Na região Nordeste do Brasil, a Revolução de 1930 destituiu os governos estaduais leais ao presidente Washington Luís e instalou interventores leais a uma administração provisória de José Américo de Almeida, sob a liderança nacional de Getúlio Vargas. A partir de 4 de outubro, conspiradores militares e civis, apoiados pelo governo da Paraíba, tomaram o controle das guarnições locais do Exército e avançaram contra a Bahia, o último estado legalista. O governo de Minas Gerais abriu outra frente no sul da Bahia. Um golpe militar no Rio de Janeiro, no dia 24, interrompeu as hostilidades e deu vitória nacional à revolução.
Na eleição presidencial de 1930, a Paraíba foi o único estado nordestino a aderir à chapa oposicionista da Aliança Liberal. O governo federal respondeu sendo conivente à Revolta de Princesa e enviando reforços do Exército ao estado após o assassinato do governador paraibano João Pessoa, no Recife, em julho. A alternativa à disposição dos políticos aliancistas era sua parceria com os conspiradores militares tenentistas, coordenados por Juarez Távora, que aguardava na clandestinidade em solo paraibano desde abril. O plano era de levantes armados simultâneos no Nordeste, Minas Gerais e Sul para derrubar o governo federal. Por um erro de comunicação, o movimento no Nordeste começou horas mais tarde do que no resto do país, onde a data era 3 de outubro.
Os governadores legalistas viam-se com Forças Públicas ineficazes e populações hostis. A maioria abandonou o poder com pouca ou nenhuma resistência. No Recife ocorreram maiores combates, com ampla participação popular. Na Paraíba, depois de invadir o comando da 7.ª Região Militar, os revolucionários organizaram colunas de militares do Exército e Força Pública e voluntários civis. O governo federal nomeou o general Santa Cruz Pereira de Abreu para organizar a defesa legalista na Bahia, com o auxílio da Força Pública e dos coronéis do interior. Ao final da revolução, a coluna revolucionária do norte, de Landri Sales, preparava-se para operações no Pará, a coluna do interior, de Jurandir Mamede, estava em Juazeiro e a coluna do leste, de Agildo Barata e Juraci Magalhães, adentrava a Bahia. A Força Pública de Minas Gerais e coronéis aliados abriam outra frente a partir de Carinhanha.
O plano legalista de defender a linha do rio São Francisco foi frustrado pela adesão das guarnições de Alagoas e Sergipe. A batalha final se daria, então, no entroncamento ferroviário de Alagoinhas. A ofensiva já estava em curso quando chegaram as notícias do golpe no Rio de Janeiro e queda do governo federal. No imediato pós-revolução, Juarez Távora tornou-se o "Vice-Rei do Norte", que escolheu militares alinhados à revolução como interventores na maioria dos governos estaduais da região. O cangaço foi perseguido e os coronéis foram desarmados. Os políticos do "Norte" formaram um bloco político distinto e leal a Vargas até a Constituinte de 1934.
Cenário político A Primeira República Brasileira era uma federação de oligarquias regionais. O peso político de cada estado era proporcional à coesão de suas elites, ao tamanho da sua bancada no Congresso e à sua autossuficiência econômica. Os estados mais poderosos eram São Paulo, Minas Gerais e o Rio Grande do Sul, todos no Centro-Sul do país. Num segundo degrau estavam Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco. Nenhum dos demais tinha bancada ou economia forte. Dois dos estados de poder médio eram da atual região Nordeste: Bahia e Pernambuco. Este último tinha pretensão à liderança regional, embora já muito mitigada em 1930.
Neste período o Nordeste declinava em relação ao Centro-Sul por fatores diversos: isolamento geográfico, atraso tecnológico, elevado analfabetismo e falta de união entre seus estados em prol de interesses comuns. O crescimento demográfico do Centro-Sul reduzia a proporção da bancada nordestina no Congresso. Os senhores de engenho ainda eram poderosos nas suas terras, mas perdiam importância relativa e viam concorrência mais difícil no mercado do açúcar. As Forças Públicas, que os estados na Primeira República militarizavam para se precaver contra a intervenção federal, não eram expressivas no Nordeste. A violência era comum no processo político e no interior, onde atuavam bandidos e exércitos particulares de coronéis. Estes últimos projetavam seu poder privado em estados informais no sertão.
Eleição de 1930 miniaturadaimagem|Getúlio Vargas e João Pessoa (de terno mais escuro) em comício da Aliança Liberal|esquerda Para a eleição presidencial de 1930, o governo federal do paulista Washington Luís lançou a candidatura de um conterrâneo, Júlio Prestes. O Rio Grande do Sul e Minas Gerais coligaram-se na Aliança Liberal para lançar a candidatura oposicionista de Getúlio Vargas, presidente do Estado (governador) do Rio Grande do Sul. A Paraíba foi consultada se apoiaria a chapa situacionista de Júlio Prestes, e em 29 de julho de 1929, o Partido Republicano da Paraíba decidiu negar seu apoio. Este momento entrou para a história como o "Nego", embora o verbo não aparecesse em nenhum documento do dia. O governador paraibano João Pessoa aceitou o convite do mineiro José Bonifácio de Andrada e do gaúcho João Neves da Fontoura a integrar a chapa da Aliança Liberal na posição de vice-presidente. A mesma proposta fora anteriormente estendida ao governador pernambucano Estácio Coimbra, mas este não queria se arriscar na oposição e recebera promessas de benefícios econômicos dos paulistas.
O governador da Bahia, Vital Soares, aceitou compor a chapa de Júlio Prestes como vice-presidente. Dezessete estados alinharam-se à candidatura situacionista, contra apenas Minas, Rio Grande e Paraíba na Aliança Liberal. A caravana da Aliança Liberal pelo Nordeste, liderada por João Pessoa, chegou a Salvador em 24 de janeiro de 1930. A campanha prosseguiu a Recife e a Paraíba (antigo nome da capital paraibana), onde as multidões empunhavam bandeirinhas rubro-negras com a inscrição "Nego". A caravana retornou a Recife e dividiu-se em grupos para percorrer todos os estados do Nordeste e mais o Pará e Amazonas. O pleito foi realizado em 1.º de março. Como de praxe, a fraude eleitoral e o controle do eleitorado pelos coronéis garantiam a vitória da situação. O cômputo final dos votos, publicado ao final de abril, dava vitória a Júlio Prestes e Vital Soares.
Aliança político-militar A oposição tinha uma alternativa: desde meados de 1929, a Aliança Liberal mantinha contato com os militares tenentistas que nos anos anteriores lançaram revoltas armadas contra o governo. Sua causa comum era destituir Washington Luís e impedir a posse de Júlio Prestes. A aliança não era inevitável. Em meados da década passada, João Pessoa era ministro do Superior Tribunal Militar e votava pela condenação dos revoltosos tenentistas como o capitão Juarez Távora, que lideraria a revolução no Nordeste. Juarez era o subchefe do Estado-Maior da Coluna Prestes, campanha armada que atravessou todo o país. A Coluna não venceu, mas deu fama nacional a líderes como Juarez e Luís Carlos Prestes. Ao início do governo Washington Luís, em 1927, esses militares baixaram as armas e aguardaram no exílio.
Havia interesses compartilhados. O sistema político dominado por interesses paulistas obstruía a progressão política e de carreira dos conspiradores, tanto civis quanto militares, e negava atenção do Estado nacional a suas regiões. Juarez e José Américo de Almeida, líder civil paraibano, eram ambos descendentes de grandes proprietários de terra ativos na política local. Suas regiões eram marginais (Paraíba e Ceará), e nenhum era herdeiro: José Américo fez carreira na magistratura, e Juarez, no oficialato militar.
Em maio, Juarez escrevia ao tenente Joaquim Ribeiro Monteiro, na Bahia: "Julgo ocioso recapitular ao prezado camarada a verdadeira série de ultrajes com que o atual governo – legítimo fruto de uma mentalidade política apodrecida – tem escarnecido do nosso pseudo regime Constitucional – mostrando, brutalmente, a todos os homens de boa vontade, que não passa de platonismo inoperante, esperar das virtudes do voto, ou de outros recursos legais, o milagre que só uma revolução violenta poderá operar". Dentre os conspiradores militares, já havia divergências que se fariam mais salientes depois da revolução: alguns queriam uma ditadura para sanear os desmandos políticos. Havia o temor de que os políticos da Aliança Liberal desvirtuassem os princípios da revolução pretendida.
Bahia miniaturadaimagem|Material de campanha da chapa Júlio Prestes-Vital Soares A Bahia situava-se bem no regime: além da candidatura de Vital Soares a vice-presidente, outro político local, Otávio Mangabeira, era ministro da Justiça. Em Salvador, chegou-se em junho de 1930 a um acordo sucessório pacífico. O governador renunciou e passou o governo ao presidente do senado estadual, Frederico Costa. Mas a oligarquia baiana estava divida e setores aceitavam a ideia de uma mudança de regime. Eminentes figuras como J. J. Seabra e Muniz Sodré estavam na oposição. A crise de 1929, os aumentos de impostos e a ação da imprensa semeavam descontentamento entre parte dos coronéis do interior. Estes eram os sustentáculos políticos dos partidos, na medida em que mobilizavam grandes números de eleitores, e respondiam por grande parte da balança comercial com suas plantações de cacau, fumo e açúcar. Os dois coronéis de maior prestígio, dominando amplas regiões do interior, eram Horácio de Matos, das Lavras Diamantinas, e Franklin Lins de Albuquerque, de Pilão Arcado. Sua reputação guerreira foi confirmada na Revolta Sertaneja de 1919, um confronto com o governo estadual, e na passagem da Coluna Prestes pela Bahia em 1926. Neste último caso, os batalhões de Horácio e Franklin combateram em defesa do governo. Depois deste último conflito, abundantes estoques de armamento foram deixados com as forças locais.
Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, governador de Minas Gerais, organizou encontros estratégicos entre diretores do Partido Republicano Mineiro (PRM) e coronéis do vale do São Francisco baiano, especialmente João Duque, principal recrutador de adeptos. No final de 1929, a disputa entre João Duque e João Alkimin pela intendência (prefeitura) de Carinhanha, na divisa dos dois estados, opôs os dois governos estaduais e repercutiu na imprensa. Ambos coronéis tinham alianças na política mineira e interessavam à difícil sucessão na liderança do PRM. Duque recorreu á violência para confirmar um novo mandato, com o apoio de Franklin Lins e Chico Leobás, de Pilão Arcado. Outros coronéis enviaram seus exércitos estaduais para defender Alkimin. Os governadores mineiro e baiano trocaram correspondências severas. Quando a Procuradoria Federal da Bahia indiciou Duque e seus aliados pelo chamado "crime de Carinhanha", a Força Pública de Minas Gerais retirou-o de território baiano. A Força Pública da Bahia puniu os coronéis do Médio São Francisco, e estes endossaram a Aliança Liberal no ano seguinte.
Paraíba miniaturadaimagem|A ameaça da intervenção federal paraiva contra João Pessoa (revista Careta)|esquerda João Pessoa, governador da Paraíba, era sobrinho do ex-presidente Epitácio Pessoa, figura dominante do Partido Republicano da Paraíba. Tal como nos dois outros estados aliancistas (Minas Gerais e Rio Grande do Sul), na Paraíba o situacionismo absorvia uma geração mais jovem de lideranças, da qual o próprio João Pessoa era representante. Sua retórica e prática política eram até certo ponto críticas ao próprio sistema oligárquico da qual vinham. João Pessoa prometia combater os abusos do coronelismo, o banditismo, a irresponsabilidade fiscal e os processos criminais ilegais. Sua base de apoio estendeu-se aos setores médios urbanos e pequenos agricultores. Os coronéis do interior, por outro lado, ressentiam-se de sua política tributária, que onerava as rotas terrestres de comércio com Pernambuco.