Hormisda I Cuxanxá (; ; ) foi cuxanxá do Reino Cuchano-Sassânida de 275 a 300. Hormisda foi notavelmente o primeiro governante cuchano-sassânida a reivindicar o título de "grão rei de reis dos cuchanas", em vez do tradicional "grão-rei dos cuchanas". Isso demonstra uma mudança significativa na ideologia e na autopercepção cuchano-sassânida, e possivelmente uma disputa direta com o ramo governante da família sassânida. Por esse motivo, alguns historiadores assumem que seja o Ormies citado no Panegírico XI.17.2, que a fonte descreveu como irmão do xainxá sassânida , contra quem se rebelou. Admitindo que a associação esteja correta, à época da morte de Vararanes II, em 293, a rebelião de Hormisda havia sido suprimida; ele continuou a governar até sua morte em 300, sendo sucedido por seu homônimo .
Etimologia
thumb|upright=1.05|A vitória de (à esquerda) sobre Hormisda I (à direita) é representada no painel inferior em Nacxe-i Rustão (o painel superior mostra a "vitória" de Vararanes II sobre o imperador Caro). thumb|upright=1.05|Dinar de ouro de Hormisda, imitando as moedas do Império Cuchana, com a divindade Oexo no reverso
O teônimo Hormisda é a versão latina do persa médio Hormisde (; Hormizd), Ormasde (Ōhrmazd), Hormosde / Ormosde ((H)ormozd), Ormusde (Ormuzd) ou Oramasde (Ohramazd), o nome da divindade suprema no zoroastrismo, cujo nome avéstico era Aúra-Masda (, Ahura-Mazdāh). Foi registrado em persa antigo como Auramasda (Auramazdā), em grego como Hormisdas (, Ormísdas), Hormisdes (, Ormísdēs), Horomazes (, Ōromázēs) e Hormisdates (, Ormisdátēs), em armênio como Oramasde (, Oramazd) e Ormisde (, Ormizd), em georgiano como Urmisde (, Urmizd), em árabe como Hormuz () e Hurmusde (, Hurmuzd), em túrquico antigo como Ormiste (), em siríaco como Hurmisde (, hwrmyzd [Hūrmizd]) e em copta como Gormessade (, Gormēsad / Gōrmēsad).
Vida
Origens
Assim como os anteriores cuchano-sassânidas, Hormisda I era, na prática, um governador da porção oriental do Império Sassânida, que incluía a região de Tocaristão, Cabulistão e Gandara. Os cuchano-sassânidas, à semelhança do Império Cuchana, utilizavam o título de cuxanxá ("rei dos cuchanas"), demonstrando assim uma continuidade com seus predecessores. O Panegírico XI.17.2 menciona certo Ormies (Hormisda) como irmão de e, portanto, como filho de . Tentativamente, alguns historiadores, dentre os quais Alireza Shapour Shahbazi, propuseram associá-lo a Hormisda I Cuxanxá, mas essa posição não é unânime. Por conseguinte, Vladimir Lukonin e Richard Nelson Frye, retomando proposta anterior de Theodor Nöldeke, sugeriram que Ormies seja, na verdade, Hormisda, filho de Sapor de Mesena e primo de Vararanes II.
Reinado
Hormisda foi o primeiro governante cuchano-sassânida a cunhar moedas com o título de "grão rei de reis dos cuchanas", em vez do tradicional "grão-rei dos cuchanas". As datas exatas de seu reinado permanecem incertas e são reconstruídas principalmente por meio de evidências numismáticas, e não de registros históricos contemporâneos. O rei cuchano-sassânida, ao reivindicar o título de rei de reis — que também havia sido utilizado pelo Império Cuchana — demonstra uma mudança significativa na ideologia e na autopercepção cuchano-sassânida, e possivelmente uma disputa direta com o ramo governante da família sassânida. Assumindo que seja o Ormies do Panegírico, a fonte afirma que conduziu uma revolta contra Vararanes II, com apoio dos sacastanis, dos gelas e dos cuchanas. Ao mesmo tempo, uma revolta liderada por um sumo sacerdote (mobede) ocorreu na província de Cuzistão, que foi tomada por este por um período.
Enquanto isso, o imperador romano Caro, ao tomar conhecimento da guerra civil no Império Sassânida, decidiu tirar proveito da situação e lançou uma campanha contra o império em 283. Ele invadiu a Mesopotâmia enquanto Vararanes II estava no leste, chegando inclusive a sitiar a capital sassânida, Ctesifonte, sem enfrentar grande resistência. Os sassânidas, devido a graves problemas internos, não conseguiram organizar uma defesa coordenada eficaz; Caro e seu exército podem ter capturado Ctesifonte. No entanto, Caro morreu pouco depois, supostamente atingido por um raio. O exército romano então se retirou, e a Mesopotâmia foi reconquistada pelos sassânidas. No ano seguinte, Vararanes II fez a paz com os romanos, agora governados por Diocleciano, que enfrentava seus próprios problemas internos. À época da morte de Vararanes II, em 293, as revoltas no leste haviam sido suprimidas, e seu filho e herdeiro foi nomeado governador de Sacastão, recebendo o título de sacanxá ("Rei dos sacas"). Hormisda I governou até 300, sendo sucedido por seu homônimo .
Cunhagem
As moedas de Hormisda foram cunhadas em Cabul, Bactro, Herate e Merve. A sincronicidade dos cuchano-sassânidas com os governantes do Império Cuchana é bem estabelecida, pois uma grande quantidade das primeiras moedas de cobre de Hormisda provenientes do sul do Indocuche foi sobrecunhada pelo imperador cuchano . Algumas de suas moedas imitam a cunhagem cuchana, com o rei em pé, trajando vestes militares cuchanas no anverso, e a divindade Oexo no reverso. Outras moedas, porém, seguem mais de perto o padrão sassânida, com ele representado em estilo sassânida e com um altar de fogo ou divindade no reverso. No anverso das moedas, Hormisda aparece usando uma coroa em forma de cabeça de leão. O leão era um símbolo de Nana, contraparte oriental de Anaíta, a deusa da fertilidade, e derivava da deusa mesopotâmica Inana. Leões, juntamente com leopardos e gatos, eram considerados animais malignos no zoroastrismo, sendo portanto malvistos. Ainda assim, o leão pode ter sido escolhido como símbolo de Nana/Anaíta pelos cuchano-sassânidas, apesar de suas conotações desfavoráveis. São conhecidos alguns casos de sobrecunhagem nas moedas de Hormisda I por parte do governante Paratarajá Dataiolá.
Bibliografia
Categoria:Cuxanxás Categoria:Persas do século III Categoria:Iranianos do século IV Categoria:Revoltas contra o Império Sassânida