Adelle Sobral de Oliveira (Ceará-Mirim, 22 de maio de 1884 — Ceará-Mirim, 15 de agosto de 1969) foi uma jornalista, educadora e poetisa brasileira, considerada a maior poetisa ceará-mirinense.

Biografia miniaturadaimagem|Da esquerda para direita: Maria Anita Sobral de Oliveira, Ana Sobral de Oliveira, Maria Tereza Sobral de Oliveira, João Henrique de Oliveira e Adelle Sobral de Oliveira. O registro, de 1889, possivelmente marcou a despedida da família de Ceará-Mirim, quando mudaram-se para Belém do Pará. Nascida em Villar, um lugarejo em Ceará-Mirim, era filha de João Henrique de Oliveira e Ana Sobral de Oliveira, tendo duas irmãs mais velhas: Maria Anita Sobral de Oliveira e Maria Tereza Sobral de Oliveira.GOMES, Edna Maria Rangel de Sá. Adelle de Oliveira: trajetória de vida e prática pedagógica (1900-1940). Tese (Doutorado em Educação). Programa de Pós-Graduação em Educação. Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Natal, 2009.

Entre 1889 e 1899, quando Oliveira tinha entre cinco e quinze anos, a família residiu em Belém do Pará, então importante centro econômico e cultural. Após esse período, retornaram à cidade natal na esperança de cura e de uma vida mais tranquila para o pai, acometido de uma "doença tropical". Ele, porém, faleceu durante a viagem e foi sepultado no oceano. De volta à Ceará-Mirim, a família foi acolhida no engenho O Cumbe, na rua São José, pelos padrinhos de Adelle, Ângelo Varela e Maria Augusta.

Adelle nunca se casou, mas manteve um compromisso verbal por alguns anos com o estudante Manuel Varela Santiago Sobrinho. O relacionamento teve início em 1901 por intermédio do padrinho de Adelle, Ângelo, e foi mantido por correspondências enquanto Manuel cursava medicina na Bahia e, eventualmente, transferiu-se para a Faculdade Nacional de Medicina no Rio de Janeiro. Romperam o compromisso por volta de 1908. O término é associado a um período de recolhimento da poeta, que passou a dedicar-se exclusivamente ao ensino e à oração, coincidindo com o retorno de Manuel e o seu envolvimento com Lourdes, filha do então deputado federal e ex-vice governador Juvenal Lamartine.

Há relatos que Adelle publicou um poema dirigido a Juvenal Antunes, por quem nutria uma paixão platônica, sendo posteriormente comentado por familiares de Varela Santiago como alusivo ao relacionamento rompido.SARAIVA, Gumercindo. Adelle de Oliveira: feminista quase inédita. Tribuna do Norte, Natal, p. 03, 13 de março de 1983.

Suas irmãs se casaram e retornaram à Belém do Pará, já a poeta permaneceu sempre na companhia da mãe. Ajudou também na criação dos seus sobrinhos, filhos da sua irmã Maria Anita, que foi abandonada pelo marido e retornou, com os cinco filhos: Zuleide, Juracy, Gisélia, José Foleto e Caubi.

Educação Em 1889, ano da Proclamação da República, com a mudança da família a Belém do Pará — então importante centro econômico e cultural da região Norte, em razão do ciclo da borracha —, Adelle realizou seus primeiros estudos em um ambiente cosmopolita, frequentado por imigrantes e jovens estudantes de universidades europeias.

No Pará, junto às irmãs, estudou as primeiras letras com professores particulares. Já mais velha, demonstrava grande apreço pela leitura, buscando livros variados e recebidos de amigos de Recife, Belém do Pará, Natal e de sua cidade natal.

Na vida adulta tornou-se educadora autodidata, sendo lembrada pelo papel formador que exerceu sobre, ao menos, três gerações e pela contribuição à consolidação da sociedade letrada do Rio Grande do Norte, especialmente em Ceará-Mirim, entre 1900 e 1938. Apesar dos estímulos à formação docente, da criação de grupos escolares em 1908, com a Reforma de Pinto de Abreu, e das transformações do ensino primário nas primeiras décadas do século XX, Adelle de Oliveira não buscou especialização nem frequentou a Escola Normal, diferentemente da maioria das professoras do seu tempo.

Morte Adelle faleceu em 1969, em sua cidade natal, após um exílio voluntário em sua própria casa. Para Ciro José Tavares, esse isolamento teria contribuído para a sua morte, pois, embora aos seus 85 anos, permanecia lúcida.TAVARES, Ciro José. Org. Álbum de versos antigos. Patrocínio do Armazém Pará, utilizando os benefícios da Lei Câmara Cascudo, nº 7.799/99, Natal/RN, 2002. Tal hipótese também se relaciona à forma reclusa e solitária com que vivenciou a aposentadoria, após uma vida dedicada ao magistério.

Vida pública Em 1935, inconformada com as atitudes políticas e arbitrárias de Mário Câmara, então governador do Rio Grande do Norte, Adelle recebeu ordem de prisão executada por dois policiais vindos de João Pessoa, permanecendo vinte e quatro horas encarcerada na Cadeia Pública de Ceará-Mirim. Sua liberdade foi antecipada por interferência do prefeito, Luís Lopes Varela. Ao relembrar o episódio, sempre o fazia com tristeza e vergonha, sendo a prisão apontada como um dos fatores que contribuíram para a sua constante reclusão. Adelle manifestava chateação e constrangimento com o ocorrido, que a marcou profundamente.

Era reconhecida nos meios literários, também, por uma polêmica inteligente e respeitosa travada por meio de jornais com um jovem poeta paraibano, tendo como tema o comportamento de homens e mulheres diante do amor. Adelle assinou suas réplicas com o pseudônimo de Adelaide Cristina de Oliveira, causando grande repercussão quando sua autoria foi revelada.

Não publicava seus poemas ou concedia entrevistas. Há relatos que se recusava a falar sobre as correspondências mantidas com Manuel Varela Santiago — ele que, afamado, fundou o Hospital Infantil Varela Santiago em Natal — e outros intelectuais durante a juventude. Esses intelectuais paraenses vinham de um lugar onde Adelle era reconhecida, permanecendo, assim, à margem da cultura potiguar.

Recusava-se a ser fotografada, por essa razão, o seu único registro fotográfico conhecido é da sua infância. Tampouco guardou material didático utilizado no Externato Ângelo Varela, ordenando que fosse queimado após a sua morte — prática comum à época, sobretudo entre mulheres, como forma de preservar a intimidade.

Outros relatos indicam que adorava plantas, especialmente rosas, com as quais conversava diariamente enquanto cuidava dos canteiros. Era vista como uma moça frugal, silenciosa e serena, de voz melodiosa, doce e calma, além de um caminhar discreto.

Carreira

Magistério esquerda|miniaturadaimagem|300x300px|Engenho Mucuripe, antigo Engenho O Cumbe, ambiente onde Adelle e sua família se instalaram após o retorno à Ceará-Mirim, e também onde instalou o Externato Ângelo Varela. Atuou como educadora nos anos primários e administradora do Externato Ângelo Varela, em Ceará-Mirim, no Rio Grande do Norte, num contexto de consolidação do ensino público considerado como “moderno”. Após lecionar aulas particulares em sua casa, fundou e dirigiu o externato, instituição que funcionou entre 1900 e 1938, mesmo sem legalização formal. A iniciativa foi financiada, num primeiro momento, por seu padrinho, Ângelo Varela, que deu nome à escola como homenagem.

Relatos revelam sua figura intelectualmente avançada, porém tradicional e severa. Vestia-se de forma elegante e discreta, dirigia um Jeep e acumulava funções de professora, diretora, inspetora, porteira e zeladora. O externato funcionava na engenho O Cumbe, residência da família, atendendo a meninos e meninas em salas de aula mistas, prática incomum à época. O ambiente apresentava outras peculiaridades ao seu tempo, como banheiros masculinos e femininos e funcionava, também, como um internato para os alunos advindos da zona rural e povoados mais distantes. Era também conhecido como "Escola da Dona Adelle".

miniaturadaimagem|Livros de Leitura (1º e 2º) de Felisberto de Carvalho, no qual utiliza o método da silabação, num momento em que havia uma adesão oficial aos métodos analíticos, por atenderem melhor às mudanças exigidas pela República à instrução pública que deveria atender à uma parcela maior da população.

Por lá, além de Adelle, trabalharam sua mãe, Ana Sobral de Oliveira, Virgínia Sobral de Oliveira, filha de uma escravizada adotada por Ana; Nestorina, amiga e confidente; e Juracy Barroca, sua sobrinha. Há relatos que Adelle lecionava aulas de português, sugerindo que demais matérias ficavam a cargo das outras mulheres. esquerda|miniaturadaimagem|Livros de Leitura (3º e 4º) de Felisberto de Carvalho, utilizados por Adelle de Carvalho no Externato Ângelo Varela a partir de 1915,em consonância com as mudanças no ensino público e as cartas do ABC, já utilizadas por ela à época. O fechamento do Externato Ângelo Varela ocorreu por volta de 1940, em razão da ampliação do transporte ferroviário e rodoviário, que levou famílias a enviarem seus filhos para estudarem em Natal ou Recife. O casarão, eventualmente, foi demolido.

Posteriormente, Adelle lecionou no Grupo Escolar Felipe Camarão, já demolido, e no Colégio Santa Águeda, ainda em funcionamento.

Foi professora do jornalista e professor brasileiro Nilo Pereira, do ex-vereador Francklin Marinho e do escritor João Wilson Mendes Melo.

Imprensa Adelle publicou em periódicos do seu estado, como Diário do Natal, O Tempo, Correio da Semana e A Razão. Grande parte desses jornais desapareceu, dificultando o acesso a poemas inéditos e dispersos. Neles, o pseudônimo mais utilizado por Adelle foi "Hélade".

A Esperança Ceará-Mirim foi palco de um dos primeiros jornais femininos do Rio Grande do Norte, A Esperança, do qual Adelle de Oliveira participou como editora. Ao lado de Etelvina Nunes e Maria Carolina de Araújo Maciel, a liderança do jornal vinha de Maria Dolores Bezerra Cavalcanti e Izaura Carrilho, com o objetivo divulgar as produções literárias femininas.

De caráter noticioso, o periódico era mensal e manuscrito de forma artesanal, o que afetava a sua periodicidade. Com linguagem amena, abordava sentimentos, reflexões e temas polêmicos à época, como a condição da mulher, a educação e o trabalho. Também apresentava registros da vida social local, como matrimônios, batizados, viagens e acontecimentos de interesse comunitário.

A Esperança é considerado um marco do jornalismo feminino potiguar, abrindo caminho para a inserção de mulheres na imprensa, mesmo em condições amadoras. Foram publicados, ao todo, 54 números.MELO, Roscele Ribeiro de; RÊGO, Geórgia Hackradt; ROSADO, Vinícius D'Luca Fernandes; CARVALHO, Isabel Cristine Machado de. Mulher e imprensa: o jornal A Esperança (1903-1909). Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XVII Prêmio Expocom 2010 – Exposição da Pesquisa Experimental em Comunicação.

O Sonho miniaturadaimagem|Periódico feminino manuscrito O Sonho (1905-1910), fundado por Adelle de Oliveira. Adelle de Oliveira, ao lado de outras mulheres locais, criou o jornal O Sonho, publicado pela primeira vez em 7 de setembro de 1905, perdurando até novembro de 1910. Com notícias locais, poemas e crônicas, era manuscrito em duas colunas de papel pautado. Assim como A Esperança, o título expressava o desejo feminino de manifestar ideias em uma sociedade patriarcal. Produzido artesanalmente, refletia as limitações das cidades interioranas em contraste com um testemunho criativo do anseio feminino por visibilidade.

Destacam-se como colaboradoras: Etelvina Antunes, Isaura Carrilho, Dolores Cavalcanti e Adelaide de Melo. Adelle participava da gestão e da redação de parte do conteúdo. Outras colaboradoras vinham de outras regiões, como Rita Campelo, de Recife, e Alayde Ottone, Jandyra, Jacyra e Irecê, do Pará.

Os textos de Adelle de Oliveira transitavam entre o literário, opinativo, informativo e crítico, abordando temas como família, amizade, desilusões amorosas, direitos da mulher e o cotidiano local. Adelle utilizou diversos pseudônimos, entre eles: Elleda, Delia, Gaud, Delia Maltez, O. M., Grimaneze d ́Oliveira, A. O. e D. M.