Na tipologia linguística, o alinhamento nominativo marcado é um tipo incomum de alinhamento morfossintático (morphosyntactic alignment) semelhante ao alinhamento nominativo-acusativo, sendo frequentemente considerado seu subtipo. Em uma língua nominativo-acusativa prototípica com um sistema de casos gramaticais como o latim e o grego clássico, o objeto de um verbo será apresentado no caso acusativo, e o sujeito do verbo, primordialmente, no caso nominativo. O nominativo, em sua essência, é usado como forma de citação do substantivo, seja ele realizado ou não morfologicamente. Em um sistema nominativo marcado, o caso nominativo tem realização morfológica. Nessa situação, o caso acusativo não marcado, também chamado de absolutivo, é usado como forma de citação do substantivo e assume uma ampla gama de funções tipicamente associadas ao substantivo. Em línguas nominativo-acusativas, essas funções, frequentemente, incluem o complemento do sujeito (subject complement) e um sujeito movido para um lugar mais proeminente na frase para expressar tópico ou foco. Outra característica do alinhamento nominativo marcado é que o caso ergativo nunca está disponível em línguas nominativas.

Em línguas de nominativo marcado, o nominativo é o caso tanto do sujeito de um verbo intransitivo (S) quanto do agente de um verbo transitivo (A). Dentro desse sistema nuclear, é típico não haver cisão (split) baseada em pessoa, tempo ou aspecto. Dessa forma, (S) e (A) recebem uma marca morfológica explícita do caso nominativo, enquanto o objeto direto (P/O) permanece não marcado  no caso acusativo ou absoluto. .

O alinhamento nominativo marcado inverte a lógica de marcação mais comum, onde o nominativo é o caso "zero" e o acusativo é o marcado .

Características Nas línguas de nominativo marcado, o caso não marcado (frequentemente chamado de absolutivo) é o que geralmente serve como forma de citação do substantivo . Diferente das línguas ergativas, os sistemas nominativos costumam ser homogêneos, não apresentando cisões (splits) baseadas em pessoa, tempo ou aspecto no sistema nuclear .

Este sistema é consistente e não depende de parâmetros semântico-pragmáticos, como volicionalidade, ou morfossintáticos, como tempo e aspecto . Em muitas línguas africanas deste tipo, o nominativo é usado para sujeitos que seguem o verbo, enquanto o absolutivo é usado com a cópula ou para sujeitos em posição de foco .

A ausência de cisão na marcação de caso dos argumentos nucleares mantém homogeneidade na marcação entre os papéis sintáticos fundamentais, promovendo o alinhamento morfossintático nas línguas. Esse sistema consistente e uniforme  entre os papéis sintáticos fundamentais não depende de parâmetros semânticos-pragmáticos, como a volicionalidade ou a  intencionalidade; de parâmetros morfossintáticos, como pessoa ou tempo-aspecto, tampouco, de parâmetros  pragmáticos como o foco e o tópico.  

Distribuição geográfica As línguas com nominativo marcado são relativamente raras. Elas estão bem documentadas em apenas duas regiões do mundo: no norte da África, onde ocorrem em muitas línguas dos ramos cuchítico, omótico (Omotic) e ramos do berbere da família afro-asiática, bem como nas línguas surmicas (Surmic) e nilóticas da família sudanesa oriental (subject complement); e no sudoeste dos Estados Unidos e partes adjacentes do México, onde são características da família Yuman (Yuman) . Há também esse tipo de alinhamento, atestado em algumas línguas indígenas sul-americanas da família Macro-Jê. Outras línguas interpretadas por alguns autores como tendo um sistema de nominativo marcado incluem o igbo, o aimará e o wapo. Também é proposto que o alinhamento do nominativo marcado pode ser reconstruído para uma língua ancestral ascendente das línguas afro-asiáticas, ou seja, o proto-afro-asiático (Proto-Afroasiatic). Open-access preprint version available.

Em Yuman e em muitas línguas cuchíticas, o nominativo nem sempre é marcado por razões desconhecidas. Pode, portanto, não haver um sistema de casos estrito, mas sim um reflexo de padrões discursivos ou outros parâmetros não semânticos. Na língua Yuman Havasupai, verifica-se um sistema de casos puramente sintático, com o sufixo -č marcando todos os sujeitos de verbos transitivos e intransitivos, mas não os da cópula. Na língua nilótica Datooga, o sistema também é descrito como puramente sintático.

Como em muitas línguas nilóticas, o caso Datooga é marcado por tons. O caso absolutivo tem um tom imprevisível na forma citada do substantivo, mas o nominativo é marcado por um tom característico que oblitera o tom lexical. O tom é alto para palavras com três sílabas ou menos; em palavras com quatro ou mais sílabas, as fronteiras das palavras, ou seja, suas extremidades, têm tom alto, com um tom baixo no meio dela.

Na maioria das línguas africanas de alinhamento nominativo marcado, o nominativo é usado para sujeitos pospostos, o absolutivo com a cópula se apresenta com sujeitos focais, antes do verbo, e em todas as outras situações.

O okinawano, uma língua japônica, é geralmente um idioma de alinhamento nominativo marcado, em que os sujeitos nominativos são expressos com as partículas de caso ga ou nu, a depender do nível de animacidade. Nessa língua, os substantivos não marcados estão, por padrão, no caso acusativo. No entanto, alguns verbos de existência e emergência também podem ter sujeitos nominativos opcionalmente não marcados.

Distribuição geográfica resumida As línguas com nominativo marcado são raras, globalmente, mas bem documentadas em algumas regiões específicas:

África: Ramos cuchítico, omótico e berbere (família afro-asiática), além de línguas surmicas e nilóticas .

América do Norte: Família Yuman (sudoeste dos EUA e México) .

América do Sul: Algumas línguas da família Macro-Jê (Brasil), como o Kaingáng e o Kĩsêdjê .

Ásia: Okinawano (língua japônica) .

Exemplos de línguas com alinhamento nominativo LínguaFamíliaExemplo IlustrativoTipo de MarcaFonteMaasaiNilo-Saariana (Quênia/Tanzânia)ɛ-dɔ́l ol-moruó ɛn-kítɔk (O homem-NOM vê a mulher-ABS)Flexão Tonal (tom alto, contorno de caso)König (2008)DatoogaNilo-Saariana (Sudão)gàyqábár qáaréemáŋgá bùnèedą̀ (Os jovens-NOM cavarão a sepultura-ABS)Flexão Tonal (queda ou mudança de tom no sujeito)Kießling (2007); König (2008)TennetNilo-Saariana (Sudão)úk mányúdí-ì mgínaatí (O esquilo-NOM foi lá)Sufixo (-i ou -a, por vezes com mudança tonal)Randal (1998); König (2008)DinkaNilo-Saariana (Sudão)jàŋ à-cé mɛ̄n (Homem-NOM viu mulher-ABS)Morfologia Interna (tonal)Andersen (2002); König (2008)KaingángMacro-Jê (Brasil)ẽprã vỹ tỹ nã nỹ (A terra-NOM está ali)Partícula pós-nominal (múltiplos marcadores de sujeito: vỹ; tỹ; tóg, este com alomorfes isóg ou sóg e muitos outros a depender do autor consultado)Wiesemann (1971); Miranda (2022)    KĩsêdjêMacro-Jê (Brasil)rɔtʃi ra mĩtʃi pĩ (A sucuri-NOM matou o jacaré-ABS)Sufixo Sufixo (-ra e seu alomorfe -ta)Miranda (2022)

Caso acusativo com função de sujeito Em uma língua nominativo-acusativa prototípica com um sistema de casos gramaticais como o latim e o grego clássico, o objeto de um verbo é marcado pelo caso acusativo e o sujeito do verbo é marcado, essencialmente,   mas não exclusivamente  pelo  caso nominativo, havendo frases em que o caso acusativo expressa a função de sujeito. Nessas línguas, há construções de infinitivo, em que ocorre o deslocamento do caso nominativo para o acusativo:

Exemplo em Latim:

''Dico 'Marcum' venire''

("Digo que Marcos vem").

O nome ''Marcum'' exerce a função de sujeito, mas recebe marcação de caso acusativo devido à estrutura infinitiva.

No grego antigo, o sujeito de uma oração infinitiva é colocado no caso acusativo sempre que esse sujeito é diferente do sujeito do verbo principal.

Exemplo em Grego antigo:

“κελεύω 'σὲ' γράφειν”

Transliteração: keleúō sè gráphein.

("Ordeno que 'tu' escrevas", ou, literalmente: "Ordeno '''te''' escrever").

Nesta construção, o pronome de segunda pessoa aparece na forma ''σὲ'' (acusativo), exercendo a função de sujeito do infinitivo ''γράφειν'', enquanto o verbo principal ''κελεύω'' (finito, na 1ª pessoa do singular) governa a oração. Se o sujeito fosse nominativo, a forma seria ''σύ''.

Conclusões Diferentemente do que se constata em línguas ergativas, línguas sem cisões na marcação de caso dos argumentos nucleares tratam do mesmo modo os seus argumentos principais, usando um único padrão de marcação para toda a língua, seja para o sujeito (S) de verbos intransitivos seja para agente (A) de verbos transitivos ou paciente (P) de verbos transitivos.

Assim, línguas sem cisão têm um só tipo de marcação de caso para seus argumentos principais (S, A, P), enquanto línguas com cisão têm um alinhamento híbrido e alternam entre dois ou mais padrões de alinhamento.

Ver também

Alinhamento morfossintático

Caso nominativo

Caso acusativo

Referências

Ver também

alinhamento morfossintático

Linguagem ativa

Notas

Referências

Hinton, Leanne (1984). Havasupai songs : a linguistic perspective

Kießling, Roland (2007). "The 'marked nominative' in Datooga", Journal of African languages and linguistics, vol. 28, no2, pp. 149–191

Suda, Junichi (2025). “The Late-Klimov Model for Typological Classification of Active, Ergative, and Nominative Languages ― Re-evaluation of the Five Macroroles Model, et al.”. Typological Studies 7: 83-109.

The World Atlas of Language Structures Online

Categoria:Tipologia linguística