Les quais à Marseille (em português: Os cais de Marselha) é um curta-metragem francês de filme mudo e documentário de 1896, dirigido e produzido por Georges Méliès. Distribuído pela Star Film, o filme é registrado com o número 29 em seu catálogo. Com aproximadamente 20 metros de película, equivalentes a cerca de um minuto de projeção, presume-se registrar os cais do porto de Marselha — o maior porto da França em 1896 e principal porta de entrada do comércio mediterrâneo e colonial francês. Nenhuma descrição do conteúdo foi localizada nos catálogos da Star Film conhecidos até hoje; o tema é inferido exclusivamente pelo título. O filme é considerado perdido.
Enredo
Nenhuma descrição do conteúdo foi localizada nos catálogos da Star Film conhecidos até hoje. Presume-se, pelo título, que o filme registre o movimento dos cais do porto de Marselha — provavelmente o Bassin de la Joliette, principal área portuária comercial da cidade em 1896 —, captando navios a vapor, estivadores e o intenso tráfego de mercadorias característico de um dos maiores portos do Mediterrâneo. Todo o conteúdo é inferido exclusivamente pelo título.
Os cais de Marselha em 1896
Marselha era, em 1896, o maior porto da França em volume total de comércio marítimo, superando Le Havre no tráfego mediterrâneo e colonial. Fundada pelos gregos de Foceia por volta de 600 a.C., a cidade desenvolveu ao longo dos séculos uma vocação portuária que a tornaria a principal porta de entrada da França para o Mediterrâneo, o norte da África e as colônias francesas do Oriente.
O porto histórico de Marselha — o Vieux-Port — funcionara como centro econômico da cidade desde a Antiguidade, mas tornou-se insuficiente diante da expansão do comércio marítimo no século XIX. Entre 1847 e 1853, foi construído o Bassin de la Joliette, um novo conjunto de bacias portuárias a oeste do Vieux-Port, projetado para acomodar os navios a vapor de grande calado que passavam a dominar o tráfego atlântico e mediterrâneo — especialmente após a abertura do Canal de Suez em 1869, que multiplicou o tráfego de mercadorias entre a Europa e a Ásia pelo porto de Marselha. Em 1896, os cais da Joliette apresentavam um espetáculo de dinamismo industrial: guindastes a vapor, estivadores, navios de carga de três mastros e vapores oceânicos lado a lado, carregados de algodão, especiarias, café e manufaturas provenientes das rotas coloniais.
O contraste com o porto de Le Havre — filmado por Méliès no n.º 27 da mesma série — era marcante: enquanto o Havre dominava o comércio atlântico e as rotas para a América do Norte, Marselha concentrava o tráfego mediterrâneo, africano e asiático, refletindo a posição geográfica e histórica das duas cidades como as duas grandes portas marítimas da França.
Produção
Les quais à Marseille marca uma mudança geográfica significativa na série de filmagens externas de Georges Méliès em 1896: depois da série normanda realizada em Villers-sur-Mer e Le Havre (n.º 27 e 28), Méliès viajou ao sul da França para filmar em Marselha — o que indica que a campanha de filmagens ao ar livre desse ano foi mais extensa e ambiciosa do que uma simples excursão à Normandia. O filme integra o conjunto de filmes de atualidade produzidos entre 1896 e 1900, que totalizam 93 títulos — cerca de 18% de toda a obra de Méliès.
A escolha dos cais de Marselha como tema é coerente com a lógica de documentação da modernidade industrial que guiava Méliès nessa fase: assim como havia filmado o descarregamento de barcos no Havre (n.º 27) e os ciclistas do Touring Club de France no Bois de Boulogne (n.º 20), o cineasta buscava registrar os grandes cenários de movimento e vida pública que caracterizavam a França finissecular. Os grandes portos industriais — com seus navios, guindastes e trabalhadores em movimento constante — eram considerados pelos pioneiros do cinema temas de apelo visual garantido, pela mesma razão que atraíam os pintores e fotógrafos da época: o espetáculo do trabalho coletivo e da modernidade técnica em ação.
Contexto no catálogo Star Film
Les quais à Marseille ocupa o número 29 no catálogo da Star Film, empresa fundada por Méliès em 2 de dezembro de 1896. O filme situa-se entre Praia de Villers com mau tempo (n.º 28), da série normanda, e Jetée et plage de Trouville (1ère partie) (n.º 30), que retorna à Normandia — o que sugere que a filmagem em Marselha foi um desvio isolado dentro de uma campanha de filmagens predominantemente normanda.
Preservação
O filme é classificado como filme perdido. O suporte em nitrato de celulose era altamente inflamável e quimicamente instável; parte significativa dos negativos foi destruída pelo próprio Méliès durante a crise financeira que se seguiu à Primeira Guerra Mundial — as películas eram queimadas deliberadamente para fundir a emulsão e recuperar o nitrato de prata nela contido, que tinha valor comercial —, e outra parte foi requisitada pelo exército francês durante o conflito. Estima-se que, dos aproximadamente 520 filmes realizados por Méliès entre 1896 e 1912, apenas cerca de 200 tenham sobrevivido.
Ver também Georges Méliès Star Film Company Marselha Bassin de la Joliette Vieux-Port de Marseille Filme perdido Filme mudo Filme de atualidade
Ligações externas
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