O achado arqueológico conhecido como "carro votivo de Vilela" é um objeto de bronze recolhido em 1920 no local então conhecido como Bouça do Custódio, no monte da Costa Figueira, Freguesia de Vilela, município de Paredes, norte de Portugal.

Propriedade do médico e investigador Eduardo de Freitas, a peça foi oferecida à Sociedade Martins Sarmento pelo filho, Luís de Freitas, em 1938. Encontra-se, desde então, em exposição no Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães, Portugal.

Contexto histórico e datação

O artefacto foi primeiramente descrito por Eduardo de Freitas, em 1923, embora o estudo mais pormenorizado que existe em torno desta peça seja da autoria de Mário Cardozo. Vários estudos descrevem sumariamente ou referem a existência deste invulgar objeto, sendo a referência de Armando Coelho Silva (2007) o estudo mais recente sobre o carro de Vilela.

Aponta-se para o carro votivo de Vilela uma cronologia relativa atribuível aos séculos IV ou III a. C., tendo em conta a temática retratada, a tipologia das rodas e as analogias dos elementos representados com produções recolhidas noutros pontos da Península Ibérica. Desconhece-se hoje o contexto exato em que esta peça foi recolhida, mas tudo indica para a inexistência de um povoado da Idade do Ferro no monte da Costa Figueira, embora se suponha a existência de povoamento proto-histórico nas imediações. Tal facto, porém, não é de surpreender, tendo em conta que, na Idade do Ferro, determinados locais ermos, como florestas, penedos ou nascentes, eram utilizados para fins rituais, nomeadamente para a realização de sacrifícios ou de banquetes, das quais resultava a deposição de determinados elementos. Frequentemente, estes elementos consistem de fragmentos cerâmicos, restos de comida e, sobretudo, elementos metálicos, como espetos, fúrculas, caldeiros e caldeirões. De facto, encontrou-se, juntamente com o carro de Vilela, um espeto em bronze. Vários carros votivos recolhidos em diferentes pontos da Europa mostram caldeirões, como o caso do carro de Strettweg, que eram utilizados para fins rituais, associados ou não a carros processionais. Não é portanto estranha a recolha do carro de Vilela, e do espeto que o acompanhava, num local não associado a povoamento. Foram colocadas diferentes hipóteses quanto ao culto associado aos rituais dos carros votivos, como os cultos da fecundidade, divindades guerreiras, heliolatria, animismo e ofiolatria. No carro votivo de Trunholm (Dinamarca), um cavalo puxa um carro que carrega o disco solar, numa manifestação heliolátrica. No entanto, a temática do culto em questão não é tão evidente no carro de Vilela. É discutível a identificação do travessão central da peça com a figura de uma serpente, segundo interpretação de Mário Cardozo. miniaturadaimagem|Carro Votivo de Vilela (Coleção da Sociedade Martins Sarmento)

Descrição e iconografia

Sendo embora conhecida pela designação de "carro votivo", tal como outras produções similares recolhidas um pouco por toda a Europa, esta peça não se trata de uma miniatura de um carro, sendo antes uma composição estética que representa uma cena, da qual os carros figurados seriam parte integrante. O carro votivo de Vilela é uma produção em bronze que representa um ato processional, no qual participavam as diferentes personagens visíveis na composição. Toda a peça está estruturada por um travessão de 38,5cm de comprimento, sobre a qual se dispõem as figuras e que é suportado pelos dois eixos das quatro rodas, das quais nenhuma se conserva inteira, e uma delas desapareceu totalmente.

Distinguem-se, sobre o travessão central, duas juntas de bois nas extremidades do conjunto, catorze figuras humanas e um animal, pelo ordem que se segue:

a) Uma junta de bovinos, com hastes alongadas, atrelados a um carro através de uma canga;

b) Duas personagens interpretadas como condutores, com um braço sobre o peito e outro estendido, como que segurando cada um sua vara para tocar os bois, posicionados exatamente sobre o eixo do primeiro par de rodas. Ambas as personagens levam a cabeça coberta, com o que Mário Cardozo defendeu serem capacetes, de tipo Montefortino, embora não seja possível uma identificação precisa destes elementos;

c) Seguem-se duas filas paralelas, com quatro personagens cada. Numa das filas distinguem-se quatro guerreiros, envergando saio curto, todos brandindo uma espada, de folha larga, na mão direita, pousada sobre o ombro, e um escudo, ou caetra, na mão esquerda. Na outra fila seguem, paralelamente aos guerreiros, quatro figuras sem armas, com as mãos postas sobre o ventre, e transportando uma carga sobre os ombros, visível em apenas 3 das figuras. Segundo Mário Cardozo, estas quatro figuras poderiam representar prisioneiros, conduzidos para um sacrifício. Para tal interpretação contribui a existência de uma escolta, figurada pela fila de guerreiros, e pelo facto de as figuras aparentemente levarem as mãos atadas. No entanto, segundo Armando Coelho Silva, as quatro figuras desarmadas poderão representar quatro mulheres, que transportavam oferendas, tendo em conta a "trouxa", suspensa sobre os ombros de três das figuras;

d) Seguem-se outras duas personagens, colocadas sobre o eixo do segundo par de rodas, com as mãos postas sobre o ventre, acompanhando o cortejo. Tal como os condutores que tocam a primeira junta de bois, levam a cabeça coberta com um eventual capacete, embora a posição dos braços não indicie que se tratem de condutores da segunda junta de bois, como sugere Armando Coelho Silva;

e) Segue-se um animal, aparentemente um ovicaprino, com orientação contrária ao resto do conjunto, ladeado por duas figuras humanas, consensualmente interpretadas como sacrificadores, que apoiam as mãos nos flancos do animal;

f) Remata o conjunto uma segunda junta de bois, também arreados, orientados em sentido oposto ao resto do cortejo, na mesma direção do animal conduzido pelos sacrificadores ou sacerdotes.

Correspondendo aos conceitos litúrgicos e hábitos rituais da Idade do Ferro, o carro votivo de Vilela figura uma procissão, formada por carros de bois, condutores, sacerdotes, sacrificantes, uma vítima animal, guerreiros, e um conjunto de figuras interpretadas como cativos ou vítimas humanas, ou como mulheres carregando oferendas. Ambas as hipóteses são aceitáveis para o que seria um cortejo ritual na Proto-história. As duas juntas de bois puxam em sentidos opostos. Segundo Armando Coelho Silva, esta configuração pode corresponder a uma alteração, resultante de um conserto do carro votivo, que originalmente poderia ter todas as figuras orientadas no mesmo sentido. Embora seja presumível que a peça já tenha sido partida e consertada após a sua recolha, é muito possível que tivesse esta configuração desde a sua origem, tendo em conta uma aparente simetria entre as duas extremidades do conjunto, que assim se apresenta como uma estilização, e não propriamente como um carro. De facto, a maior parte das personagens representadas não se deslocavam em cima de um carro, mas a pé. As duas juntas de bois, e os dois eixos com quatro rodas, figuram, assim, dois carros distintos, que poderiam integrar o cortejo processional, e que foram representados em sentidos opostos por uma questão estilística e de harmonização iconográfica. A mesma solução se encontra, por exemplo, no já citado carro votivo de Strettweg (Áustria), em que várias personagens se dispõem em direções opostas sobre um carro com dois eixos e quatro rodas.

As rodas representadas no carro de Vilela, com um travessão central, e quatro travessões mais pequenos, perpendiculares ao meão, corresponderão a uma solução de construção mais arcaica relativamente às rodas de carros de bois documentadas etnograficamente no Norte de Portugal, embora estejam documentadas, para a Idade do Ferro, soluções de conceção das rodas idênticas a carros de bois atuais.

A iconografia presente no carro votivo de Vilela demonstra a intenção, por parte do autor deste objeto de bronze, de retratar uma cerimónia, neste caso uma procissão, associada a sacrifícios rituais. Concretamente, o carro não teria uma utilização prática, representando um provável ex voto depositado, com outros elementos, num local que, por alguma razão, se revestia de um significado especial. Trata-se de uma peça única, que reúne um conjunto de características determinantes para o conhecimento dos parâmetros rituais das comunidades da Idade do Ferro, bem como certos hábitos e tecnologias, como a indumentária, as armas e os carros.

Ver também Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento Museu da Cultura Castreja Carro votivo de Strettweg Carro solar de Trundholm

Categoria:Achados arqueológicos em Portugal