O cerco de Fez ocorreu em 1146, quando o Império Almorávida foi gradualmente conquistado pelo Califado Almóada sob o comando de Abde Almumine . O episódio resulta de um longo processo iniciado em 1121, quando Ibne Tumarte, fundador e mádi do movimento almóada, chegou à cidade para pregar sua doutrina e acabou expulso devido à hostilidade almorávida. Estabelecendo-se em Tinmel, no Alto Atlas, Ibne Tumarte lançou as bases do futuro avanço almóada, que seu discípulo Abde Almumine transformou numa campanha militar sistemática ao longo dos anos 1130 e 1140.

Evitando inicialmente o confronto direto nas planícies, Abde Almumine concentrou-se em conquistar fortalezas e submeter tribos berberes no Suz, no vale do Drá e na cordilheira do Atlas, privando os almorávidas do acesso a riquezas minerais e às rotas comerciais com a África subsaariana, ao mesmo tempo em que formava alianças militares. Com suas forças consolidadas, expandiu os domínios almóadas em direção ao norte, conquistando o Médio Atlas, Tafilete e a região de Taza, bem como cidades e fortalezas desde até o litoral oraniano. O enfraquecimento almorávida foi acelerado por crises internas e sucessivas derrotas, culminando no cerco de nove meses de Fez. Em seguida, em 1146, ele iniciou o cerco de Marraquexe, que durou onze meses e terminou com a captura da capital em 24 de março de 1147.

Contexto

Em 1121, Ibne Tumarte, fundador e mádi do movimento reformista almóada, chegou a Marraquexe para pregar as suas ideias, onde encontrou-se com o emir almorávida, Ali ibne Iúçufe , durante as orações na mesquita, e o confrontou sobre os seus modos de governar. A liderança política almorávida tornou-se hostil à sua presença, e Ibne Tumarte fugiu ao Atlas, estabelecendo-se em Tinmel, a sul de Marraquexe. Com apoio das tribos berberes locais, realizou uma tentativa frustrada de conquistar Marraquexe, que terminou em sua derrota na Batalha de Albuaira de 1130. Seu pupilo e fiel seguidor, Abde Almumine, ao longo dos anos 1130 e 1140 dedicar-se-ia à conquista do Império Almorávida. Evitando as planícies, onde a cavalaria almorávida tinha vantagem, Abde Almumine preparou-se para submeter as montanhas para tomar as riquezas minerais e controlar as vias comerciais. Obtendo apoio de várias cabilas do Atlas, submeteu Suz e o vale do rio Drá, regiões essenciais para o lucrativo comércio que os almorávidas mantinham com a África subsaariana, onde construiu sólida base de ataque e possível recuo. Dali, conquistou a linha de fortalezas que no norte cercavam o Alto Atlas, evitando o acesso às planícies e Marraquexe. Deixando as planícies, Abde Almumine seguiu o caminho das montanhas para nordeste, tomando as cidades fortificadas de Demnate e Dei, numa manobra destinada a isolar o território almorávida central.

Em 1140-1141, assegurou o Médio Atlas e oásis de Tafilete. A partir do maciço montanhoso de Jebala, ao norte do Marrocos, tomou as fortalezas da região de Taza, de onde fez a conquista das cabilas submediterrâneas de , Badis, Necor, Melilha e a região oraniana setentrional, terminando numa entrada triunfal em Tagra. Com tais sucessos, deixou os almorávidas flanqueados e os privou das minas das montanhas, centro nevrálgico da guerra. A partir de então, à frente de forças consideráveis e dispondo de importantes recursos, se preparou para enfrentar os almorávidas nas planícies. Sua investida foi facilitada porque, em 1143, a sucessão do emir Taxufine ibne Ali ibne Iúçufe provocou dissensões entre os chefes lantunas e massufas, e em 1145 a morte do catalão Reverter, chefe das milícias cristãs almorávidas, privou-os de seus generais mais devotos e hábeis. Além disso, o tawhid (unicidade) almóada compeliu os zenetas a tomarem Tremecém, obrigando o emir Taxufine a recuar para Orã, onde morreu em consequência de uma queda de cavalo. Com essas vitórias, Abde Almumine marchou contra Ujda e Guercife, Salé, Mequinez e Fez.

Cerco e rescaldo

Em 1146, Abde Almumine iniciou o cerco de Fez, que se prolongou por nove meses. Em paralelo, iniciou o cerco de Marraquexe, onde o último emir almorávida, Isaque ibne Ali , estava aquartelado. Um judeu de Segelmeça, chamado Salomão, relatou que durante a conquista de Fez teriam sido mortos 100 mil muçulmanos e judeus; embora estes números não devam ser tomados literalmente, correspondem a fontes árabes que mencionam que a população masculina foi passada ao fio da espada enquanto as mulheres foram vendidas como escravas. Iáia ibne Isaque Almassufi, um dos nobres almorávidas, filho de Ali ibne Iúçufe, estava com Taxufine ibne Ali quando o emir recuou para Orã. Ao perceber que a causa almorávida estava perdida, fugiu ao deserto e, algum tempo depois, apresentou-se a Abde Almumine quando sitiava fez. Ibne Idari coloca que Iáia foi acompanhado por um grupo de seus irmãos massufas, trajados com litame, que retiraram diante de Fez e adotaram os trajes almóadas. Ao apoiar os almóadas, Iáia garantiu a segurança de sua esposa e família, que viviam em Marraquexe e corriam risco durante o cerco almóada.

Bibliografia

Categoria:Batalhas envolvendo o Califado Almóada Categoria:Batalhas envolvendo o Império Almorávida Categoria:Batalhas do século XII Categoria:1146