thumb|300px|Pintura de Stalin e Lenin na Conferência de Tampere por Aleksandr Moravov (1951) A conferência de Tampere foi a primeira conferência da facção bolchevique do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR), realizada em Tampere (Tammerfors), no Grão-Ducado da Finlândia, em dezembro de 1905. Realizada entre os congressos do partido em Londres (1905) e Estocolmo (1906), no Salão Operário de Tampere, foi um encontro não oficial dos bolcheviques. É particularmente lembrada por ter sido palco do primeiro encontro entre Vladimir Lenin e Josef Stalin. A conferência decidiu não participar da nova Duma Estatal, assim como a maioria dos partidos de extrema esquerda. Posteriormente, em 1907, reverteram essa decisão.Demin, V. A. (2008). "Factions in the Second State Duma". Russian Studies in History. 46 (4): 34
A conferência de Tampere foi realizada em segredo, e poucos registros restaram de seus trabalhos. Os únicos documentos conhecidos são o registro impresso das resoluções alcançadas na reunião e o relatório de Lenin sobre seus resultados. O período exato da reunião também não é claro. Fontes finlandesas sugerem que ela ocorreu entre 25 e 30 de dezembro, enquanto, segundo o historiador russo G. Kramolnikov, que escreveu sobre a conferência na década de 1930, ela foi inaugurada antes, com as primeiras sessões realizadas em 23 de dezembro.
Antecedentes Um convite para a reunião de Tampere foi publicado no jornal bolchevique Novaia Jizn no final de novembro de 1905. O documento convidava as organizações bolcheviques regionais a elegerem representantes para participar de uma conferência na Finlândia, que seria aberta em 23 de dezembro. A conferência foi concebida como um encontro da facção bolchevique do POSDR liderada por Lenin, que havia se fortalecido após o III congresso do partido, realizado em Londres no início daquele ano. Em novembro, a facção menchevique realizou sua própria "segunda conferência geral" em São Petersburgo. A instabilidade causada pela Revolução Russa de 1905, no entanto, impediu que muitas organizações regionais bolcheviques enviassem representantes a Tampere, incluindo as de Moscou, Samara e Nijni Novgorod. Assim, o encontro foi rebaixado de congresso partidário para conferência.
Pouco antes da conferência de 21 de dezembro, o Soviete (conselho operário) de Moscou, controlado pelos bolcheviques, decidiu iniciar uma rebelião armada. No início da conferência do partido, o desfecho da rebelião ainda era incerto. Além disso, o governo russo acabara de promulgar uma lei eleitoral para a nova Duma Estatal, que se tornou um dos temas de debate na conferência.
A conferência estava prevista para ser realizada em São Petersburgo, mas isso foi posteriormente considerado inviável devido à instabilidade política na cidade. A Finlândia foi escolhida como nova sede da conferência porque não era necessário passaporte para viajar até lá. Yrjö Sirola, secretário do Partido Social-Democrata finlandês, recomendou a cidade de Tampere, pois não havia tropas russas estacionadas no local. Além disso, o prefeito de Tampere acolhia ativistas anticzaristas de diversos grupos, e a cidade abrigava um forte movimento operário. Inicialmente, Lenin se opôs à escolha de Tampere como sede da conferência, mas mudou de opinião após a greve geral ocorrida na cidade durante a Revolução Russa de 1905. Segundo o anúncio publicado no jornal Novaya Zhizn, os representantes que participariam da conferência deveriam se encontrar na Estação Finlândia, em São Petersburgo, no dia 21 de dezembro; de lá, seguiriam de trem para Tampere em pequenos grupos.
A identidade dos organizadores finlandeses da conferência é incerta. Vihtori Kosonen, editor do jornal Kansan Lehti, foi apontado como um deles.
Conferência thumb|Salão dos Trabalhadores de Tampere, onde a conferência foi realizada, em 2011 A conferência foi realizada no Salão dos Trabalhadores de Tampere, um prédio de cinco anos construído pela Sociedade dos Trabalhadores de Tampere como um centro cultural e de lazer para a classe trabalhadora, conhecido como "Casa do Povo". O salão era considerado o local ideal para a conferência, pois a grande quantidade de eventos e atividades ali realizadas proporcionava cobertura para operações secretas. A Sociedade dos Trabalhadores ofereceu espaço no salão gratuitamente, organizou uma guarda para vigiar a polícia secreta czarista e providenciou acomodação para os representantes em hotéis locais. As sessões da conferência começaram em 23 de dezembro, embora a abertura oficial só tenha ocorrido no dia seguinte. Lenin foi eleito presidente, com Boris Goldman (conhecido pelo pseudônimo de Gorev) e Mikhail Borodin (conhecido pelo pseudônimo de Kiril) escolhidos como vice-presidentes. Por sugestão de Lenin, todos os representantes na conferência usaram pseudônimos, por medo de serem descobertos pela polícia secreta. Entre os representantes de renome presentes na conferência, destacam-se Fyodor Dan, Leonid Krasin, Julius Martov e Alexei Rikov. Leo Laukki representou o Partido Social-Democrata da Finlândia (SDP).
Um total de 41 representantes de organizações regionais do POSDR de toda a Rússia participaram da conferência. A primeira ordem do dia foi a apresentação de informações sobre os acontecimentos em curso em cada região da Rússia e uma discussão sobre as ações do Comitê Central do POSDR. Lenin fez pelo menos dois discursos na conferência, e estes foram posteriormente elogiados por Stalin em suas memórias. O clima na conferência era de grande entusiasmo revolucionário, o que foi elogiado pela esposa de Lenin, Nadejda Krupskaia. Segundo ela, membros da Guarda Vermelha de Tampere chegaram a ensinar os russos a atirar com rifles.
A principal questão levantada na conferência foi a cisão entre as facções bolchevique e menchevique do partido. Os bolcheviques desejavam sanar a cisão, mas não consideravam comprometer a ideologia bolchevique na busca por uma solução. Em Tampere, eles consideraram métodos para restaurar a cooperação entre as duas facções, mesmo que a cisão formal não pudesse ser resolvida. Ao final, a conferência decidiu sanar a divisão entre bolcheviques e mencheviques com base na igualdade entre as duas facções e manifestou seu apoio à fusão de organizações regionais paralelas de mencheviques e bolcheviques.
Eles também levaram em consideração a "questão agrária", um termo usado pelos marxistas para se referir ao debate sobre se o campesinato rural apoiaria uma revolução proletária urbana. Em relação a essa questão, a conferência votou a favor da exigência de confisco de todas as terras privadas, estatais e religiosas. Por fim, a conferência discutiu as próximas eleições para a recém-criada Duma Estatal. A maioria dos representantes na conferência considerou a lei eleitoral da Duma Estatal, recentemente divulgada, uma "farsa do parlamentarismo" e instou ao boicote das eleições. Lenin, juntamente com Gorev, discordou, sugerindo que a lei eleitoral poderia ser explorada em benefício dos bolcheviques e que era necessário flexibilidade nos esforços para conter o poder do czar. Diante da forte oposição, Lenin abandonou essa posição e endossou o apelo da maioria por um boicote eleitoral e apoio à revolta armada em curso em Moscou, o que foi então adotado. Outra decisão tomada na conferência foi a de reorganizar o partido em uma estrutura mais centralizada, em consonância com os princípios do centralismo democrático de Lenin.
Encontro entre Lenin e Stalin O primeiro encontro entre Lenin e Stalin ocorreu durante a conferência, em uma sala de reuniões no Salão dos Trabalhadores. Stalin escreveu mais tarde em suas memórias que o encontro havia sido, a princípio, uma decepção. Ele havia presumido que o líder dos bolcheviques seria uma figura imponente, fisicamente maior do que todos os outros presentes, mas descobriu, em vez disso, que ele era mais baixo do que a média e não parecia diferente de nenhum dos outros representantes presentes na conferência. Também escreveu que achava ser costumeiro que grandes homens chegassem atrasados a tais eventos, para facilitar a espera do público reunido. Lenin, no entanto, chegou na hora, conversando com conhecidos em uma mesa de canto e cumprimentando os representantes de maneira informal. Stalin escreveu que, na época, considerou isso uma "violação de certas regras essenciais", mas depois percebeu que essa "simplicidade e modéstia" eram as maiores qualidades de Lenin como líder da "base" da humanidade. A sala onde ambos se encontraram atualmente faz parte do Museu Lenin de Tampere.
Mitos em torno da conferência thumb|Uma placa comemorativa na parede do Salão dos Trabalhadores de Tampere Como não existem atas dos trabalhos da conferência nem fotos da reunião em si, há pouquíssimas informações confiáveis sobre o que realmente ocorreu no evento, e as lembranças das pessoas a respeito dele estão mais ou menos distorcidas. Além disso, pelo fato de a reunião ter contado com a presença de figuras de grande importância histórica, incluindo Lenin e Stalin, surgiram inúmeras lendas e mitos que não são necessariamente verdadeiros. Por exemplo, Lenin e sua esposa, Nadejda Krupskaia, teriam se hospedado em uma pensão na esquina das ruas Rautatienkatu e Kyttälänkatu, em Tampere, conforme indicado por uma placa comemorativa na parede do edifício. Na verdade, ainda não havia uma casa de hóspedes naquele local em 1905, e Lenin provavelmente ficou hospedado no Hotel Bauer, assim como muitos dos outros delegados.
Outra história descreve como o jornalista e ativista finlandês J. E. Zidbäck impediu que Lenin e Stalin fossem presos pela polícia secreta czarista, com base em informações que recebera de Helsinque. Zidbäck alegava que centenas de policiais estatais e gendarmes já haviam chegado à cidade na véspera de Natal. Sua versão desses acontecimentos, no entanto, é inconsistente com outras informações; por exemplo, Emil Viljanen, que na época era presidente da Sociedade dos Trabalhadores de Tampere, não confirmou essa história.
Em uma entrevista de rádio em 1949, Matti Vuolukka afirmou que Lenin havia prometido a independência da Finlândia durante a conferência, caso os bolcheviques chegassem ao poder. No entanto, parece que a promessa de que Vuolukka se lembra foi feita no segundo congresso de Tampere, em novembro de 1906. Além disso, é provável que a promessa de Lenin dissesse respeito apenas à autonomia interna da Finlândia.
Ver também Conferência de Praga
Referências
Bibliografia
Categoria:Partido Comunista da União Soviética Categoria:Congressos de partidos políticos Categoria:História do socialismo