Doze Panegíricos Latinos () é o título convencional de uma coleção de doze orações panegíricas em prosa, da Roma Antiga e da Antiguidade Tardia, escritas em latim. Os autores da maior parte dos discursos da coleção são anônimos, mas aparentam ter sido de origem gálica. À exceção do primeiro panegírico, composto por Plínio, o Jovem em 100, os demais discursos da coleção datam do período entre 289 e 389 e provavelmente foram compostos na Gália romana. O manuscrito original, descoberto em 1433, perdeu-se; apenas cópias sobreviveram.

Antecedentes

A Gália possuía uma longa história como centro de retórica. Manteve sua predominância nesse campo até bem dentro do . Uma liderança inicial nesse domínio foi assumida pelos éduos, antigos aliados de Roma e desejosos de assimilar os costumes de seus novos governantes: as escolas de Meniano eram celebradas já no reinado de Tibério (Tácito, Anais, 3.43). Elas continuaram a florescer até os dias do avô de , mas foram fechadas em meados do (Pan. 9.17.2–3). Houve certo renascimento na cidade no final do , mas, após o estabelecimento de Augusta dos Tréveros (a moderna Tréveris) como capital imperial na década de 280, os oradores passaram a sentir inveja do patronato imperial desfrutado pelos cidadãos dali. Apesar da hegemonia política e econômica da cidade, contudo, Augusta dos Tréveros não conseguiu deixar marca significativa na retórica do período. Nixon e Rodgers sugerem que isso ocorreu simplesmente porque ela estava demasiado próxima da corte imperial. As evidências preservadas (que podem estar enviesadas pelas Professores de Bordéus, de Ausônio) apontam para um deslocamento dos centros dessa arte de Augustoduno e Augusta dos Tréveros durante o período tetrárquico e constantiniano, transferindo-se depois para Bordéus no final do .

Os panegíricos demonstram familiaridade com tratados anteriores de retórica. Alguns estudiosos argumentaram que os tratados de Menandro de Laodiceia exerceram influência particularmente forte sobre a coleção, e acreditam que seus preceitos foram empregados no décimo panegírico. Entretanto, como grande parte dos conselhos de Menandro consistia em procedimentos retóricos padronizados, os paralelos apresentados em favor de Menandro como modelo são insuficientes para provar sua utilização direta pelos panegiristas. Outros manuais de retórica também podem ter influenciado a coleção. A Institutio Oratoria, de Quintiliano, por exemplo, trata do tema da ascendência, da parentela e da pátria de um orador de maneira semelhante aos panegíricos de 289, 291, 297, 310, 311, 321 e 389 (Quintiliano, Institutio Oratoria, 3.7.10ff). Em todo caso, os demais panegíricos da coleção variam amplamente em relação ao esquema de Menandro. Os paralelos com outros oradores latinos, como Cícero e Plínio, o Jovem, são menos frequentes do que seriam caso esses autores houvessem servido como modelos estilísticos.

Língua e estilo

O latim dos panegíricos possui como base o latim clássico da chamada Idade de Ouro, derivado de uma educação fortemente centrada em Cícero, misturado a um grande número de usos característicos da Idade de Prata e a um pequeno número de termos tardios e vulgares. Para os estudantes de latim da Antiguidade Tardia, Cícero e Virgílio representavam os paradigmas da língua; por essa razão, os panegiristas faziam uso frequente deles. A Eneida, de Virgílio, constitui a fonte favorita; as Geórgicas, a segunda favorita; e as Bucólicas, uma terceira bastante distante. Outros poetas eram muito menos populares: há alusões esparsas a Horácio e um empréstimo completo de Ovídio. Ao recorrerem à obra de Cícero, os panegiristas buscavam sobretudo os textos em que ele exprimia admiração e desprezo. Como fonte de elogio, o panegírico ciceroniano em honra de Pompeu em defesa da Lei Manília (De Imperio Cn. Pompei) era particularmente popular. Ele é ecoado trinta e seis vezes na coleção, distribuídas por nove ou dez dos onze panegíricos tardios. As três orações de Cícero em honra de Júlio César também foram úteis. Dentre elas, os panegiristas demonstravam especial predileção pelo Pro Marcello; ao longo de oito panegíricos, encontram-se mais de doze alusões a essa obra. Como fonte de invectiva, as Catilinárias e as orações contra Verres eram as principais referências (há onze citações da primeira e oito da segunda).

Outros modelos clássicos em prosa exerceram influência menor sobre os panegíricos. O Panegírico, de Plínio, é familiar aos autores dos panegíricos 5, 6, 7, 11 e especialmente 10, no qual aparecem diversas semelhanças verbais. Salústio é ecoado nos panegíricos 10 e 12 por meio da Bellum Catilinae, e nos panegíricos 6, 5 e 12 através da Guerra de Jugurta. Tito Lívio parece ter sido utilizado no panegírico 12 e no panegírico 8. O panegirista do número 8 devia conhecer Marco Cornélio Frontão, cuja exaltação de Marco Aurélio ele menciona, e o autor do número 6 aparentemente conhecia a Agrícola de Tácito.Panegírico 6.9.3 ecoa Tácito, Agrícola, 12. Os oradores éduos, que fazem referência a Júlio César no contexto da Gália e da Britânia, estão ou diretamente familiarizados com sua prosa ou conhecem sua figura por intermédio de autores como Floro. O panegírico 12, por sua vez, contém uma alusão direta ao Commentarii de Bello Civili de César.Panegírico 12.6.1–2, aludindo à Bellum civile 3.80.1–81.2. Cláusulas acentuais e métricas eram empregadas por todos os panegiristas gálicos. Todos eles, com exceção de Eumênio, utilizavam ambas as formas em cerca de 75% ou mais dos casos. Tratava-se de um ritmo métrico comum à época, mas que caiu em desuso no século V, quando considerações métricas já haviam perdido importância.

Conteúdo Orador Ordem no manuscrito Data Ordem cronológica Plínio, o Jovem I 9 de janeiro de 100 1 Pacato II 389 12 Cláudio Mamertino III 1 de janeiro de 362 11 Nazário IV Março de 321 10 Anônimo V 311 8 Anônimo VI 310 7 Anônimo VII Setembro de 307 6 Anônimo VIII 297 4 Eumênio IX 298 5 Anônimo X 289 2 Anônimo XI 291 3 Anônimo XII 313 9 Com base em Rees, Layers of Loyalty, 20.

A coletânea compreende os seguintes discursos:

De Plínio, o Jovem. Originalmente, tratava-se de um discurso de agradecimento (gratiarum actio) pelo consulado, cargo que ocupou em 100, e que foi pronunciado no Senado em honra do imperador Trajano. Essa obra, muito mais antiga que o restante da coletânea e geograficamente anômala, provavelmente serviu de modelo para os demais discursos. Plínio era um autor popular no final do — Quinto Aurélio Símaco, por exemplo, modelou suas cartas segundo as de Plínio — e toda a coletânea pode ter sido concebida como um exemplum em sua homenagem. Mais tarde, ele revisou e expandiu consideravelmente a obra, razão pela qual ela é, de longe, a mais extensa de toda a coleção. Plínio apresenta Trajano ao leitor como o governante ideal, o optimus princeps, contrastando-o com seu predecessor Domiciano. De Pacato, em honra do imperador , pronunciado em Roma em 389. De Cláudio Mamertino, em honra do imperador Juliano, pronunciado em Constantinopla em 362, também como discurso de agradecimento por sua assunção ao cargo de cônsul naquele ano. De Nazário. Foi pronunciado em Roma, perante o Senado, em 321, por ocasião do décimo quinto aniversário da ascensão de e do quinto aniversário da elevação de seus filhos Crispo e à dignidade de césar. O discurso é peculiar porque nenhum dos imperadores homenageados estava presente em sua pronunciação e porque celebra a vitória de Constantino sobre Maxêncio (na Batalha da Ponte Mílvia) em 312, evitando quase toda referência aos acontecimentos contemporâneos. Do ano 311, pronunciado em Augusta dos Tréveros por um orador anônimo, que agradece a Constantino I por um alívio fiscal concedido à sua cidade natal, Augustoduno. De um autor anônimo (embora diferente do anterior), também pronunciado na corte de Augusta dos Tréveros, em 310, por ocasião da Quinquenália de Constantino (o quinto aniversário de sua ascensão) e do aniversário de fundação da cidade de Augusta dos Tréveros. Contém a descrição de uma aparição do deus solar Apolo a Constantino, frequentemente considerada um modelo para a posterior visão cristã do imperador. Além disso, o discurso propaga a lenda de que o imperador era ancestral de Constantino. De um autor anônimo, pronunciado no casamento de Constantino com Fausta, filha de Maximiano, em 307, provavelmente também em Augusta dos Tréveros; por isso, contém elogios a ambos os imperadores e a seus feitos. A noiva e o casamento aparecem apenas de maneira muito limitada na oração. celebra a reconquista da Britânia por Constâncio Cloro, caesar da tetrarquia, tomada de Alecto, em 296. O discurso provavelmente foi pronunciado em 297, em Augusta dos Tréveros, então residência de Constâncio. É o segundo discurso da coletânea em que o imperador não estava presente. É de autoria de Eumênio, professor de retórica em Augustoduno, e dirigido ao governador da província da Gália Lugdunense. Muito provavelmente foi pronunciado em 297/298, em Augustoduno ou Lião. Além de seu tema principal — a restauração da escola de retórica de Augustoduno —, elogia as realizações dos imperadores da tetrarquia, especialmente as de Constâncio. Do ano 289 (e, portanto, o mais antigo dos discursos da Antiguidade Tardia presentes na coleção), pronunciado em Augusta dos Tréveros em honra de Maximiano, por ocasião do aniversário da fundação da cidade de Roma. Segundo uma tradição manuscrita contestada, o autor teria sido um certo Mamertino, identificado com o autor do discurso seguinte. De 291, também em Augusta dos Tréveros, dirigido a Maximiano no aniversário do imperador. Frequentemente é atribuído a Mamertino, provavelmente o magister memoriae (secretário particular) de Maximiano, embora o texto seja corrupto e a autoria não seja inteiramente certa. De um orador anônimo, pronunciado em Augusta dos Tréveros em 313, celebrando (e descrevendo extensamente) a vitória de Constantino sobre Maxêncio em 312. O autor desse panegírico faz amplo uso de Virgílio.

Temas

Os panegíricos exemplificam a cultura da praesentia imperial, ou "presença", também encapsulada na cerimônia imperial do advento ou "chegada". Os panegíricos sustentavam como fato consumado que a aparição de um imperador era diretamente responsável por trazer segurança e benefícios. Os oradores mantinham essa presença visível em tensão com outra noção, mais abstrata, do imperador ideal, eterno e onipresente. O panegirista de 291 observou que o encontro entre Diocleciano e Maximiano durante o inverno de 290/291 se assemelhava ao encontro de duas divindades; se os imperadores tivessem atravessado juntos os Alpes, seu brilho resplandecente teria iluminado toda a Itália.Panegírico 11.10.4–5, 11.4, citado em Os panegíricos passaram a integrar o vocabulário pelo qual os cidadãos podiam discutir noções de "autoridade". De fato, como os panegíricos e as cerimônias públicas constituíam parte tão proeminente da exibição imperial, eles — e não as realizações legislativas ou militares mais substanciais do imperador — tornaram-se a "essência vital" do soberano aos olhos do público.

Origem e tradição da coletânea

Compilação e propósito