribuição dos Wollman em sua palestra do Nobel.
Um dos seus colegas laureados, François Jacob, colaborava com Élie Wollman em estudos sobre lisogenia. As pesquisas de Lwoff acabaram contribuindo posteriormente para a compreensão dos retrovírus, possibilitando a descoberta da causa do HIV e ampliando o entendimento científico sobre o câncer.
Em 2009, uma placa em homenagem a Elisabeth, Eugène e Élie Wollman foi inaugurada no pavilhão Émile-Roux do Instituto Pasteur, em Paris. O Instituto Pasteur também mantém um arquivo dedicado a Elisabeth Wollman, contendo correspondências pessoais, registros administrativos e um caderno científico. Fotografias dela como estudante em Liège, em 1908, e posteriormente ao lado do marido, estão disponíveis online no acervo do instituto.
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