Gugusse et l'Automate (, também conhecido como The Clown and the Automaton) é um curta-metragem mudo francês de 1897, dirigido e interpretado por Georges Méliès e lançado pela Star Film. Registrado sob o número 111 do catálogo Star Film, o filme mostra um mágico chamado Gugusse — interpretado pelo próprio Méliès — que exibe um autômato com aparência de palhaço, o qual, uma vez acionado, escapa ao controle de seu criador.
O filme é reconhecido como a primeira aparição cinematográfica conhecida de um robô — termo que só substituiria "autômato" décadas depois — e figura entre os primeiros exemplos de obras centradas em temas de experimentação científica, criação e metamorfose. No livro Things to Come: An Illustrated History of the Science Fiction Film, Douglas Menville e R. Reginald consideraram Gugusse et l'Automate o filme de temática científica mais significativo de 1897, sugerindo que pode ser o primeiro verdadeiro filme de ficção científica. Considerado por muito tempo perdido, o filme foi redescoberto e restaurado pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, sendo disponibilizado ao público em fevereiro de 2026.
Enredo
Gugusse, um mágico interpretado por Méliès, exibe em sua oficina um autômato em miniatura com aparência do palhaço Pierrot, posicionado sobre um pedestal. Ao girar uma manivela, Gugusse faz o autômato marchar e agitar seu bastão. À medida que a manivela é girada, o autômato cresce progressivamente até atingir o tamanho de um adulto. Nesse ponto, a criatura passa a controlar seus próprios movimentos e golpeia Gugusse na cabeça com o bastão. Em resposta, Gugusse arranca o autômato do pedestal e, empunhando um martelo desproporcional, golpeia-o repetidamente até que ele encolha de volta ao tamanho original e desapareça por completo.
O filme é constituído por um único plano filmado diante de um cenário pintado representando uma oficina repleta de relógios e autômatos. A ilusão de crescimento e encolhimento do autômato é obtida por meio de trucagem com cortes de câmera, técnica que Méliès contribuiu para desenvolver.
Produção
Georges Méliès possuía uma coleção significativa de autômatos, adquirida em 1888 quando comprou o Théâtre Robert-Houdin, em Paris — fundado pelo ilusionista Jean Eugène Robert-Houdin —, que utilizou como base de seus espetáculos de magia antes de se dedicar ao cinema. Esses mecanismos de engrenagens e alavancas, capazes de escrever, desenhar e executar movimentos complexos, serviram inicialmente como adereços teatrais e depois inspiraram cenas de sua filmografia. A presença de uma estrela negra pintada sobre o pedestal do autômato — marca registrada da Star Film — foi, mais de um século depois, o elemento que permitiu aos arquivistas da Biblioteca do Congresso confirmar a identidade do filme.
Contexto no catálogo
Registrado sob o número 111 do catálogo da Star Film, Gugusse et l'Automate é precedido por Combat naval en Grèce (#110) e seguido por Entre Calais et Douvres (#112).
Preservação
O filme foi considerado perdido por mais de um século, até ser redescoberto e restaurado pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos em 2026.
Descoberta e restauração
William Delisle Frisbee foi um fazendeiro e professor da Pensilvânia que, no fim do século XIX, percorria comunidades rurais exibindo os primeiros filmes com um projetor portátil. Ao falecer, deixou sua coleção de películas aos descendentes, que a mantiveram por gerações — em sótãos, celeiros e garagens — sem plena consciência de seu valor histórico.
Bill McFarland, bisneto de Frisbee, guardou o baú de películas por pelo menos duas décadas. Em setembro de 2025, após tentativas frustradas de encontrar quem aceitasse manusear o inflamável nitrato de celuloide, levou o acervo até o National Audio-Visual Conservation Center da Biblioteca do Congresso, em Culpeper, Virgínia. Ao inspecionar os dez rolos, a equipe da instituição identificou o curta de Méliès emendado no meio de uma das películas; a identificação foi confirmada em menos de uma hora por um especialista consultado em Paris, graças à estrela negra visível no cenário. A cópia recuperada é ao menos uma terceira geração a partir do negativo original — provavelmente uma duplicata pirata, o que teria contribuído para sua sobrevivência, numa época em que o próprio Méliès destruiu centenas de seus negativos.
O anúncio público da restauração ocorreu em 26 de fevereiro de 2026, e o filme foi disponibilizado gratuitamente no site da Biblioteca do Congresso.
Legado
Primeiro robô no cinema
Gugusse et l'Automate é reconhecido como a primeira aparição conhecida de um robô — então chamado de autômato — em um filme. O termo "robô" só entraria no vocabulário popular após ser escrita em 1920 e estreada em 1921 a peça R.U.R. (Rossum's Universal Robots), do dramaturgo tcheco Karel Čapek, que popularizou a palavra derivada do tcheco robota (trabalho forçado). O próximo exemplo documentado de robô no cinema é geralmente apontado como The Master Mystery (1919), estrelado por Harry Houdini.
Ligação com Hugo
Méliès possuiu autômatos reais que, vendidos a um museu após sua falência, acabaram destruídos pela umidade e foram esquecidos por décadas. O romance infantil A Invenção de Hugo Cabret, de Brian Selznick (2007), incorpora um autômato de Méliès à sua trama; a adaptação cinematográfica de 2011, Hugo, dirigida por Martin Scorsese, também coloca a restauração de um homem mecânico no centro da narrativa.
Vídeo
thumb|center|500px|thumbtime=5|Gugusse et l'Automate (1897), de Georges Méliès — cópia restaurada pela Biblioteca do Congresso (2026)
Ver também
Georges Méliès Star Film Company Théâtre Robert-Houdin Karel Čapek A Invenção de Hugo Cabret
Ligações externas
Gugusse et l'Automate na Biblioteca do Congresso
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