O Navio Presidente Vargas foi um navio de passageiros brasileiro, pertencente ao Serviço de Navegação na Amazônia e Administração do Porto do Pará (SNAPP). A embarcação foi construída em Amsterdã, nos Países Baixos. Sua construção começou em 1953 e seu lançamento ao mar ocorreu em 1955.
Em 4 de junho de 1972, durante uma viagem entre Belém e Soure, a embarcação naufragou nas proximidades de Soure, por volta das 21h00. Não houve. vítimas, e os 66 ocupantes foram resgatados com vida.
Construção A construção do Navio Presidente Vargas teve início em 1953 e foi concluída em 1954, em um estaleiro de Amsterdã, nos Países Baixos. Em 1955, a embarcação foi conduzida até Belém para ser incorporada à frota do SNAPP.
A aquisição integrou o processo de renovação da frota da autarquia, financiado com recursos da Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA), dando origem à chamada "Frota Branca".
Frota Branca A chamada Frota Branca era composta pelos navios Lauro Sodré, Lobo d’Almada, Leopoldo Peres, Augusto Montenegro e Presidente Vargas, sendo este último descrito por fontes da época como o mais rápido e luxuoso do grupo.
Características O navio operava na linha Belém-Mosqueiro-Soure desde 1955 e integrava a chamada "Frota Branca". A embarcação foi fabricada em Amsterdã, nos Países Baixos, e era equipada com dois motores da marca Sulzer.
Possuía três classes de passageiros — econômica, especial e turística. A classe econômica contava com janelas arredondadas de vidro espesso; a classe especial, com poltronas de couro, tapete vermelho e uma sala de jogos; e a classe turística era ventilada e equipada com cadeiras de ferro.
Na parte superior, havia camarotes com bicamas, destinados principalmente à tripulação, mas que eventualmente podiam ser utilizados por passageiros. A embarcação dispunha ainda de um bar que também funcionava como lanchonete a bordo.
Na área posterior aos camarotes, existia um espaço destinado ao transporte de veículos, com capacidade para até dois automóveis. Na popa, localizavam-se os botes salva-vidas.
Inicialmente, o navio pertenceu à Empresa de Navegação da Amazônia S.A. (ENASA), sendo posteriormente adquirido pelo extinto SNAPP. Histórico
Participação em eventos históricos Em fevereiro de 1956, o Navio Presidente Vargas foi utilizado em uma operação logística do governo federal durante a crise militar de Jacareacanga, no contexto do governo do presidente Juscelino Kubitschek.
A embarcação transportou tropas do Exército de Belém até Santarém, onde se concentravam ações destinadas à repressão do movimento rebelde liderado por oficiais da Aeronáutica. Após o fim do levante, o navio retornou a Belém trazendo militares presos, entre eles um dos líderes do movimento.
Viagem inaugural Durante sua primeira viagem oficial, o navio realizou o percurso entre Belém, Mosqueiro e Soure, transportando autoridades, convidados e representantes da imprensa, marcando o início de suas operações regulares na região amazônica.
Incidentes Em 1969, ocorreu um homicídio a bordo do Navio Presidente Vargas durante uma viagem entre Soure e Belém, com escala na ilha de Mosqueiro. De acordo com registros da época, o crime teria sido motivado por uma discussão entre dois passageiros, que evoluiu para agressão física.
A vítima foi atingida por golpes de arma branca e morreu a bordo da embarcação. O local do crime foi isolado, e uma autoridade judiciária que se encontrava no navio determinou a prisão do suspeito. Na tentativa de fuga, o agressor lançou-se nas águas do Rio Paracauari, mas foi capturado posteriormente, após o retorno da embarcação a Soure.
Em decorrência do incidente, a viagem foi interrompida, e os passageiros precisaram remarcar o deslocamento.
Naufrágio O naufrágio ocorreu no domingo, 4 de junho de 1972. O navio partiu de Belém às 18h, com destino a Soure. Durante a aproximação da embarcação ao município, já no período noturno, iniciou-se um chuvisco.
Por volta das 21h, quando o navio se preparava para atracar no trapiche de Soure, os cabos já haviam sido fixados à estrutura. Após uma manobra de marcha à ré, foi ouvido um forte ruído anormal, e o primeiro maquinista informou ao comandante Alberto Costa que a água estava invadindo a casa de máquinas, ocasionando a parada dos motores e a interrupção da iluminação da embarcação.
Diante da situação, foi ordenado o abandono da embarcação, e todos os 66 passageiros a bordo deixaram o navio em segurança. Cabos de aço, presos ao trapiche e a pontos em terra firme, foram utilizados na tentativa de conter o afundamento.
Apesar das medidas adotadas, a água continuou a invadir o casco, fazendo com que o navio adornasse gradualmente, suspendendo a proa antes de submergir. Inicialmente, parte do casco visível no Rio Paracauari.
Resgate e atendimento Autoridades locais, incluindo representantes do poder público municipal, da Igreja e das forças de segurança, acompanharam o ocorrido. Em razão da interdição do trapiche de Soure e da área de atracação, os passageiros que pretendiam seguir viagem foram transportados em pequenas embarcações até o navio Augusto Montenegro, enviado em viagem emergencial para atender à demanda.
Consequências Poucos dias após o naufrágio, a ENASA suspendeu temporariamente a linha Belém–Mosqueiro–Soure. A interrupção afetou a mobilidade da população local, especialmente no município de Soure, que permaneceu sem ligação fluvial regular com Belém por cerca de um mês.
Durante esse período, o deslocamento entre as cidades ficou restrito a voos ocasionais de táxi aéreo, com capacidade limitada. As operações fluviais foram retomadas posteriormente com o navio Fortaleza, que passou a atender a rota.
Tentativas de salvamento Após o naufrágio, a população de Soure aguardava que a embarcação fosse resgatada, especialmente pelo fato de o navio ter passado recentemente por manutenção. Surgiram questionamentos sobre como o Presidente Vargas havia navegado normalmente pela Baía do Marajó e, ainda assim, afundado no Rio Paracauari.
A ENASA adotou as primeiras providências, enviando técnicos e um engenheiro ao local. Mergulhadores da Marinha do Brasil realizaram inspeções subaquáticas, embora as condições de trabalho fossem dificultadas pela baixa visibilidade, causada pelas águas barrentas e pelas fortes correntes do rio.
Foram realizadas sondagens para determinar a posição exata da embarcação. Segundo laudo técnico da ENASA, o casco permanecia intacto, e a provável causa do naufrágio teria sido uma falha no sistema de embuchamento de uma das hélices. De acordo com o relatório, durante a manobra de marcha à ré, o deslocamento do cilindro da hélice teria provocado a saída da bucha, permitindo a entrada de água pelo tubo do eixo propulsor, agravada pelo desprendimento da gaxeta.
A Marinha do Brasil informou que a operação de salvamento exigiria elevado investimento financeiro e dependeria de estudos de viabilidade econômica, cuja decisão caberia à ENASA. Enquanto se aguardava uma definição, o navio permaneceu parcialmente submerso no Rio Paracauari, preso por cabos de aço para evitar deslocamentos.
Posteriormente, a ENASA anunciou a realização da operação de salvamento, contratando as empresas Camilo Nasser Engenharia, de Belém, e M. Moutinho Máquinas Industriais, do Rio de Janeiro. O plano previa a vedação de vigias e escotilhas, a retirada de lama por meio de bombas de sucção e a injeção de material expansivo (styropor) no interior do casco para promover a reflutuação da embarcação.
Os trabalhos se estenderam pelos meses de julho a dezembro de 1972, com atrasos na entrega dos materiais necessários. Em 30 de dezembro, teve início a operação de injeção do styropor, porém o procedimento foi interrompido após o rompimento de um duto na casa de máquinas, causado pela pressão do ar comprimido. Diante da complexidade do problema, o engenheiro responsável decidiu adiar a retomada das operações para o ano seguinte.
Em 2 de janeiro de 1973, cerca de sete meses após o naufrágio, a operação de salvamento do Presidente Vargas foi retomada. Àquela altura, parte da população já demonstrava descrença quanto à possibilidade de recuperação da embarcação e à sua eventual retomada na linha Belém–Mosqueiro–Soure.
No dia 6 de janeiro, moradores que acompanhavam os trabalhos a partir do cais de Soure observaram que o navio começou a emergir lentamente, chegando a elevar-se aproximadamente dois metros acima do nível da água. O episódio gerou grande expectativa e atraiu numeroso público ao entorno do trapiche. Apesar disso, a embarcação não conseguiu reflutuar completamente, e, em 9 de janeiro, a operação foi novamente interrompida devido a vazamentos no sistema de ar comprimido utilizado no procedimento.
Novas tentativas foram realizadas com o emprego de balões de ar, porém os avanços foram limitados. Segundo o engenheiro responsável, os sucessivos problemas técnicos tornaram a operação lenta e ineficaz, além de haver limitações nos recursos disponíveis. Também foi apontado que a quantidade de material expansivo (styropor) utilizada não teria sido suficiente para garantir a emersão total do navio.
Posteriormente, surgiram informações de que a embarcação teria sido adquirida pela empresa JONASA. A nova tentativa de salvamento passou a ter como objetivo principal a retirada dos dois motores do navio, considerados de alto valor e qualidade, para reaproveitamento em outras embarcações. Para isso, foram empregados guinchos, tambores de ar e mergulhadores, embora diversos problemas técnicos tenham ocorrido durante os trabalhos.
Em determinado momento, a operação foi definitivamente encerrada por decisão superior, sob a justificativa de que o navio se encontrava cada vez mais instável e distante de uma recuperação viável. Uma balsa foi enviada para retirar os equipamentos utilizados. Ao final, apenas itens como correntes e a âncora teriam sido removidos da embarcação.
Consideração À época, o Presidente Vargas era avaliado em aproximadamente quinhentos milhões de cruzeiros e estimava-se que sua recuperação e restauração exigiriam investimentos ainda maiores, somados aos custos já empregados nas tentativas de reflutuação. Esses fatores teriam pesado na decisão de abandono definitivo da embarcação.
Impactos econômicos e sociais O naufrágio do Presidente Vargas causou impactos significativos em Soure. A suspensão temporária da linha Belém–Mosqueiro–Soure reduziu o fluxo de passageiros e mercadorias, afetando o comércio local e o turismo. O navio também transportava cargas essenciais, incluindo produtos alimentícios e carnes provenientes das fazendas da região, destinadas ao mercado de Belém.
Durante o período em que o navio permaneceu submerso, moradores acompanharam diariamente as tentativas de salvamento, e autoridades locais pressionaram a ENASA por uma solução rápida, diante da importância da embarcação para a economia e a mobilidade da população.
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