As tribulações de um porteiro (título original em francês: Les tribulations d'un concierge) é um curta-metragem mudo francês de 1896, dirigido e produzido por Georges Méliès e lançado pela Star Film. Registrado sob o número 39 do catálogo Star Film, é classificado como comédia e tem por tema as dificuldades de um concierge — o porteiro residente de um edifício parisiense.O termo concierge designava, na Paris de 1896, uma função social muito específica: o porteiro residente que habitava a loge, uma pequena habitação junto à entrada do edifício, controlava o acesso dos moradores e visitantes, distribuía a correspondência e zelava pela ordem do imóvel. A função era essencialmente de portaria e vigilância — não de manutenção —, e era exercida com frequência por mulheres. O título em inglês do catálogo norte-americano, A Janitor in Trouble, reflete a semântica do termo "janitor" no inglês americano do século XIX, que designava o caretaker ou guardião de um edifício de forma mais ampla do que o sentido predominantemente associado a limpeza e manutenção que o termo adquiriu posteriormente. A tradução "porteiro" é a que melhor corresponde à função do concierge parisiense de 1896 no contexto brasileiro. O filme é atualmente considerado perdido.

Enredo

O conteúdo do filme não pode ser confirmado: não se conhece descrição do catálogo Star Film para este título e nenhuma cópia sobreviveu. Infere-se exclusivamente pelo título que o filme apresentava um porteiro parisiense em situação cômica ou embaraçosa — inferência consistente com a classificação do filme como comédia no catálogo.

Em 1896, os irmãos Lumière haviam lançado um filme de título muito semelhante, Les tribulations d'une concierge, dirigido por Alexandre Promio, no qual crianças pregavam peças no porteiro de um edifício. Méliès realizou naquele mesmo ano numerosas refilmagens de produções dos Lumière;A prática de refilmar produções dos irmãos Lumière era comum entre os primeiros cineastas do período, incluindo o próprio Méliès, que produziu diversas versões de temas já explorados pelos operadores Lumière. Não se pode, porém, confirmar com base nas fontes disponíveis que o filme de Méliès reproduzia especificamente o mesmo enredo do filme de Promio. Note-se ainda que o título de Méliès usa o masculino (un concierge), enquanto o título Lumière usa o feminino (une concierge), o que pode indicar diferenças de conteúdo ou simplesmente uma variação de redação. se Les tribulations d'un concierge foi inspirado ou diretamente baseado no filme Lumière, o conteúdo era provavelmente similar — mas essa relação permanece como hipótese, não como fato documentado.

Produção

Méliès e as refilmagens dos Lumière

Nos seus primeiros meses como cineasta, Méliès produziu diversas refilmagens de filmes dos irmãos Lumière, com o objetivo de competir com a oferta cinematográfica já estabelecida pelo Cinematógrafo. Essa prática era corrente na época e não implicava plágio no sentido moderno do termo — os temas filmados pelos operadores Lumière eram considerados de domínio comum, e vários cineastas europeus e americanos produziram suas próprias versões dos mesmos assuntos.

O filme dos Lumière Les tribulations d'une concierge (1896), dirigido por Alexandre Promio, era uma comédia de situação centrada nas peripécias do porteiro de um edifício. A versão de Méliès, registrada no catálogo com o mesmo tema mas com o título no masculino, situa-se nessa tradição de reaproveitamento de temas populares — embora, dada a perda do filme, não seja possível determinar em que medida Méliès se afastou ou se manteve próximo do modelo Lumière.

O concierge como personagem cômico

A figura do concierge parisiense era um tipo social amplamente reconhecível pelo público francês de fins do século XIX, e aparecia com frequência na literatura, no teatro de variedades e nas caricaturas políticas da época como personagem associado à fofoca, à autoridade mesquinha e às pequenas tiranias do cotidiano urbano. Sua utilização como sujeito de uma comédia cinematográfica era, portanto, imediatamente inteligível para a plateia de 1896.O concierge parisiense como tipo cômico tem longa tradição na cultura popular francesa, desde as chansons de rua até o vaudeville e o teatro de boulevard. A imagem do porteiro intrometido, autoritário ou constantemente perturbado pelos moradores era um clichê reconhecível que Méliès e os Lumière exploraram de formas distintas.

Contexto no catálogo

Registrado sob o número 39 do catálogo da Star Film, As tribulações de um porteiro é precedido por Les forgerons (vue d'atelier) (#38) e seguido por Baignade en mer (#40). O filme situa-se na fase inicial da produção de Méliès, apenas dois números após o primeiro filme da série Dessinateur (#37), e reflete a variedade de gêneros que Méliès explorava simultaneamente naquele primeiro ano: cenas de atualidade, comédias, registros de performance e experimentos com efeitos especiais.

Preservação

O filme é considerado perdido. Nenhuma cópia ou fragmento foi localizado em arquivos ou coleções conhecidas.

Ver também

Georges Méliès Star Film Company Irmãos Lumière Filme perdido

Ligações externas

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