Madeleine Malthête-Méliès (1923 – 8 de julho de 2018) foi uma historiadora de cinema e preservacionista francesa, neta de Georges Méliès (1861–1938), pioneiro do cinema. Ao longo de sete décadas, dedicou sua vida à busca, identificação e divulgação dos filmes do avô em todo o mundo, recuperando mais de 200 obras que se acreditavam perdidas. Foi cofundadora da Cinémathèque Méliès e membro fundadora da Cinémathèque française, sendo considerada uma das figuras centrais da preservação do patrimônio cinematográfico mundial.

Infância com Georges Méliès

Em 1930, quando Madeleine tinha sete anos, sua mãe Georgette Méliès faleceu após longa doença. Impossibilitado de criá-la por razões profissionais, seu pai confiou a menina aos cuidados dos avós maternos: o próprio Georges Méliès e sua segunda esposa, a atriz Jeanne d'Alcy, conhecida na família como "Fanny". Madeleine viveu assim ao lado do avô durante os anos mais difíceis da vida dele — o período da banca de brinquedos e doces na Gare Montparnasse e, posteriormente, na Maison de Retraite du Cinéma em Orly, onde o casal foi abrigado em 1932.

Após a morte de Georges Méliès em 21 de janeiro de 1938, Madeleine permaneceu em Orly ao lado de "Fanny" até junho de 1939. A convivência íntima com o avô durante a infância e adolescência deu-lhe acesso direto a memórias, documentos e materiais de produção que nenhum pesquisador externo teria. Essa proximidade tornaria seu trabalho posterior de preservação singularmente autorizado.

Cinémathèque française e Henri Langlois

Após a Segunda Guerra Mundial, Madeleine tornou-se colaboradora de Henri Langlois na Cinémathèque française, onde trabalhou entre 1943 e 1945. Langlois, cofundador da instituição, incentivou-a a buscar os filmes do avô, dos quais restavam então apenas oito cópias conhecidas em território francês.

Busca pelos filmes nos cinco continentes

A partir de 1949, com 26 anos e já mãe de três filhos, Madeleine iniciou uma série de conferências e projeções no exterior a convite do Ministério das Relações Exteriores da França, começando pelos países escandinavos. Na Suécia, durante essa primeira tournée, recebeu de Einar Lauritzen uma cópia de *La Fée Carabosse ou le Poignard fatal* (1906), colorida à mão — o início da coleção que viria a crescer por décadas.

Ao longo das décadas seguintes, Madeleine percorreu a Europa, a América do Norte, a América Latina, a África, o Oriente Médio, o Japão e Taiwan em busca dos filmes de Méliès. Localizou cópias em arquivos cinematográficos filiados à Fédération internationale des archives de films (FIAF), mas também em acervos particulares, feiras de antiguidades, brocanteurs e locais inusitados — incluindo uma caixa contendo um fragmento de *Viagem à Lua* encontrada em um galinheiro. Todas as cópias recuperadas foram depositadas no acervo do CNC em Bois d'Arcy.

O Ministério da Cultura da França assumiu posteriormente o patrocínio das missões, ampliando o alcance geográfico das tournées. A fórmula dos ciné-concerts com pianista e apresentações ao vivo à maneira dos espetáculos de feira, inaugurada por Madeleine em 1978 com os programas *Méliès tel qu'en lui-même* e *Les Burlesques de Méliès*, tornou-se o modelo de apresentação adotado pela associação.

Cinémathèque Méliès

Em maio de 1961, ano do centenário do nascimento de Georges Méliès, Madeleine e seu marido, o Dr. René Malthête (1908–1978), fundaram a associação *Les Amis de Georges Méliès*, posteriormente renomeada Cinémathèque Méliès. A missão da associação era localizar, preservar e promover a obra de Méliès, então considerada em grande parte perdida. A instituição angariou adesão imediata de membros da família Méliès, ilusionistas, colecionadores e arquivos cinematográficos internacionais.

Sob a direção de Madeleine, a associação organizou três colóquios acadêmicos internacionais dedicados à obra de Méliès, todos realizados no Centre Culturel International de Cerisy-la-Salle: em 1981 (*Méliès et la naissance du spectacle cinématographique*), em 1996 (*Méliès, l'illusionniste fin de siècle*, em parceria com a Universidade Sorbonne Nouvelle) e em 2011 (*Méliès, carrefour des attractions*).

Em 1981, a pedido do CNC, Madeleine e sua equipe redigiram o *Essai de reconstitution du catalogue français de la Star-Film*, seguido de uma *Analyse catalographique des films de Georges Méliès recensés en France*, publicado pelo CNC em setembro daquele ano — descrito como o primeiro trabalho desse tipo no mundo e reconhecido como modelo de rigor metodológico.

Em 2004, Madeleine vendeu ao CNC sua coleção não-fílmica — mais de mil peças entre fotografias de plateau, desenhos, figurinos e objetos mágicos adquiridos com recursos próprios ao longo de décadas — que foram confiados à Cinémathèque française. Em 2011, doou à Cinémathèque française os negativos em nitrato e elementos de tiragem de 77 filmes em 35 mm, enquanto a associação Cinémathèque Méliès doava paralelamente 144 filmes à mesma instituição. Esse acervo tornou possível a criação do Musée Méliès, inaugurado na Cinémathèque française em 2021.

Obra publicada

Georges Méliès, l'enchanteur. Paris: Hachette, 1973. (reeditado e ampliado em 2011) Méliès et la naissance du spectacle cinématographique (direção). Paris: Klincksieck, 1984. Georges Méliès l'enchanteur (edição revisada). 2011. Magnificent Méliès: The Authorized Biography (tradução inglesa, com Matthew Solomon e Kel Pero). Ann Arbor: University of Michigan Press, 2023.

Legado

Madeleine Malthête-Méliès faleceu em 8 de julho de 2018, aos 95 anos. Ao longo de cerca de 75 anos de trabalho ininterrupto, contribuiu para que a obra de Georges Méliès — que em 1945 contava com apenas oito filmes conhecidos em França — chegasse a mais de 200 títulos recuperados, tornando-o um dos cineastas pioneiros com patrimônio mais bem preservado da história do cinema.

A organização Domitor, dedicada ao estudo do cinema das origens, descreveu-a como pesquisadora pioneira e historiadora do cinema mudo que trabalhou por mais de 75 anos para localizar cópias sobreviventes e exibi-las para públicos ao redor do mundo.

Ligações externas

no CNC na Bibliothèque nationale de France no Domitor

Categoria:Historiadores do cinema Categoria:Historiadores da França Categoria:Nascidos em 1923 Categoria:Mortos em 2018 Categoria:Mulheres da França