Nur Jaã, ou Nur Jahan (do persa "Luz do mundo"), nascida como Mehr-un-Nissa (31 de maio de 1577 – 18 de dezembro de 1645), foi a vigésima esposa e principal consorte do imperador mogol Jaanguir (ou Jahangir).
Nur Jaã é considerada por alguns historiadores como o verdadeiro poder por trás do trono por mais de uma década durante o reinado de Jaanguir. Ela recebeu honras e privilégios nunca antes desfrutados por qualquer uma de suas antecessoras ou sucessoras enquanto imperatriz mogol, como a cunhagem de moedas em seu nome. Seu marido sofria de um vício severo ao álcool e ao ópio e ele também tinha que frequentemente combater a sua enfermidade. Nur Jaã ascendeu a uma posição de uma co-soberana graças ao seu intelecto, a sua capacidade política, e a sua habilidade de forjar alianças estratégicas na corte imperial perante a negligência de seu marido.
Nascimento e início de vida (1577-1594) esquerda|miniaturadaimagem|Candaar, o local de nascimento de Nur Jaã, se encontra agora no sul do Afeganistão Nur Jaã nasceu como Mehr-un-Nissa (1577) em Candaar, no atual Afeganistão, em uma família da nobreza persa. Ela era a quarta filha do aristocrata Mirza Guiaçe Begue e sua esposa Asmate Begum. Ambos os parentes de Nur Jaã descendiam de famílias ilustres – Guiaçe Begue era filho do Maomé Xarife e Asmate Begum fazia parte do clã dos Aga Mulás. O avô paterno de Nur Jaã, Maomé Xarife, foi primeiro um vizir para o governador de Coração, e depois colocou-se a serviço do xá Tamaspe, que tornou-o o vizir de Isfahã, de modo a reconhecê-lo por seu excelente serviço. Por motivos desconhecidos, a família de Guiaçe Begue sofreu uma reversão em suas riquezas em 1577 e não pôde mais tolerar as condições em sua terra natal. Na esperança de melhorar as riquezas de sua família, Guiaçe Begue escolheu realocar-se na Índia Mogol, onde dizia-se que a corte do imperador Aquebar se encontrava no centro da indústria do comércio e da cena cultural.
Na metade do caminho, a família foi atacada por assaltantes que lhe tomaram as escassas possessões que sobravam. Com apenas duas mulas, Guiaçe Begue, sua esposa grávida, e seus dois filhos (Maomé Xarife II, Assafe Cã) foram forçados a revezarem entre si o descanso nas costas dos animais pelo resto de suas jornadas. Quando a família chegou em Candar, Asmate Begum deu luz à sua segunda filha. A família estava tão empobrecida que temiam não dar conta de cuidar de uma bebê recém-nascida. Felizmente, a família foi levada por uma caravana dirigida pelo nobre mercador Maleque Masude, que mais tarde ajudaria Guiaçe Begue a encontrar uma posição à serviço do imperador Aquebar. Na crença de que a criança significava uma mudança no destino da família, ela recebeu o nome de Mehr-un-Nissa, ou 'O Sol entre as Mulheres'. Seu pai Guiaçe Begue começou sua carreira na Índia, depois de receber a função de tesoureiro para a província de Cabul. Graças as suas habilidades astutas em negócios, ele rapidamente ascendeu através dos ranques dos altos administradores. Por seu excelente trabalho ele foi premiado com o título de I'timād-ud-Daulah ou 'pilar do estado' pelo imperador.
Como resultado de seu trabalho e de suas promoções, Guiaçe Begue foi capaz de garantir que Mehr-un-Nissa (a futura Nur Jaã) tivesse a melhor educação possível. Ela tornou-se versada no idioma árabe e na língua persa, em arte, literatura, música e dança. O poeta e autor Vidya Dhar Mahajan (1913-1990) aclamou Nur Jaã por ter uma inteligência perfuradora, um temperamento volátil e bom senso.
Casamento com Xer Afegã Cã (1594–1607) miniaturadaimagem|Uma dama nobre da dinastia mogol, Índia. Século XVII, provavelmente Nur Jaã Em 1594, quando Nur Jaã tinha dezessete anos, ela casou-se com seu primeiro marido Ali Quli Istalju (também conhecido como Xer Afegã Cã). Xer Afegã era um aventureiro persa forçado a escapar de seu lar na Pérsia depois da morte de seu primeiro mestre Xá Ismail II. Depois ele entrou no exército mogol e serviu sob mandato dos imperadores Aquebar e Jaanguir. Como recompensa por seu serviço leal, Aquebar arranjou o casamento de Nur Jaã com Xer Afegã. Sua única filha, Mihr-un-Nissa Begum, popularmente conhecida como Ladeli Begum, nasceu em 1605. Enquanto participava em uma campanha militar em Mewar sob o comando do príncipe Salim (futuro imperador Jaanguir), Ali Quli Istajlu recebeu o título de Xer Afegã, que em persa significa "o apanhador de leões". A função de Xer Afegã no caminho para Udaipur inspirou esta recompensa, mas seus contemporâneos não se lembravam de suas ações exatas. Uma explicação popular é de que Xer Afegã salvou Salim de uma tigresa raivosa.
Em 1607, Xer Afegã Cã foi morto após os boatos de que ele teria recusado uma convocação de Qutubudim, governador de Bengala, participou de atividades contra o Estado, e assassinou o governador quando ele chegou para escoltá-lo até a corte. Alguns suspeitam de que Jaanguir tenha planejado a morte de Xer Afegã pois ele tinha se apaixonado por Nur Jaã e lhe foi negado o direito de acrescentá-la ao seu harém. A exatidão deste rumor é incerta, já que Jaanguir casou-se com Nur Jaã em 1611, quatro anos depois que ela chegou em sua corte. Ademais, relatos da época oferecem poucos detalhes em relação a existência real de um caso amoroso antes de 1611, e historiadores questionaram a lógica de Jaanguir em dar honras a Xer Afegã se seu desejo fosse de vê-lo eliminado da conjuntura.
Na função de uma imperatriz mogol
Aia de Rucaia Sultana Begum (1607–1611) miniaturadaimagem|Nur Jaã segurando um retrato de Jaanguir por Bixandas c.1627 Depois da morte de seu marido Xer Afegã em 1607, Nur Jaã e sua filha, Ladeli Begum, foram convocadas para Agra por Jaanguir por proteção e agiram como aias para Rucaia Sultana Begum, uma das consortes do falecido imperador Aquebar. Dada as precárias conexões políticas de Xer Afegã antes de sua morte, sua família estaria em certo perigo face àqueles que procuravam vingança pela morte de Qutubudim. Por sua proteção, então, Nur Jaã precisava estar na corte mogol de Agra. Ela foi levada de volta com honra (presumidamente devido a posição de seu pai na corte), e estava a mando de seu novo cargo com Rucaia Sultana Begum.
Nur Jaã serviu como uma aia para a rainha-viúva por quatro anos. O mercador holandês e escritor de viagens Pieter van den Broecke descreveu a relação delas em sua Crônica do Hindustão, dizendo que "Esta Begum [Rucaia] concebeu uma grande afeição por Mehr-un-Nissa [Nur Jaã]; ela a amava mais que amava os outros e sempre a colocava em sua companhia."
Casamento com Jaanguir (1611–1627) miniaturadaimagem|O primeiro encontro entre Nur Maal e o príncipe Salim Nur Jaã e Jaanguir foram um assunto de muito interesse através dos séculos e existem inúmeras lendas e histórias sobre o relacionamento deles. Muitas histórias alegam que houve afeto entre Nur Jaã e o imperador Jaanguir antes mesmo do primeiro casamento de Nur Jaã em 1594. Uma variação conta que eles se apaixonaram quando Nur Jaã tinha dezessete anos, mas o relacionamento foi impedido pelo imperador Aquebar. Entretanto, conhecimentos mais recentes levantaram dúvidas em relação a existência de um relacionamento anterior entre Nur Jaã e Jaanguir.
Proposta de Jaanguir e casamento esquerda|miniaturadaimagem|Jaanguir e o príncipe Currã com Nur Jaã, 1624. Este cenário é provavelmente de Aram Bague, Agra, jardim que a imperatriz Nur Jaã, uma grande patrona dos jardins, teria remodelado em 1621. Em 1611, Nur Jaã conheceu o imperador Jaanguir no bazar do palácio durante o festival de primavera de Noruz que foi celebrado na vinda do ano novo. Jaanguir apaixonou-se por ela e pediu sua mão em casamento. Eles se casaram em 25 de maio do mesmo ano. Nur Jaã tinha 34 anos de idade na época de seu segundo casamento e ela tornou-se a vigésima e última esposa de Jaanguir, em termos legais. De acordo com alguns relatos, eles tiveram duas crianças, enquanto outros denunciam que o casal se manteve sem filhos. Relatórios incompletos e o número abundante de crianças de Jaanguir provaram-se esforços obscuros para distinguir identidades individuais e maternidade. Esta confusão é demonstrada por fontes que mais tarde erroneamente identificaram Nur Jaã como a mãe de Xá Jeã, quando a outra esposa de Jaanguir, Manmati, era sua verdadeira mãe.
Jaanguir a concedeu o título de Nur Maal () após o casamento em 1611 e também Nur Jaã (). A afeição de Jaanguir e sua confiança em Nur Jaã levou-a a ter uma grande porção de poder nas questões do estado. O vício de Jaanguir ao ópio e ao álcool facilitou para que Nur Jaã exercitasse sua influência. A confiança dele nela era tão grande que ele a deu o maior símbolo de poder e determinação dos decretos imperiais – seu selo imperial, insinuando que o consentimento dela era necessário antes que qualquer documento ou ordem recebesse validação legal. Então por muitos anos ela possuiu o poder imperial e foi reconhecida como o verdadeiro poder por trás do trono mogol.
Jaanguir confiou Nur Jaã a tarefa de cuidar do segundo filho de Xá Jeã e Mumtaz Maal, o príncipe Xá Xuja, após seu nascimento em 1616. Esta nova responsabilidade lhe foi dada devido a sua alta posição, influência política e a afeição de Jaanguir por ela. Foi também uma honra para a imperatriz, já que Xuja era um favorito especial de seu avô.
Avanços familiares e consolidação de poder Depois que Xer Afegã morreu, a família de Nur Jaã novamente se encontrava em uma posição rebaixada. Seu pai, era, naquela época, um diwan de um Amir-ul-Umra, uma posição não muito alta. Ademais, seu pai e também um de seus irmãos foram cercados por escândalo, pois seu pai foi acusado de fraude e seu irmão de traição. Sua sorte tomou um rumo melhor quando ela se casou com Jaanguir. O estado mogol concedia poder absoluto ao imperador, e aqueles que exerciam influência sob o imperador ganhavam vasto controle e prestígio. Nur Jaã foi capaz de convencer seu marido a perdoar seu pai e atarefá-lo como primeiro-ministro. Para consolidar sua posição e seu poder dentro do império, Nur Jaã colocou vários integrantes de sua família em altas posições pela corte e pelos escritórios administrativos. Seu irmão, Assafe Cã, foi atribuído a função de grão-vizir de Jaanguir.
Para garantir suas contínuas conexões ao trono e a influência que poderia obter delas, Nur Jaã arranjou para que sua filha Ladeli se casasse com o filho mais jovem de Jaanguir, Xariar. Este casamento era a garantia de que de uma forma ou de outra, a influência da família de Nur Jaã se estenderia pelo Império Mogol por pelo menos mais uma geração.
Administração do Império Mogol miniaturadaimagem|Moeda prateada de rupia cunhada sob Jaanguir, contendo o nome de Nur Jaã. Datada de AH 1037, ano de reinado 22 (1627/1628 EC), cunhada em Patná. Nur Jaã tinha apreço pela caça e com frequência ia a caçadas com seu marido. Ela era conhecida por sua audácia na caça de tigres ferozes. Há relatos de que ela teria assassinado quatro tigres com seis balas durante uma caçada. De acordo com Sir Amade Cã Badur, esta proeza inspirou um poeta a declarar um par de versos em sua honra:
As habilidades administrativas de Nur Jaã provaram-se inestimáveis durante o reinado dela, quando ela defendeu as fronteiras do Império na ausência de seu marido, tomou controle das intrigas de família, de motins rebeldes, e de uma guerra por sucessão provocada pelo fracasso de Jaanguir em nomear um herdeiro antes de sua morte em 28 de outubro de 1627. miniaturadaimagem|Retrato de Nur Jaã segurando uma arma por Abu al-Haçane.