Henrique Ghellere (Araranguá, 3 de outubro de 1914 — Curitiba, 24 de abril de 1977) foi um político, colonizador e empresário brasileiro. Reconhecido como um dos pioneiros da colonização do Oeste do Paraná e primeiro representante político eleito da localidade que viria a se tornar o município de São Miguel do Iguaçu, sua trajetória é marcada por um feito incomum na história política brasileira: exercer mandatos de vereador em três municípios distintos de dois estados diferentes — Criciúma (Santa Catarina), Foz do Iguaçu e São Miguel do Iguaçu (Paraná).
Biografia
Origem e formação familiar (1914–1935)
Henrique Ghellere nasceu em 3 de outubro de 1914, em Araranguá, litoral sul de Santa Catarina, filho de Angelo Ghellere e Carolina Mazzoni Ghellere, ambos imigrantes naturais da Itália. Era neto, pelo lado paterno, de Marc'Antonio Ghellere e Marianna Lampo, e pelo lado materno, de Angelo Mazzoni e Catharina Pierin.
A família Ghellere inseria-se no contexto da intensa imigração italiana que transformou o sul catarinense no final do século XIX e início do século XX. A região de Araranguá e especialmente Nova Veneza — fundada em 1891 por imigrantes vindos principalmente das regiões de Bérgamo, Belluno e Trento — recebeu milhares de famílias italianas que buscavam novas oportunidades nas colônias agrícolas estabelecidas pelo governo provincial. A forte presença da cultura italiana na região, com mais de 95% da população descendente de italianos, moldou profundamente a identidade cultural de Henrique e de sua geração.
Em 4 de maio de 1935, aos 20 anos de idade, Henrique casou-se com Hermínia Ronchi Ghellere (nascida em 15 de setembro de 1916), filha de José Ronchi e Josefina Ronchi, também naturais da Itália. A cerimônia realizou-se às 15 horas, na sala de audiências do Juízo Distrital de Nova Veneza, perante o juiz substituto Mário Billieri.Certidão de Casamento, 273, 4 de maio de 1935, Nova Veneza, Santa Catarina O casal viria a ter doze filhos.
Atividade empresarial em Santa Catarina (1935–1947)
Após o casamento, Henrique estabeleceu-se como comerciante e empresário no sul catarinense. Inicialmente, atuou como comerciante varejista em Maracajá (então distrito de Araranguá), onde mantinha um armazém que comercializava produtos alimentícios (arroz, feijão, milho, trigo, farinha, café, banha, carne, ovos, sal), querosene, fumo, tecidos e linhas, além de registrar prestação de serviços e transporte. Documentos contábeis de 1945 demonstram que o estabelecimento operava no sistema de crédito, com registros detalhados nas colunas "deve" e "haver". Esta experiência no comércio varejista foi fundamental para compreender as dinâmicas econômicas locais e estabelecer contatos na região.
Segundo registros de história oral familiar, Henrique Ghellere e seus irmãos também mantiveram um frigorífico em Criciúma, que fabricava derivados de carne e abastecia as empresas de carvão mineral da região.
Posteriormente, em 29 de janeiro de 1942, fundou, juntamente com seus irmãos João Ghellere e Ângelo Ghellere Filho, a firma Henrique Ghellere & Irmãos, com sede em Sangão, então distrito do município de Criciúma. A empresa atuava no ramo de serraria, aproveitando a riqueza madeireira da região e o crescimento econômico impulsionado pela exploração do carvão mineral e pela expansão agrícola no sul do estado.
O período de atuação empresarial em Criciúma coincidiu com fase de intenso desenvolvimento econômico do município, que se consolidava como um dos principais polos industriais de Santa Catarina, impulsionado pela mineração de carvão e pela indústria madeireira. A experiência adquirida nos setores de comércio varejista e madeireiro seria fundamental para sua futura atuação como colonizador no Paraná.
Primeira experiência política: Vereador em Criciúma (1947–1954)
Com o fim do Estado Novo e a redemocratização do país em 1945, Henrique Ghellere ingressou na vida pública, sendo eleito vereador pelo município de Criciúma para duas legislaturas consecutivas, representando o distrito de Nova Veneza.
3ª Legislatura (1947–1950)
Tomou posse em 4 de dezembro de 1947, na sala de audiências do Juízo de Direito da Comarca de Criciúma, integrando a bancada de nove vereadores eleitos na primeira legislatura democrática do município após o período ditatorial. Esta legislatura marcou a retomada da democracia local, com a reconstrução das instituições municipais após os anos do Estado Novo.
Durante este mandato, exercia paralelamente a atividade de comerciante, representando os interesses do distrito de Nova Veneza, que na época ainda não era município autônomo.
Em junho de 1950, Henrique Ghellere integrou a delegação oficial de Criciúma que se deslocou a Florianópolis para participar da Convenção Estadual do Partido Social Democrático (PSD). A delegação era composta por figuras proeminentes da política e da sociedade catarinense, incluindo o prefeito municipal Elias Angeloni, o notário público Marcilio Santiago, Addo Caldas Faraco, Sinval Bohren, Emilio Hülse, Luiz Lazarim, Carlos Seára e Manoel Gonçalves Farias. O PSD foi o partido pelo qual viria a ser eleito vereador em Foz do Iguaçu cinco anos depois.
4ª Legislatura (1951–1954)
Foi reeleito vereador, integrando a bancada ampliada de onze vereadores. Nesta legislatura, destacou-se como membro titular da Comissão de Legislação e Justiça, presidida pelo vereador João Zanette e composta ainda por Osvaldo Hülse e Antônio Colonetti.
Em 14 de maio de 1951, a comissão recebeu o ofício n. 186 contendo quatro projetos de lei, sendo Henrique designado como relator de dois deles: o projeto fixando os bairros comerciais da cidade e o projeto fixando os bairros residenciais da cidade. Estes projetos eram fundamentais para a organização urbana de Criciúma, que crescia rapidamente impulsionada pela industrialização e pelo êxodo rural.
Tudo indica que Henrique Ghellere não tenha concluído integralmente este mandato legislativo. Ainda em 1951, no mesmo ano de sua reeleição, ele adquiriu uma extensa área de terras no então município de Foz do Iguaçu, iniciando sua migração para o Oeste do Paraná e dedicando-se progressivamente às atividades de colonização na região. Essa transição geográfica e profissional provavelmente o levou a se afastar das funções legislativas em Criciúma antes do término oficial da legislatura em 1954, marcando o início de uma nova fase em sua trajetória — a de colonizador e empreendedor no Paraná.
Em reconhecimento póstumo à sua atuação legislativa, a Câmara Municipal de Criciúma concedeu à família Ghellere o Diploma de Mérito Septuagenário em 1995, por ocasião das comemorações dos 70 anos de emancipação do município.
Colonização do Oeste do Paraná (1951–1955)
Aquisição de terras e ingresso na Colonizadora Gaúcha
Em 1951, ainda residindo em Criciúma, Henrique Ghellere deu início à sua transição para o Paraná, adquirindo da própria Colonizadora Gaúcha Ltda uma área de 350 alqueires — composta por 35 lotes de 10 alqueires cada, localizados no 2º Polígono da Sede Gaúcha, município de Foz do Iguaçu — assumindo o compromisso contratual de colonizar a área dentro do prazo de um ano.
A Colonizadora Gaúcha Ltda havia sido fundada em 21 de fevereiro de 1949 por Arlindo Mosé Cavalca, Alberto Dalcanale, Luiz Dalcanale, Benvenuto Verona e Alfredo Paschoal Ruaro, com o objetivo de promover a colonização de vastas áreas no extremo oeste paranaense. A empresa surgiu no contexto do grande movimento colonizador que, a partir da década de 1940, expandiu a fronteira agrícola paranaense em direção às regiões ainda inexploradas do oeste do estado.
Em 1953, Henrique Ghellere assumiu a direção da Colonizadora Gaúcha, ao lado de Afonso Marin, substituindo a gestão anterior composta por Benvenuto Verona, Luiz Dalcanale Filho e Frederico Zilio. Sob sua liderança, a colonizadora comprou uma área de terras de 9.073 alqueires, ampliando significativamente sua atuação na região.
Desbravamento e ocupação da Vila Gaúcha
Como diretor da Colonizadora Gaúcha, Henrique atuou ativamente no processo de migração de famílias catarinenses e gaúchas para a região. Segundo relatos de antigos moradores registrados em pesquisa acadêmica, foi ele quem trouxe diversas famílias de Santa Catarina para ocupar e desenvolver o território, priorizando o assentamento de famílias, especialmente descendentes de italianos, devido à afinidade cultural dos sócios da empresa.
Paralelamente às atividades de colonização, Henrique Ghellere manteve uma distribuidora de bebidas da empresa Polar na região e um hotel na localidade de Gaúcha.
A migração para o Oeste do Paraná nas décadas de 1950 e 1960 representou um dos maiores movimentos colonizadores da história do Brasil, com a população da mesorregião saltando para quase um milhão de pessoas neste período. Colonos vindos principalmente do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina buscavam terras férteis para a agricultura, especialmente para o cultivo de café, milho e outros produtos.
Em 6 de janeiro de 1954, realizou-se a cerimônia oficial de instalação do 4º Distrito da Gaúcha, criado pela Portaria nº 359 da Prefeitura Municipal de Foz do Iguaçu, de 20 de dezembro de 1953. Na ocasião, Ghellere esteve presente ao lado de autoridades como o tenente-coronel Ituriel Nascimento, o então prefeito de Foz do Iguaçu Francisco Guaraná de Menezes, dr. Paulo Dutra Brandão, Afonso Marin e Genuíno Cambruzzi.
Sob sua liderança, a colonizadora atraiu famílias de colonizadores gaúchos e catarinenses para a região, acelerando o processo de ocupação que levaria à emancipação do município. A colonização foi predominantemente teuto-gaúcha, com forte presença de descendentes de italianos, alemães e poloneses vindos do Sul do Brasil.
Vereador em Foz do Iguaçu (1955–1959)
Eleição histórica de 1955
Em 3 de outubro de 1955, Henrique Ghellere foi eleito vereador pela Câmara Municipal de Foz do Iguaçu pelo Partido Social Democrático (PSD), tornando-se o primeiro representante político eleito da Vila Gaúcha — atual São Miguel do Iguaçu —, à qual a vila pertencia como distrito.
As eleições de 3 de outubro de 1955 ocorreram em clima de intensa disputa política nacional, coincidindo com as eleições presidenciais que elegeram Juscelino Kubitschek. Ghellere obteve 149 votos, sendo o candidato mais votado do PSD e o segundo mais votado de toda a eleição municipal, atrás apenas de Francisco Guaraná de Menezes, do Partido Republicano, com 188 votos. O PSD conquistou 3 das 9 cadeiras da câmara nessa eleição.
Sua eleição representou marco histórico para a Vila Gaúcha, que pela primeira vez contava com representação política própria junto à Câmara Municipal de Foz do Iguaçu. Este fato evidenciava o crescimento populacional e econômico do distrito, que já contava com centenas de famílias estabelecidas e dedicadas à agricultura.
Atuação na 3ª Legislatura (1956–1959)
Integrou a 3ª Legislatura da Câmara Municipal de Foz do Iguaçu (1956–1959), ao lado dos vereadores Almyr Antônio Machado Nunes, Aroldo Estevos de Souza, Artur Militon Farinon, Francisco Guaraná de Menezes e Jacob A. Beck.
Nesse mesmo ano de 1955, o primeiro cartório da Vila Gaúcha foi instalado, tendo como cartorário seu filho, Aidicir Ghellere, então com apenas 20 anos de idade. A instalação do cartório representou importante passo na estruturação administrativa do distrito, permitindo o registro civil e de imóveis localmente, sem necessidade de deslocamento até Foz do Iguaçu.
Em 1958, representou o município em missão oficial a Curitiba, acompanhando o Prefeito Jacob Beckerm e o Presidente da Câmara José Della Pásqua para tratar de assuntos administrativos com o Governador do Estado. A pauta incluía melhorias no turismo, ampliação do aeroporto local, construção da estrada ao Hotel das Cataratas e edificação de escolas na região.
Em 1959, no 4º ano da legislatura, exerceu o cargo de 2º Secretário da Mesa Diretora, sob a presidência de Jacob A. Beck e Almyr Antônio Machado Nunes.