Identificação com o agressor (em inglês: identification with the aggressor, IWA) é um conceito psicanalítico que descreve o processo pelo qual uma vítima de abuso internaliza as crenças, perspectivas e comportamentos do seu agressor. O conceito foi originalmente proposto por Sándor Ferenczi em 1933 e posteriormente desenvolvido por Anna Freud.
Origem do conceito O conceito de identificação com o agressor foi introduzido por Sándor Ferenczi no seu trabalho sobre a "confusão de línguas entre adultos e a criança", publicado em 1933. Ferenczi descreveu como crianças vítimas de abuso podem introjetar a figura ameaçadora do agressor como forma de lidar com o trauma. Posteriormente, Anna Freud expandiu o conceito no contexto dos mecanismos de defesa, descrevendo-o como uma estratégia pela qual o indivíduo adota as características do objeto ameaçador.
Mecanismo psicológico Na identificação com o agressor, a vítima substitui a sua própria agência pela do perpetrador. Esse processo envolve a internalização das atitudes, valores e comportamentos do abusador, o que pode levar a vítima a reproduzir padrões abusivos em outros contextos relacionais.
Pesquisas identificaram dois componentes principais da IWA:
Substituição da agência: a vítima adota a perspectiva do agressor e age conforme as expectativas deste, perdendo o seu senso de autonomia. Internalização das crenças do agressor: a vítima passa a compartilhar as crenças e avaliações do perpetrador sobre si mesma, frequentemente assumindo a culpa pelo abuso.
Relação com o trauma complexo Estudos empíricos demonstraram associações positivas entre a IWA e sintomas de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e de perturbações na auto-organização (DSO), que caracterizam o TEPT complexo (TEPT-C). Em particular, o componente de substituição da agência mostrou-se preditor de variância nos sintomas de TEPT e DSO, mesmo após controlar a polivitimização e os sintomas prévios.
A IWA é especialmente prevalente em sobreviventes de abuso infantil, onde o trauma prolongado e repetido favorece a formação de vínculos patológicos com o agressor.
Dúvida sobre avaliações relacionadas ao abuso Associado à IWA, o conceito de dúvida sobre avaliações relacionadas ao abuso (em inglês: doubt regarding abuse-related appraisals, DARA) refere-se à incerteza da vítima na interpretação dos aspetos do abuso sofrido. Essa dúvida pode manifestar-se como questionamento sobre se o abuso realmente ocorreu, sobre a sua gravidade ou sobre a responsabilidade do agressor.
Pesquisas demonstraram que a DARA é um preditor significativo de sintomas de DSO, sugerindo que a incerteza sobre o abuso contribui para as perturbações na auto-organização que caracterizam o TEPT-C.
Consequências A identificação com o agressor pode levar a diversas consequências adversas:
Maior vulnerabilidade à revitimização Dificuldades na regulação emocional Suicidalidade Comportamentos autolesivos Dificuldades em estabelecer e manter relacionamentos saudáveis Reprodução de padrões abusivos em relações com os próprios filhos Maior probabilidade de retorno a relacionamentos abusivos
Implicações clínicas O reconhecimento da IWA tem implicações importantes para o tratamento de sobreviventes de abuso. Abordagens terapêuticas como o STAIR (Skills Training in Affective and Interpersonal Regulation) e a terapia focada no trauma têm demonstrado eficácia no tratamento de sintomas associados à IWA e ao TEPT-C.
Ver também Perturbação de estresse pós-traumático complexo Síndrome de Estocolmo Abuso infantil Mecanismo de defesa Vínculo traumático Violência doméstica Abuso psicológico
Referências
Categoria:Psicanálise Categoria:Abuso Categoria:Psicologia clínica Categoria:Transtornos do estresse Categoria:Violência doméstica