O bico-virado-da-caatinga (nome científico: Megaxenops parnaguae) é uma espécie de ave passeriforme da família dos furnariídeos (Furnariidae) e da subfamília dos furnariíneos (Furnariinae). Mede 15–16 centímetros de comprimento e é um furnariídeo de pequeno porte, caracterizado pela plumagem predominantemente laranja-rufa brilhante a canela, com garganta branca bem definida e bico relativamente robusto, de formato cuneiforme. A face é majoritariamente laranja-rufa clara, com leve escurecimento periocular, enquanto a coroa e partes superiores são quase uniformemente laranja-rufa brilhante. As asas apresentam padrão contrastante, com coberteiras e rêmiges brilhantes, primárias marrom-opacas e terciárias laranja-rufa brilhante. As partes inferiores contrastam garganta e região malar brancas com ventre laranja-rufa clara. Não há dimorfismo sexual aparente e o plumagem juvenil não é descrita.

O bico-virado-da-caatinga é uma espécie endêmica do Brasil, ocorrendo em áreas do Piauí, Ceará, Pernambuco, Bahia, Goiás, Distrito Federal e Minas Gerais, associada aos biomas da Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica. Habita formações vegetais de porte florestal, como caatinga arbórea e florestas estacionais, geralmente entre 200 e metros de altitude, apresentando alguma tolerância a ambientes fragmentados e em regeneração. É essencialmente insetívoro, forrageando entre galhos e folhas mortas, frequentemente em bandos mistos, com dieta dominada por isópteros e outros artrópodes. O canto consiste em sequências de notas borbulhantes ou séries descendentes de kiak, e o tempo geracional é estimado em 2,9 anos. A espécie é classificada como pouco preocupante (LC) pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) devido à ampla distribuição e ausência de declínios globais rápidos, embora a perda de habitat e o desmatamento representem suas principais ameaças, com potencial de causar extinções locais e redução de até 28% do habitat adequado em cenários futuros.

Etimologia

miniatura|300px|Indivíduo avistado em Potengi, no Ceará

O nome genérico Megaxenops deriva do grego antigo mégas (), que significa "grande", combinado com Xenops, gênero descrito por Illiger em 1811. O elemento Xenops, por sua vez, provém dos termos gregos xénos (), "estranho", "forasteiro" ou "incomum", e ṓps (), "rosto" ou "aparência". Por sua vez, o epíteto específico parnaguae faz referência ao município de Parnaguá, no estado do Piauí, no Brasil.

Taxonomia e sistemática

O bico-virado-da-caatinga foi descrito oficialmente em 1905 por Othmar Reiser como Megaxenops parnaguae. É o único membro de seu gênero e não possui subespécies. Ele é apenas distantemente relacionado aos membros do gênero Xenops e, na verdade, é grupo-irmão de duas espécies do gênero Philydor, o limpa-folha-de-sobre-ruivo (P. erythrocercum) e o limpa-folha-de-asa-escura (P. fuscipenne).

Descrição

O bico-virado-da-caatinga mede 15–16 centímetros de comprimento. Furnariídeo de pequeno porte, caracterizado pela plumagem predominantemente laranja-rufa brilhante a canela, com garganta branca bem definida e bico relativamente robusto, de formato cuneiforme. A face é majoritariamente laranja-rufa clara, com leve escurecimento na região periocular. A testa apresenta coloração canela brilhante pálida, gradualmente integrada à coroa e às partes superiores, que são quase uniformemente laranja-rufa brilhante. As asas exibem padrão contrastante: coberteiras das asas e rêmiges brilhantes, coberteiras primárias marrom-opacas e terciárias laranja-rufa brilhante, com áreas internas levemente fuscas e pontas mais escuras; as terciárias são em grande parte canela-rufa. A cauda é arredondada, com eixos ligeiramente reforçados na base e pontas quase arredondadas, de coloração canela-rufa brilhante. As partes inferiores são compostas por garganta e região malar brancas, nitidamente contrastando com o restante da plumagem ventral laranja-rufa clara, tornando-se ligeiramente mais escuras nos flancos posteriores; as coberteiras inferiores apresentam tonalidade levemente mais escura e avermelhada. O íris é marrom-escura; o bico é cinza-acastanhado escuro, com pelo menos metade basal da mandíbula inferior esbranquiçada. Tarsos e dedos são cinza-escuros a negros. Não há dimorfismo sexual aparente, sendo os sexos semelhantes. O plumagem juvenil não foi descrita.

Distribuição e habitat

O bico-virado-da-caatinga é uma espécie endêmica do Brasil, ocorrendo do sudeste ao sul do Piauí, leste e sul do Ceará, oeste de Pernambuco, grande parte da Bahia, nordeste de Goiás, o Distrito Federal e norte de Minas Gerais. Ocorre nos biomas Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica. Está associada a múltiplas bacias hidrográficas, incluindo as sub-bacias dos rios Contas, Itapecuru–Paraguaçu, Jaguaribe, Jequitinhonha, além das regiões litorâneas do Ceará–Piauí e Sergipe, e das bacias do Alto e Médio Parnaíba e do Médio e Submédio São Francisco. É uma ave predominantemente arborícola, associada a formações vegetais de porte florestal, incluindo caatinga arbórea, florestas estacionais semideciduais e mata de cipó. Ocorre, em geral, entre aproximadamente 200 e de altitude. Demonstra certa tolerância a ambientes em regeneração, sendo capaz de se deslocar e dispersar entre diferentes fitofisionomias naturais ou parcialmente antropizadas. Está principalmente associada às fitofisionomias da Caatinga, incluindo áreas ecotonais com o Cerrado. Whitney & Pacheco (1994) registram a espécie em ambientes com vegetação arbórea, incluindo árvores com cerca de 50 centímetros de diâmetro à altura do peito e solos predominantemente arenosos.

Ecologia

O bico-virado-da-caatinga é essencialmente insetívoro. Forrageia ativamente ao deslocar-se por galhos, revirando cascas e folhas mortas em busca de alimento, não apresentando comportamento de escalada de troncos. Procura folhas vivas, folhas mortas e cascas de árvores; ocasionalmente, pica, puxa e cinzela cascas de árvores, mas não se sabe se martela cascas e madeira morta. Uma observação da ave investigando o ninho de isópteros, às vezes pendurada de cabeça para baixo. Frequentemente associa-se a bandos mistos, acompanhando espécies como Herpsilochmus e Hylophilus. A dieta é composta majoritariamente por isópteros (quase sempre alados ausentes), seguidos por formicídeos (formigas), ortópteros, coleópteros (escarabeídeos), larvas de lepidópteros e aracnídeos (Ctenus, Micrathena e Phoneutria); ocasionalmente também são consumidas pupas de formigas e sementes. Seu canto consiste em uma série de notas borbulhantes que se iniciam de forma lenta e discreta, tornando-se progressivamente mais rápidas e elevadas em tom, antes de decrescerem e se extinguirem ao final, com duração aproximada de três segundos. Também é descrito como uma sequência de 3–4 notas kiak descendentes, ocasionalmente emitidas em séries curtas, frequentemente acompanhadas por notas terminais guturais do tipo gro. O tempo geracional da espécie é estimado em 2,9 anos.

Conservação

Em 2018, a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) avaliou o bico-virado-da-caatinga como pouco preocupante (LC), pois ocorre numa distribuição extremamente grande e não se aproxima dos limiares para Vulnerável sob o critério de tamanho de distribuição (segundo a IUCN, extensão de ocorrência < 20 mil quilômetros quadrados combinada com um tamanho de distribuição decrescente ou flutuante, extensão/qualidade do habitat ou tamanho populacional e um pequeno número de locais ou fragmentação severa). Sabe-se que suas populações estão em tendência decrescente, mas o declínio não é suficientemente rápido para se aproximar dos limiares para vulnerável (> 30% de declínio ao longo de dez anos ou três gerações) e sua população é muito grande, o que igualmente descaracteriza a classificação como vulnerável (< 10 mil indivíduos maduros com um declínio contínuo estimado em > 10% em dez anos ou três gerações, ou com uma estrutura populacional especificada). Historicamente, a espécie chegou a ser considerada ameaçada em avaliações globais mais antigas, tendo sido classificada como vulnerável (VU) em 1994 e 1996 e anteriormente enquadrada na categoria ameaçada (T) em 1988. A partir de 2000 foi reclassificada como baixo risco/quase ameaçada (LR/nt), passando a ser considerada pouco preocupante (LC) em todas as avaliações globais subsequentes. Em âmbito nacional, as avaliações realizadas pelo ICMBio em 2010 e pelo Sistema SALVE em 2016 também classificaram a espécie como pouco preocupante. Embora não existam estimativas populacionais precisas, assume-se estabilidade geral da população. A espécie é considerada comum em unidades de conservação como os Parques Nacionais da Serra da Capivara e da Serra das Confusões, além da região da Serra Vermelha, no sul do Piauí. Em áreas de florestas estacionais deciduais da Chapada do Araripe, conhecidas localmente como carrasco, práticas de manejo florestal têm sido associadas a reduções populacionais quando comparadas a áreas não manejadas.

Em 2018, o bico-virado-da-caatinga foi considerado como pouco preocupante (LC) no Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A perda de habitat constitui uma ameaça evidente à sobrevivência do bico-virado-da-caatinga, espécie com preferência por ambientes florestais mais estruturados, embora também apresente alguma capacidade de dispersão entre diferentes fitofisionomias. A espécie é considerada relativamente comum em diversas localidades de ocorrência e demonstra certa tolerância à fragmentação e à degradação ambiental, incluindo áreas de pastagem e ambientes sujeitos a queimadas. Entretanto, o desmatamento permanece como um importante vetor de ameaça, com potencial para causar extinções locais. Modelos de nicho ecológico indicam impactos potenciais das mudanças climáticas e do desmatamento sobre a distribuição da espécie, utilizando dados de ocorrência georreferenciados provenientes de bases de ciência cidadã, bancos de dados virtuais e coleções ornitológicas, posteriormente validados por especialistas. As projeções consideraram 19 variáveis bioclimáticas do WorldClim 2.0, em resolução de 2,5 arc-min, aplicadas a cenários socioeconômicos otimista (SSP2-4.5) e pessimista (SSP5-8.5), para os períodos de 2017–2030 e 2017–2050, posteriormente integrados a dados de remanescentes de vegetação do MapBiomas (Coleção 8.0). Sob abordagem conservadora e considerando o cenário otimista, estimou-se uma redução de aproximadamente 28% do habitat adequado (climático e florestal) em um horizonte de 10 anos (2020–2030).

Áreas de conservação

O bico-virado-da-caatinga ocorre em diversas áreas de conservação:

Área de Proteção Ambiental (APA)

Cavernas do Peruaçu Chapada do Araripe Boqueirão da Onça Bacia do Rio Pandeiros Rio Preto Lago de Sobradinho Marimbus / Iraquara

Estação Ecológica (ESEC)

Raso da Catarina

Floresta Nacional (FLONA)

Contendas do Sincorá Araripe-Apodi

Parque Nacional (PARNA)

Cavernas do Peruaçu Serra da Capivara Serra das Confusões

Reserva Biológica (REBIO)

Serra Negra

Parque Estadual (PE)

Morro do Chapéu

Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN)

Adília Paraguassu Batista Arajara Park Córrego dos Bois Fazenda Olho D’Água do Urucu

Ligações externas

Observações de Megaxenops parnaguae no iNaturalist Vocalizações de bico-virado-da-caatinga no Xeno-canto

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