Os Celeiros da Mitra, igualmente conhecidos como Antigo Quartel de Cavalaria e actual edifício sede do Museu de Imagem em Movimento (m|i|mo), constituem um complexo de origem medieval situado na cidade de Leiria, em Portugal.
História Campanhas arqueológicas realizadas entre 2004 e 2008 permitiram aos historiadores concluir que o sítio onde se implanta o conjunto edificado albergou unidades agrícolas romanas, sucedidas por edificações medievais coevas da fundação da cidade e por um vasto cemitério datado do século XII, contemporâneo da fundação da Igreja de São Pedro. Presume-se que um destes edifícios primitivos, possivelmente ligado ao templo religioso, servisse de residência ao vigário e de sede da fábrica paroquial, entidade responsável pela administração dos bens e manutenção da igreja.
A estrutura edificada evoluiu para funções de maior relevo na administração régia e eclesiástica. O edifício localizado a Poente foi identificado historicamente como Cavalariça da Rainha D. Isabel e, posteriormente, como "celeiro d'el-Rei". Por sua vez, a criação da Diocese de Leiria em 1545 levou a que os bens detidos pelo Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra no Priorado de Santa Isabel da Pena transitaram para a posse da Mitra e do Cabido da Sé. Neste contexto, o bispo D. Dinis de Melo ordenou a edificação de um celeiro episcopal, designado por Celeiro da Mitra, no corpo Nascente. Esta construção, erguida sobre o que se crê ter sido a antiga adega e celeiro do mosteiro coimbricense, datará dos séculos XVI ou XVII.
No século XIX, o complexo assumiu funções militares. Durante as invasões francesas, em 1804, os espaços foram ocupados por tropas, e em 1832 instalar-se-ia o batalhão de cavalaria. A documentação refere que, em Março de 1896, se solicitou autorização para alojar uma coluna volante da Guarda Fiscal, destinada à fiscalização de impostos nos concelhos limítrofes, tendo a entrega formal de uma cavalariça ocorrido em Novembro desse ano. Contudo, em 1902, a Guarda Fiscal dispensou as instalações, que passaram a ser geridas pela 10.ª Brigada de Infantaria.
A Implantação da República em 1911 marcou a transferência dos Paços Episcopais e das casernas anexas para a Câmara Municipal, visando a instalação do Grupo de Metralhadoras, do Regimento de Infantaria de reserva n.º 7 e da Guarda Nacional Republicana. Em 1921, o Regimento de Artilharia Ligeira n.º 4 (RAL 4) estabeleceu-se no imóvel, utilizando-o para serviços de apoio até meados do século XX. O processo de desmilitarização iniciou-se em 1958 com a demolição de edifícios no lado Norte, embora o corpo das antigas cavalariças tenha servido de alojamento a famílias retornadas das ex-colónias em 1976.
O imóvel foi devolvido ao Ministério das Finanças em 1982. Devido ao avançado estado de degradação e à falta de infra-estruturas, reportados em 1985 pelos serviços técnicos municipais, o espaço permaneceu sem uso até à aprovação do projecto de recuperação em 1987. A adaptação definitiva a museu, sob o traço dos arquitectos José Charters Monteiro, Rosário Beja Neves, Filipe Guedes Cruz e Marco Charters Monteiro, concretizou-se entre 2007 e 2009.
Descrição
Enquadramento O conjunto edificado implanta-se num terreno de declive acentuado a Poente, no interior da antiga cidadela, nas imediações da Sé de Leiria, do Edifício do Governo Civil e do antigo Paço Episcopal. A Norte, as fachadas posteriores confinam com a antiga muralha da cidade, enquanto a Sul se desenvolve um pátio, outrora cemitério, para o qual se volta a fachada principal. O complexo é constituído por três corpos de planta rectangular irregular, articulados entre si mas sem coincidência de cotas entre o exterior e o interior, variando entre dois e três pisos.
Exterior O corpo a Poente preserva a sua matriz medieval (séculos XIII/XIV), correspondente às antigas cavalariças. No piso térreo, o espaço é dividido em três naves e sete tramos de arcadas, sustentados por colunas de fuste circular com capitéis cúbicos providos de anel, alguns dos quais exibem vestígios de policromia. O piso superior possui uma galeria interna e cobertura de uma água.
O corpo a Nascente, adossado à Capela de São Pedro através de um passadiço transparente, corresponde aos antigos celeiros da Idade Moderna. A sua estrutura interna no primeiro piso é definida por pilares toscanos de ângulos chanfrados (séculos XVI/XVII) e divisórias em vidro para gabinetes. Destaca-se, na zona do antigo átrio, um silhar de azulejos policromos com padrões de entrelaçados fitomórficos, delimitado por friso, bem como um rodapé em pedra e um registo em cantaria com sigla de canteiro. A cobertura deste corpo é feita por telhados de quatro águas, formando óculos triangulares nos vértices. No edifício encontra-se ainda uma inscrição funerária ("SEPULTURA DE DOM JORGE") em calcário, gravada numa tampa de sepultura reaproveitada como parapeito de janela.
O corpo central resulta de uma intervenção contemporânea que substituiu a estrutura original arruinada. Apresenta uma estética de cariz modernista e depurado, com vãos recortados na superfície lisa da parede de forma aparentemente aleatória e com dimensões variáveis. No segundo piso, o volume apoia-se sobre um vão transparente, criando uma "sensação de suspensão". Este núcleo funciona como charneira de distribuição, contendo o átrio principal, escadarias e acessos verticais que ligam os desníveis dos corpos laterais e a sub-cave, onde se situam as reservas e áreas técnicas.
As fachadas são predominantemente em alvenaria mista, rebocadas e pintadas de branco, com molduras de cantaria nos corpos históricos e estrutura metálica no central. A cobertura original em telha vã com asnas de madeira decoradas foi, no piso superior, substituída por material metálico. A adaptação museológica permitiu criar salas de exposição permanente e temporária, auditório e serviços educativos, mantendo a leitura das diferentes etapas construtivas que caracterizam este monumento. Categoria:Museus de Leiria Categoria:Património edificado em Leiria
Museu da Imagem em Movimento O Museu da Imagem em Movimento (MIMO, estilizado m|i|mo – museu da imagem em movimento) é um espaço cultural dedicado à preservação, estudo e divulgação da história técnica e artística da cinematografia e da fotografia.
A génese desta instituição remonta a 1996, ano em que se assinalaram os cem anos do Cinema Português. A sua constituição oficial foi autorizada em reunião de câmara a 22 de Janeiro de 1997, altura em que se solicitou a concepção de um projecto expositivo adaptado ao espaço do Teatro José Lúcio da Silva, local onde o museu funcionou numa fase inicial. O anteprojecto foi apresentado ao executivo municipal a 23 de Setembro de 1998, desencadeando um processo de recolha sistemática de espólio e pesquisa, com particular ênfase nos objectos e mecanismos do pré-cinema.
Originalmente baptizado como Museu da Imagem, a designação foi alterada em 1999 para a forma actual (m|i|mo – museu da imagem em movimento) por se considerar que esta nomenclatura reflectia melhor os conteúdos da exposição permanente. O crescimento do acervo e a expansão das actividades ditaram a necessidade de transferência para novas instalações.
Em 2010, o museu mudou-se para a sua localização presente, ocupando um conjunto edificado cujo projecto de renovação e arquitectura carrega a assinatura do arquitecto português José Charters Monteiro.
O percurso da instituição tem sido objecto de reconhecimento público. Em 2011, a Associação Portuguesa de Museologia (APOM) galardoou o m|i|mo com uma menção honrosa na categoria de Melhor Museu Português. Mais recentemente, em 2022, a instituição foi distinguida com o Prémio Cinco Estrelas Regiões, na categoria de Museus.
A missão fundamental do m|i|mo incide na recolha, salvaguarda, conservação e inventariação de técnicas e objectos associados às imagens em movimento. A instituição posiciona-se não apenas como um repositório de "elementos de memórias passadas", mas como "uma oficina onde se experimentam novas soluções e novos caminhos, usando os meios historicamente desenvolvidos pela sociedade e recriando outros. Um espaço onde o passado encontra o futuro, onde a discussão ocorre, uma plataforma de cultura e experiência, aberta à comunidade".
O museu situa-se na zona histórica de Leiria, adjacente à Igreja de São Pedro e integrado no recinto do Castelo. O complexo arquitectónico é composto por três volumes distintos que, outrora, albergaram as cavalariças dos Paços Reais e o Celeiro da Mitra. Estas infra-estruturas foram adaptadas para acolher as funções museológicas, mantendo a memória do edificado.
Acervo e exposições As colecções existentes permitem compreender a evolução da cinematografia, da manipulação da luz, sombra, cor, ritmo e volume. O espólio abrange a história técnica e artística desde o pré-cinema até à actualidade, incluindo ainda a fotografia e as artes visuais. Além da exposição permanente, o museu dispõe de espaços dedicados a mostras temporárias e permite visitas à reserva da colecção.
Um dos núcleos centrais é a Oficina do Olhar, um espaço onde é possível "manipular reproduções de objectos associados às primeiras experiências de imagens animadas", ajudando o visitante a "compreender a importância dos avanços da física e da mecânica na reprodução do movimento contínuo".
Centro de documentação e serviços O m|i|mo integra o Centro de Documentação e Informação Artur Avelar (CDIAA), um espaço baptizado em homenagem a um leiriense que dedicou quatro décadas da sua vida ao cinema. Este centro reúne um vasto património de mais de 300 mil exemplares, incluindo fundos documentais, bibliográficos e audiovisuais. O acervo do CDIAA cobre temáticas diversificadas como monografias, publicações periódicas e documentos sobre pré-cinema, cinema de animação, fotografia, televisão, museologia, artes e educação.
A instituição promove regularmente actividades de carácter lúdico e criativo, disponibilizando ainda serviços de empréstimo de documentos e espaços destinados à leitura e ao visionamento de filmes e vídeos, consolidando-se como uma plataforma de cultura aberta à comunidade.