As políticas administrativas de Ali destacam as medidas adotadas por Ali, genro e primo do profeta islâmico Maomé (m. 632). Ali é reconhecido como o primeiro imam xiita e o quarto califa ortodoxo. Ele foi aclamado califa em 656, após o assassinato de seu predecessor Otomão, morto por rebeldes egípcios em meio a acusações generalizadas de nepotismo, injustiça e corrupção. Ao ascender ao poder, Ali promoveu mudanças radicais, e suas políticas estritamente igualitárias lhe granjearam o apoio de grupos desfavorecidos, ao mesmo tempo que alienaram a poderosa tribo dos coraixitas, alguns de cujos membros se revoltaram contra ele sob o pretexto de vingar a morte de Otomão, na Batalha do Camelo (656) e na prolongada Batalha de Sifim (657). Esta última terminou em arbitragem e levou à formação dos carijitas, um de cujos membros é considerado responsável pelo assassinato de Ali em 661. Para alguns autores, o breve califado de Ali caracterizou-se por sua honestidade, sua devoção inflexível ao Islã, seu tratamento igualitário dos apoiadores e sua magnanimidade para com os inimigos derrotados; outros, porém, criticam suas políticas por excessivo idealismo e falta de pragmatismo político.
Justiça
A islamóloga Laura Veccia Vaglieri (m. 1989) descreve Ali como profundamente devotado à causa do Islã, visão compartilhada por outros autores. O breve califado de Ali foi, assim, marcado por sua justiça rigorosa, segundo vários estudiosos, entre eles Reza Shah-Kazemi, Wilferd Madelung, Moojan Momen, Mahmoud M. Ayoub (m. 2021), John Esposito, e Hassan Abbas, entre outros. Em seu discurso inaugural, Ali repreendeu os muçulmanos por se afastarem do caminho reto após Maomé, e enfatizou a necessidade de promover os virtuosos e afastar os indignos. Ele também prometeu recuperar as terras públicas concedidas por Otomão durante o seu califado.
Determinado a restaurar sua visão de um governo de inspiração profética, Ali implementou políticas radicais durante seu califado, que o estudioso xiita Muhammad H. Tabatabai (m. 1981) descreve como "revolucionárias". O califa destituiu imediatamente quase todos os governadores que haviam servido sob Otomão, explicando que homens como aqueles não deveriam ocupar qualquer cargo público; foram substituídos por indivíduos considerados piedosos, em grande parte oriundos dos ançares e dos haxemitas. Ali também distribuiu os recursos do tesouro de forma igualitária entre os muçulmanos, aparentemente seguindo a prática de Maomé. Afirma-se que demonstrou tolerância zero à corrupção, como evidenciado em suas instruções ao seu comandante Maleque Alastar (m. 657), bem como em suas cartas de admoestação a seu oficial Ziade ibne Abii, e a seu primo Ibne Abas.
Visões modernas
Foram talvez essas políticas radicais de Ali que levaram os descontentes a se rebelar sob o pretexto de vingar Otomão, entre eles Moáuia, ex-governador da Síria sob Otomão. Veccia Vaglieri critica, assim, o "rigorismo excessivo" de Ali, acrescentando que lhe faltava flexibilidade política. Madelung vê de modo semelhante essas políticas como indício de ingenuidade política e de recusa em sacrificar princípios em nome da conveniência. Mahmoud M. Ayoub considera que Ali não era politicamente ingênuo, mas idealista, observando que sua retidão inflexível e suas políticas estritamente igualitárias alienaram os árabes e, em particular, a poderosa tribo dos coraixitas. Ambos os autores, contudo, reconhecem que essas qualidades também transformaram Ali em um modelo de virtudes islâmicas para seus seguidores. Em sua defesa, Tabatabai e Ayoub sustentam que Ali governou com retidão, e não com oportunismo político.
Ayoub sugere ainda que a flexibilidade política era uma característica de Maomé, posição rejeitada por Tabatabai, que afirma que o Islã jamais permite compromissos em uma causa justa, citando o versículo 68:9: "Desejam que tu transijas, para que eles também transijam". Para sustentar sua visão, Tabatabai observa que Maomé rejeitou repetidamente propostas de paz de seus inimigos que implicavam tolerar seus deuses. Nesse sentido, Shah-Kazemi escreve que Maomé de fato nomeou alguns de seus antigos inimigos para cargos de liderança, mas apenas para lhes dar a oportunidade de se redimirem após aceitarem o Islã, sem comprometer seus princípios. Em contraste, confirmar no cargo aqueles que Ali havia destituído equivaleria a tolerar sua corrupção e a minar a base moral de seu califado. Alternativamente, Ali Bahramian propõe que a substituição dos governadores era a única opção disponível para Ali, tanto em princípio quanto na prática, pois a injustiça era a principal queixa dos rebeldes provinciais.
Políticas fiscais thumb|Moeda cunhada durante o Califado de Ali em Bixapur, em 36 AH/656 EC
Ali se opunha ao controle centralizado das receitas provinciais. Também distribuía de forma igualitária os impostos e os espólios entre os muçulmanos, seguindo o precedente de Maomé. Ayoub e Jafri escrevem que Ali distribuía o conteúdo do tesouro de Cufa todas as sextas-feiras. Essa prática pode indicar as concepções igualitárias de Ali, que assim tentou desfazer a ordem social estabelecida sob seus predecessores: Omar distribuía as receitas do Estado de acordo com o mérito islâmico percebido e a precedência, o que, contudo, levou a diferenças de classe na comunidade islâmica, colocando os coraixitas acima do restante dos árabes, e os árabes acima dos não árabes. Aparentemente, Omar mais tarde veio a lamentar esse sistema, que substituiu o princípio corânico da igualdade entre os fiéis. Por sua vez, Otomão foi amplamente acusado de nepotismo e corrupção. Durante o seu califado, as elites tribais retornaram ao poder em detrimento dos primeiros muçulmanos.
O afastamento de Ali do status quo na distribuição das receitas atraiu particularmente os imigrantes tardios para o Iraque, entre os quais se encontravam os convertidos não árabes de Cufa, para os quais Ali defendia uma visão universalista do Islã que lhes concedia direitos iguais. De modo mais geral, as políticas igualitárias de Ali lhe granjearam o apoio de quase todos os grupos desfavorecidos, incluindo os ançares, que haviam sido marginalizados após Maomé pela liderança coraixita, e os qurra (), que buscavam uma liderança islâmica piedosa. Este último grupo de primeiros muçulmanos interessava-se em restaurar a ordem social de Omar e via em Ali sua melhor esperança para alcançar esse objetivo. Em contraste, Talha e Azobair eram ambos coraixitas, companheiros de Maomé, que haviam acumulado imensa riqueza sob Otomão. Ambos se revoltaram contra Ali depois que o califa se recusou a conceder-lhes favores. Algumas outras figuras entre os coraixitas também se voltaram contra Ali pela mesma razão, escrevem Ayoub e John McHugo. Diz-se que Ali chegou a rejeitar um pedido de seu irmão Aquil por fundos públicos, ao passo que Moáuia prontamente lhes oferecia subornos. Em comparação, Ali continuou a pagar aos carijitas suas cotas do tesouro mesmo depois de se rebelarem contra ele. No que diz respeito à tributação, Ali instruiu seus oficiais a recolher os pagamentos de forma voluntária e sem assédio, e a priorizar os pobres na distribuição dos recursos. Ali preocupava-se com a agricultura, sugere Ann Lambton, e instruiu Maleque Alastar, em uma carta, a dar mais atenção ao desenvolvimento das terras do que à tributação de curto prazo.
Ciências islâmicas
Tabatabai sustenta que as ciências islâmicas foram amplamente negligenciadas durante as conquistas muçulmanas, em razão da imensa riqueza material que estas trouxeram. Acrescenta que, após Maomé, também teria sido proibido registrar por escrito seus ditos (s), citando o sunita Atabari e Ibne Sade (m. 845). Em contraste, escreve Tabatabai, Ali utilizou seu governo para difundir as ciências islâmicas, sendo pioneiro na gramática árabe e na metafísica islâmica. Shah-Kazemi sugere que os sermões públicos atribuídos a Ali no Nahj al-Balagha vão além de atender às necessidades éticas e religiosas básicas da comunidade muçulmana, pois estão repletos de ensinamentos esotéricos mais elevados. Para demonstrar a dedicação de Ali ao conhecimento (ilm), Shah-Kazemi destaca sua resposta, durante a Batalha do Camelo (656), a uma pergunta sobre a unicidade de Deus (tawhid): "Aquilo que não tem segundo (Deus) não entra na categoria do número." Ali também formou alunos, entre os quais se encontram os primeiros eruditos em jurisprudência, teologia, exegese e recitação corânicas, bem como os antepassados do Sufismo, incluindo Uais Alcarani, , , Roxaide Alhajari, Haçane de Baçorá e .
Regras de guerra thumb|Dulfacar com e sem o escudo. A representação fatímida da espada de Ali tal como esculpida nos portões da antiga Cairo, Babe Anácer thumb|Combate entre as forças de Ali e Moáuia durante a Batalha de Sifim, a partir do Tarikhnama
Ali é considerado uma autoridade sobre as regras da guerra intra-muçulmana na jurisprudência islâmica. Ele proibiu os combatentes muçulmanos de saquear, e, em vez disso, distribuiu igualmente os impostos como salários entre seus soldados. Essa decisão provavelmente se tornou um ponto de disputa entre Ali e aqueles que mais tarde formariam os carijitas. Antes da Batalha do Camelo (656), Ali também proibiu perseguir os fugitivos, matar os prisioneiros e despachar os feridos. Com essas decisões, Ali reconheceu os direitos dos rebeldes enquanto muçulmanos, ainda que fossem considerados uma ameaça à ordem. Ali também os perdoou após a vitória, e essas práticas logo foram incorporadas ao direito islâmico, por exemplo, nas decisões do proeminente jurista sunita Maomé Axaibani (m. 805) sobre rebeliões.
Além dessas medidas, Ali é frequentemente lembrado por sua magnanimidade para com os inimigos derrotados, impedindo a escravização de mulheres e crianças na vitória, ainda que alguns protestassem. Ele aconselhou Alastar a não rejeitar nenhum chamado à paz e a não violar acordos, advertiu-o contra o derramamento ilícito de sangue, exortou-o a recorrer à guerra apenas quando as negociações fracassassem, e a evitar iniciar hostilidades, algo que o próprio Ali observou. Ele proibiu seus comandantes de molestar civis, exceto quando perdidos ou em extrema necessidade de alimento, e vedou às tropas matar feridos e fugitivos, mutilar os mortos, entrar em casas sem permissão, saquear e causar dano às mulheres. Antes da Batalha de Sifim (657), Ali não privou os sírios de água potável, embora estes anteriormente o tivessem feito com suas tropas. Na opinião de Kelsay, os textos atribuídos a Ali e suas práticas indicam que ele via a reconciliação como o objetivo final da guerra intra-muçulmana, em consonância com os versículos 49:9–10 do Alcorão.
Austeridade