miniaturadaimagem|Caça-submarinos Guajará em exercício de lançamento de bombas de profundidade (1944)|upright=0.8 A Marinha do Brasil participou da Segunda Guerra Mundial na Batalha do Atlântico, do ingresso do Brasil na guerra em 1942 até seu fim em 1945. Sua campanha foi de defesa do tráfego marítimo contra submarinos alemães e italianos, em conjunto com a Força Aérea Brasileira e as Forças Armadas dos Estados Unidos, com estas últimas exercendo o comando operacional no Atlântico Sul. As principais atividades foram a escolta de comboios entre o Rio de Janeiro e Trinidad, no Caribe, com missões adicionais como a escolta da Força Expedicionária Brasileira a caminho da Europa.

Ataques submarinos contra a marinha mercante brasileira foram o fator imediato do ingresso brasileiro na guerra e colocavam em risco o fornecimento de matérias-primas aos Aliados e o abastecimento das grandes cidades do litoral. A frota brasileira pré-guerra, composta em sua maioria de remanescentes da Esquadra de 1910, estava despreparada para a guerra antissubmarino. Estrategistas navais estavam até então mais preocupados com uma guerra regional entre forças de superfície. Um programa naval traçado em 1932 reativava, com dificuldades, a construção de navios de guerra em solo nacional. Durante a guerra, a adaptação dos navios existentes, a incorporação, via Lend-Lease, de dezesseis caça-submarinos (as classes G e J) e oito contratorpedeiros de escolta (a classe Bertioga), e a instrução em novos equipamentos criou uma frota voltada à guerra antissubmarino, com navios pequenos, mas modernos.

Duas forças-tarefa foram organizadas, a Força Naval do Nordeste (FNNE) e o Grupo Patrulha Sul (GPS), respectivamente a norte e a sul do Rio de Janeiro, com outros meios designados aos Comandos Navais no litoral. Fuzileiros navais guarneceram vários portos e a Ilha de Trindade. Com o esforço combinado dos Aliados, a ameaça submarina estava quase suprimida ao final de 1943. A Marinha do Brasil comboiou 3 164 navios, dos quais 99,01% chegaram aos seus destinos. Três navios e 486 militares foram perdidos em operação. Nenhum submarino inimigo foi diretamente afundado pela Marinha do Brasil, sendo a aviação, que ela não tinha, a grande destruidora de submarinos nas operações. A participação naval brasileira em missões de caça e destruição só começaria na etapa final da guerra.

No pós-guerra, a Marinha do Brasil alinhou-se aos Estados Unidos na aquisição de navios e no preparo conjunto para a guerra antissubmarino, com os submarinos soviéticos substituindo os alemães no pensamento naval da Guerra Fria. Haveria distanciamento em ambos pontos algumas décadas depois. O discurso histórico institucional sobre o conflito se opõe à visão que só dá atenção ao Exército e culpa o descaso político pelo estado de despreparo e improvisação com o qual o país se encontrou.

A Marinha pré-guerra miniaturadaimagem|Cruzador Bahia|esquerda O governo brasileiro declarou-se neutro após a deflagração da Segunda Guerra Mundial na Europa, em setembro de 1939, e declarou guerra contra a Alemanha e a Itália em agosto de 1942, ingressando no conflito no lado dos Aliados. No mar, a ameaça consistia em submarinos do Eixo (alemães e italianos) afundando navios mercantes brasileiros. A Marinha de Guerra brasileira encontrava-se despreparada para esta ameaça. A maioria dos navios eram os remanescentes da Esquadra de 1910, usados na Primeira Guerra Mundial. O estado de manutenção era péssimo e os estoques de munição eram pequenos.

A maioria dos meios subordinavam-se à Esquadra, cujo capitânia era o encouraçado Minas Gerais. Seu irmão São Paulo, outro remanescente de 1910, permanecia em atividade, assim como os cruzadores Bahia e Rio Grande do Sul e cinco contratorpedeiros da classe Pará, um dos quais, o Paraíba, não tinha condições de mar. Havia outro contratorpedeiro de classe mais recente, isto é, da Primeira Guerra, o Maranhão. O Minas Gerais havia sido reformado em 1935–1939, substituindo o carvão pelo óleo. Os cruzadores, com três mil toneladas de deslocamento, eram pouco maiores que contratorpedeiros modernos, e seus canhões eram de 120 milímetros de calibre, inferior ao padrão de 127 milímetros nos contratorpedeiros americanos. Os contratorpedeiros da classe Pará eram chamados de torpedeiros em algumas fontes.

A força de alto-mar incluía ainda o submarino Humaitá e três submarinos da classe T, dois tênderes, dois navios-tanque e quatro rebocadores. A Flotilha de Navios Mineiros Varredores tinha dez navios, e a Diretoria de Hidrografia e Navegação, três navios hidrográficos e dois navios-faroleiros. O navio-escola era o veleiro Almirante Saldanha. Tais meios concentravam-se no Rio de Janeiro, então capital federal, mas havia flotilhas fluviais em Ladário, Mato Grosso, e Belém, Pará. Uma base naval estava em construção em Natal, e consideravam-se outras em Recife e Salvador para operações no Nordeste. Patrulhava-se o litoral com os poucos meios disponíveis, especialmente entre a foz do Rio Pará até Santa Catarina, incluindo os arquipélagos de Fernando de Noronha e Trindade e Martim Vaz.

Não havia conhecimento nem equipamentos para táticas antissubmarino modernas. Os navios careciam de radares e sonares e as tripulações não estavam adestradas em técnicas modernas de controle de avarias, combate a incêndio, salvamento no mar e outros procedimentos. A rotina de treinamento dos couraçados no entreguerras limitava-se a eventuais exercícios de tiro na Ilha Grande, indo e voltando ao porto no mesmo dia. Os oficais que quisessem servir mais tempo em alto-mar voluntariavam-se ao serviço hidrográfico. Havia nichos de competência na Flotilha de Submarinos e Aviação Naval, mas esta última foi extinta em 1941, juntamente com sua equivalente no Exército, para criar a Força Aérea Brasileira. Até então ela possuía 97 aviões.

O Corpo de Fuzileiros Navais (CFN) tinha efetivo nominal de 2 638 homens desde 1940. Eram essencialmente uma infantaria de guarda com procedimentos típicos do Exército. Os regulamentos previam que fizessem operações de desembarque, mas não havia equipamento e treinamento especializado para tal. Com a abertura de cursos na Escola Naval para oficiais fuzileiros navais e intendentes em 1936, substituíam-se no CFN os oficiais promovidos a partir da tropa, que eram desprezados pelo Corpo da Armada.

Ordem de batalha Articulação das unidades navais em 1940Divisão de EncouraçadosMinas Gerais e São PauloDivisão de CruzadoresRio Grande do Sul e BahiaFlotilha de ContratorpedeirosMaranhão, Piauí, Rio Grande do Norte, Sergipe, Santa Catarina e Mato GrossoFlotilha de SubmarinosHumaitá, Tupi, Timbira e TamoioTremTênderes Belmonte e Ceará, navios-tanque Novais de Abreu e Marajó, rebocadores Aníbal de Mendonça, Muniz Freire, Henrique Perdigão e DNOGFlotilha de Navios Mineiros VarredoresDez naviosFlotilha da Diretoria de Hidrografia e NavegaçãoTrês navios hidrográficos e dois navios faroleirosNavio isoladoNavio-escola Almirante SaldanhaFlotilha do Amazonas (fluvial)Canhoneira Amapá e rebocador Mário AlvesFlotilha de Mato Grosso (fluvial)Monitores Parnaíba, Paraguaçu e Pernambuco, avisos Oiapoque e Voluntários e navio-tanque Potengi

Pensamento naval entreguerras A política naval brasileira no período entreguerras não tinha orientação bem definida. As prioridades gerais eram o cenário regional, especialmente na rivalidade com a Argentina, e as operações e unidades de superfície. As aquisições navais eram explicadas com base na defesa dos oito mil quilômetros de costa e paridade com as esquadras argentina e chilena. A Escola de Guerra Naval (EGN) estudava hipóteses de conflito sul-americano com interceptações, proteção de bases, transporte de tropas do Exército e manutenção de linhas de comunicação marítimas para a Europa e Estados Unidos. Entretanto, a guerra antissubmarina era ignorada. Quanto à composição da esquadra, competiam os proponentes de encouraçados e navios de dimensões menores. Jogos de guerra nos anos 1930 já incluíam a aviação, desembarques anfíbios e guerras contra potências europeias, mas os inimigos usavam somente forças de superfície.

O período foi de dificuldades econômicas e profundas reformas. O pensamento estratégico e a tática eram modificados pela influência da Missão Naval Norte-Americana (MNNA) sobre a Escola de Guerra Naval (EGN) e o Estado-Maior da Armada. Oficiais de baixa patente que estagiaram nos EUA, os "arquiduques", propunham atualizações no pensamento naval. O contrato da MNNA foi assinado em 1922, abandonado em 1931 e retomado em 1935. Instrutores americanos lecionavam na EGN. A Marinha dos Estados Unidos suplantava a Marinha Real britânica na posição de principal influência na Marinha do Brasil.

Administração naval na Era Vargas miniaturadaimagem|Almirante Aristides Guilhem (de uniforme branco) com Vargas (à direita) e outros de seus ministros (1939) A Presidência da República foi ocupada por Getúlio Vargas de 1930 a 1945. De 1937 em diante, Vargas chefiou, com apoio das Forças Armadas, a ditadura do Estado Novo. Na maior parte deste período o Ministério da Marinha esteve com os almirantes Protógenes Guimarães (1931–1935) e Aristides Guilhem (1935–1945). Protógenes era um dos ex-rebeldes tenentistas dos anos 1920, anistiados pelo presidente numa de suas primeiras medidas no poder. Na Marinha, os anistiados eram poucos e sua reintegração não foi difícil como no Exército. A longa gestão de Aristides garantiu alguma continuidade nos planos navais, pois a tomada de decisões centralizada e personalista, apesar da estrutura de assessoramento do Estado-Maior da Armada e da missão americana. O presidente podia ou não executar o planejamento apresentado pelos militares.

A força naval combateu a Revolução Constitucionalista de 1932, contribuindo à manutenção de Vargas no poder, mas muitos oficiais simpatizavam com os rebeldes. Vargas acabou liberando verbas à Marinha por precisar de apoio militar, mesmo no quadro da Grande Depressão, e por necessidades de política externa, com duas guerras em países fronteiriços: Colômbia-Peru (1932–1933) e Bolívia-Paraguai (1932–1935). O projeto de reativação da construção naval brasileira era compatível com a política de industrialização por substituição de importações. O aço para a construção naval era importado dos Estados Unidos, interessando os ministros na causa da nacionalização da indústria siderúrgica. A propaganda do Estado Novo explorou as cerimônias de batimento de quilha e lançamento ao mar, apresentando-as como afirmações da nacionalidade, modernidade e desenvolvimento.

Mais dois movimentos tentariam derrubar Vargas nos anos 1930: os comunistas (1935) e integralistas (1938). O primeiro caso não envolveu diretamente a Marinha, enquanto o segundo resultou na prisão de muitos de seus oficiais e praças. Em resposta, Vargas não reduziu o programa naval, mas restringiu o combustível e munição disponíveis à Esquadra até 1942. Uma decisão presidencial seria controversa dentro da Marinha: a extinção das aviações do Exército e da Marinha para criar uma nova pasta militar, o Ministério da Aeronáutica, que redistribuiu as bases de apoio político-militar.

Programa naval de 1932 miniaturadaimagem|Incorporação dos navios-mineiros da classe Carioca (1940)|esquerda No despontar da guerra, em 1939, estaleiros brasileiros trabalhavam em um monitor, seis navios-mineiros e três contratorpedeiros. Outro monitor de mesma origem entrou em serviço em 1937. Seis contratorpedeiros, encomendados pela Marinha do Brasil, eram construídos no Reino Unido, e três submarinos italianos já haviam sido incorporados alguns anos antes. Todos integravam um programa naval instituído em 1932 e revisado nos anos seguintes. Só uma pequena parte do planejado chegaria a ser implementada nos anos 1930.