O golpe de Sharjah de 1987, ou crise emiradense de 1987, foi uma crise política nos Emirados Árabes Unidos (EAU) quando, devido à recessão econômica causada pela superprodução de petróleo da década de 1980, o irmão de Sultan bin Muhammad Al-Qasimi, o xeique do emirado de Sharjah, Sheikh `Abd al-`Aziz bin Muhammad Al Qasimi, tentou realizar um golpe palaciano sem derramamento de sangue, tomando posições importantes em Sharjah com militares leais a ele. O golpe desestabilizou as bases do ainda jovens EAU e ameaçou fragmentar a união em seus emirados constituintes; no entanto, acabou fracassando devido a Mohammed bin Rashid Al Maktoum ter convencido os outros líderes emiradenses a reinstalar o sultão deposto bin Muhammad Al-Qasimi.

Contexto Os Emirados Árabes Unidos foram formados em 2 de dezembro de 1971, como uma federação dos emirados constituintes dentro do protetorado britânico dos Estados da Trégua. Sheikh ‘Abd al-‘Aziz bin Muhammad al-Qasimi era o herdeiro aparente do trono de Sharjah. No entanto, após seu irmão, Khalid bin Mohammed Al Qasimi, ter sido morto durante a tentativa fracassada de golpe de Estado de Saqr bin Sultan Al Qasimi, em 1972, ‘Abd al-‘Aziz foi preterido em favor de seu irmão mais novo, Sultan bin Muhammad Al-Qasimi. Apesar de ter sido preterido para o cargo de Emir, na época do golpe, ‘Abd al-‘Aziz era o Comandante da Guarda Amiri de Sharjah, as forças armadas de Sharjah, e o Presidente da Câmara de Comércio de Sharjah. Na altura do golpe, diplomatas emiradenses afirmaram publicamente que ‘Abd al-‘Aziz estava a planejar o golpe “por anos”.

Sharjah é o terceiro maior emirado dos Emirados Árabes Unidos, com uma população de 220.000 habitantes. Toda a economia do emirado era baseada na extração e refino de petróleo e outros combustíveis fósseis, como o gás natural. Assim, quando os preços do petróleo despencaram em 1986, o emirado ficou com uma dívida de cerca de 1 bilhão de dólares americanos. Especialistas da época, como o Middle East Research and Information Project, relataram que o golpe foi menos motivado por ambição pessoal e mais voltado para uma gestão econômica mais racional, com maior participação da população. A ajuda do governo emiradense aos emirados mais pobres do norte foi drasticamente reduzida e Sharjah ganhou a reputação de ser o mais linha-dura dos emirados quando a venda e o consumo de álcool foram proibidos em 1985, causando prejuízos aos negócios e ao turismo internacionais, que os outros emirados utilizavam para reforçar suas próprias finanças, levando à recusa de investimentos e estabelecimento de empresas nos Emirados Árabes Unidos.

Golpe Na madrugada de 17 de junho de 1987, enquanto Sultan estava em uma de suas muitas viagens à Grã-Bretanha, forças leais a ‘Abd al-‘Aziz tomaram e fortificaram a corte do Emir, de modo que, quando a população acordou pela manhã, encontrou-a cercada por soldados em trincheiras, metralhadoras montadas em jipes, helicópteros patrulhando o ar e atiradores de elite no telhado. ‘Abd al-‘Aziz também contou com o apoio da polícia local de Sharjah, que manteve manifestantes e lealistas longe da corte do Emir. Os conspiradores posicionaram tropas em cruzamentos importantes por toda a cidade e até instalaram peças de artilharia perto de prédios governamentais, mas não interferiram na vida cotidiana dos cidadãos de Sharjah e permitiram o livre transporte de pessoas e materiais para dentro e para fora do Emirado, com jornalistas observando uma atmosfera geral de calma e paz na cidade. No entanto, o Aeroporto Internacional de Sharjah foi fechado e o Dar Al Khaleej, o maior jornal de Sharjah, foi fechado e desapropriado pelos conspiradores, com os repórteres fugindo para Dubai.

Logo pela manhã, ‘Abd al-‘Aziz disse à Emirates News Agency que seu irmão havia renunciado ao cargo de xeique a pedido de sua família, após admitir grave má gestão financeira. A esposa de Sultan, que estava em Dubai na ocasião, negou prontamente isso às autoridades emiradenses, e Sultan foi levado às pressas para Dubai pouco depois para condenar o golpe. ‘Abd al-‘Aziz anunciou que os conselheiros corruptos desperdiçaram dinheiro público em férias caras na Europa e na América para suas famílias e até mesmo usaram dinheiro público para jogos de azar, e que sob sua liderança ele lutaria pelas viúvas, trabalhadores e endividados. Apesar de sua mensagem pró-classe trabalhadora, a plataforma de ‘Abd al-‘Aziz não repercutiu na população majoritariamente conservadora de Sharjah, e ele obteve pouco apoio popular. No entanto, recebeu apoio da elite empresarial do Emirado, que apoiava sua visão econômica secular e pró-turismo. No decorrer do golpe, também ficou claro que ‘Abd al-‘Aziz não conseguiu conquistar o apoio de toda a Guarda Amiri de Sharjah, o exército permanente de Sharjah, que era composto por cerca de 2.400 membros. Um terço, ou 800, juntaram-se a ‘Abd al-‘Aziz, enquanto outros 800 eram pró-Sultan e os restantes 800 eram leais ao governo federal emiradense. No entanto, parecia que os líderes dos Emirados estariam dispostos a reconhecê-lo e aceitá-lo como o novo líder de Sharjah, com Zayed bin Sultan Al Nahyan, xeique de Abu Dhabi e então Presidente dos Emirados Árabes Unidos, aparentemente apoiando o golpe como uma forma de reduzir a influência política de Dubai e a dívida de Abu Dhabi, porém, recuou depois que ficou claro que ‘Abd al-‘Aziz estava isolado tanto internacionalmente quanto internamente. A Reuters descreveu o golpe como um evento político que definiu uma geração para os residentes de Sharjah, mas que foi em grande parte uma luta pelo poder entre Abu Dhabi e Dubai. Além disso, Saqr bin Mohammed Al Qasimi, governante de Ras Al Khaimah, também apoiou a tentativa golpista em um esforço para fundir os dois ramos dos Al Qasimi em um único emirado.

À meia-noite do dia 18 de junho, ficou claro que a liderança dos Emirados Árabes Unidos se opunha unanimemente a ‘Abd al-‘Aziz e tomaria medidas para reinstalar seu irmão. ‘Abd al-‘Aziz mudou sua mensagem, passando a defender um governo conjunto com seu irmão e a exigir o estabelecimento de um parlamento democrático eleito diretamente em Sharjah, bem como o controle pessoal sobre os departamentos de petróleo e finanças de Sharjah. Nessa altura, os meios de comunicação ocidentais começaram a dar atenção ao desenrolar da situação, com o The Washington Post sugerindo, em 20 de junho, que o golpe poderia levar a uma guerra entre os Emirados, Dubai e Abu Dhabi, o que os Emirados Árabes Unidos negaram "categoricamente". Além disso, a mensagem pró-trabalhadores de ‘Abd al-‘Aziz, juntamente com o uso de equipamentos excedentes soviéticos por seus soldados, levou muitos a temer que o golpe tivesse sido orquestrado pela União Soviética.

Mohammed bin Rashid Al Maktoum, então Ministro da Defesa dos Emirados Árabes Unidos, é creditado pela maior parte do progresso durante a negociação, e por fazer com que Zayed abandonasse ‘Abd al-‘Aziz, bem como por redigir a proposta de acordo e atuar como principal negociador na corte do Emir. Além disso, os Emirados Árabes Unidos foram pressionados pela Arábia Saudita a resolver a disputa diplomaticamente antes da assembleia geral da Organização dos Países Exportadores de Petróleo em Viena naquele ano. Em 21 de junho, o Conselho Supremo Federal sancionou um acordo com ‘Abd al-‘Aziz, pelo qual ele e suas forças entregariam suas armas e deixariam o palácio; em troca, ‘Abd al-‘Aziz renunciaria às suas reivindicações sobre Sharjah e seria nomeado príncipe herdeiro, ou vice-emir, um título que seria herdado por seu filho, e todos os participantes do golpe receberam anistia geral. ‘Abd al-‘Aziz aceitou o acordo em 24 de junho e saiu da corte do emir com seu filho e líderes militares.

Consequências O primeiro golpe de Estado na região do Golfo Pérsico desde a crise petrolífera de 1973 levou analistas estrangeiros a especularem que o golpe poderia significar o fim dos Emirados Árabes Unidos como um todo, com a federação de 16 anos quase se desintegrando devido às rivalidades entre os emirados. Analistas especularam que este golpe resultaria, no mínimo, em uma redução na produção de petróleo em todo o Golfo Pérsico. Sultan ficou profundamente perturbado com o precedente estabelecido pelo acordo de anistia do Conselho Supremo Federal, afirmando que isso causaria uma “situação centro-americana no Golfo”, abrindo a região para golpes frequentes e intervenção estrangeira. Um comitê dos emires de Ras Al Khaimah, Ajman e Fujairah, liderado por Hamdan bin Rashid Al Maktoum, investigou a causa do golpe e estabeleceu medidas para garantir que quaisquer tentativas subsequentes fossem malsucedidas. Após o golpe fracassado, Sultan expurgou sua própria guarda e, em alternativa, contratou a guarda do emirado de Dubai para sua proteção pessoal. Sultan também passou vários meses após o golpe vivendo em Dubai, alegando que era para sua segurança e a de sua família.

A luta pelo poder entre os dois irmãos continuaria em uma trégua instável. Esta chegaria ao fim quando `Abd al-`Aziz bin Muhammad Al Qasimi morreu de causas naturais em 23 de janeiro de 2005. Antes disso, a disputa praticamente terminou com a morte do filho e herdeiro de Sultan em 1999, com um candidato de consenso de um ramo distante da família sendo nomeado herdeiro aparente. Essa situação seria consolidada com a morte, em 2019, do outro único filho de Sultan e a nomeação, em 2021, de Sultan bin Ahmed Al Qasimi como príncipe herdeiro, ou vice-líder. O golpe seria em grande parte esquecido na sequência da Guerra do Golfo apenas três anos depois.

Nota

Categoria:Golpes de Estado nos Emirados Árabes Unidos Categoria:Conflitos em 1987