O Hospital da Confraria de Nossa Senhora da Nazaré localiza-se no núcleo urbano do Sítio, na vila da Nazaré, Portugal, implantado num terreno de declive acentuado contíguo ao Santuário de Nossa Senhora da Nazaré. Trata-se de um equipamento de saúde cujas actuais instalações resultam da adaptação oitocentista de uma estrutura pré-existente e de sucessivas ampliações modernas, desempenhando funções assistenciais sob a égide da Confraria local, após períodos de administração estatal.
História A génese da assistência hospitalar associada a esta instituição remonta ao início do século XVI, operando originalmente em dependências anexas à Igreja da Misericórdia, na Pederneira. A antiguidade desta ligação é atestada por José d’Almeida Salazar na obra Memórias da Real Casa de N. Senhora da Nazareth (Tomo I), onde regista que a Rainha D. Leonor confirmou a doação do dízimo do pescado feita pelo Cardeal D. Jorge da Costa:VEIO AQUELA SENHORA [RAINHA DONA LEONOR] A N. SENHORA DE NAZARETH, E […] CONFIRMOU A DOAÇÃO QUE O CARDEAL D.JORGE DA COSTA, SENDO ABADE DE ALCOBAÇA, FEZ DA REDIZIMA DO DIZIMO DO PESCADO DESTE PORTO AO HOSPITAL DA PEDERNEIRA, TÃO ANTIGO ELLE É!A transferência e fixação definitiva no Sítio da Nazaré deveu-se à extinção da Santa Casa da Misericórdia da Pederneira e à subsequente integração do hospital na Real Casa da Nazaré, oficializada por portaria de 27 de Junho de 1877. O imóvel escolhido para acolher a unidade sanitária foi a antiga Casa dos Capelães do Santuário, edifício que servira igualmente de alojamento à Família Real nas suas deslocações ao local, num período anterior à edificação do Paço Real.
O processo de adaptação do edifício conheceu fases distintas. Em Novembro de 1874, um primeiro projecto elaborado pelo engenheiro Jaime Augusto da Silva foi submetido à Junta Consultiva de Obras Públicas. Esta proposta, orçada em 3.800$000 réis, previa um edifício de 40 metros por 10,60 metros, comportando duas grandes enfermarias (9,20m x 8,40m), duas menores, quartos particulares e diversas áreas de serviço, incluindo cozinha e banhos. Contudo, o projecto definitivo de transformação da antiga casa do reitor (Capelães) em hospital civil, assinado por Francisco José de Sá, dataria de 3 de Junho de 1877. A tomada de posse pela Real Casa ocorreu a 30 de Julho desse ano, culminando na inauguração em 1878, data inscrita no frontão do edifício.
A transição para o século XX trouxe desafios estruturais e administrativos. Em 1893 foi estabelecido o regulamento de admissão de doentes e, no início do novo século, as instalações enfrentaram grave degradação, com registos de 1905 e 1906 a indicarem o risco de derrocada das enfermarias. As obras de reconstrução iniciaram-se em 1907, ano em que se instituíram consultas gratuitas para os pobres. A componente assistencial foi reforçada em 1936 com a chegada das Irmãs Enfermeiras, cuja residência foi adaptada no edifício em 1943.
A evolução tecnológica e o apetrechamento da unidade foram constantes ao longo de meados do século XX. Destacam-se a aquisição de um fogão (1945), a inauguração do bloco operatório em Junho de 1947 e a compra de equipamentos cruciais como um vaporizador Oxford para anestesia a éter, aparelhos de raios X e equipamento eléctrico para correntes galvânicas. O hospital desempenhou um papel fulcral durante surtos epidemiológicos, tendo aberto de emergência em Maio de 1948 para acolher doentes com febre tifóide. A infra-estrutura física foi também beneficiada, com a instalação de um elevador oferecido por Amadeu Gaudêncio em 1966 e a criação do serviço de Urologia em 1970.
A gestão da unidade sofreu alterações profundas no pós-25 de Abril. O hospital foi nacionalizado em 1975 e a sua posse entregue a uma Comissão Instaladora no ano seguinte. Com a criação do Serviço Nacional de Saúde em 1979 e a integração na Administração Regional de Saúde de Leiria em 1982, a instituição perdeu a sua autonomia de cariz social, funcionando como unidade de internamento estatal. A reversão deste processo iniciou-se em 1992, por intermédio do então Ministro da Justiça, Álvaro Laborinho Lúcio. As negociações culminaram na assinatura de um contrato de gestão a 28 de Novembro de 1992, devolvendo a administração à Confraria. A reinauguração oficial ocorreu a 8 de Dezembro de 1993, com a presença dos ministros da Saúde e da Justiça.
Na contemporaneidade, o hospital adaptou-se às novas políticas de saúde, integrando a Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI) a partir de 2007, após protocolo com os ministérios da tutela. Esta valência inclui Unidades de Média Duração e Reabilitação e de Longa Duração e Manutenção, complementadas por internamento particular, cirurgia e um centro de exames de diagnóstico.
Descrição O complexo hospitalar apresenta uma planta composta, resultante da articulação entre o corpo principal rectangular oitocentista e volumes adossados de traça moderna. O núcleo original desenvolve-se em torno de um pátio central descoberto e exibe uma volumetria de dois pisos, rematada por coberturas diferenciadas de três e quatro águas.
A fachada principal, orientada a Este, organiza-se em três panos verticais delimitados por pilastras, com um soco de cantaria e remate superior em cornija e platibanda plena, ritmada por acrotérios e almofadas de ângulos recortados. O pano central destaca-se pelo frontão triangular que coroa o conjunto, cujo tímpano exibe o brasão com as armas nacionais. No piso térreo, a fenestração original composta por portais foi parcialmente alterada; o portal central mantém a verga recta e moldura almofadada, enquanto os vãos laterais, outrora portas, foram convertidos em janelas de peitoril, preservando as molduras em cornija. O piso superior ostenta janelas de varandim com guardas em ferro forjado de decoração fitomórfica.
As ampliações do século XX introduziram uma linguagem arquitectónica distinta nos alçados Norte e Oeste. O corpo adossado à direita (Norte), correspondente ao antigo serviço de urgências e actual entrada, apresenta um recuo face ao plano da fachada principal e é rematado por cornija em betão. Possui um soco em cantaria rusticada com juntas pintadas de branco e vãos rectilíneos desprovidos de moldura. Uma terceira ala, disposta perpendicularmente na fachada posterior e adaptada ao declive do terreno, alberga as consultas externas e serviços de fisioterapia, elevando-se até quatro pisos em certas secções e exibindo uma pala de betão sobre o acesso, bem como uma faixa decorativa azul escura ao nível do terceiro piso.
O espaço interior foi objecto de profundas remodelações para cumprir as exigências hospitalares modernas, com pavimentos em mosaico e zonas de serviço revestidas a azulejo. Contudo, no pátio interior lajeado, subsiste um elemento de arqueologia industrial e arquitectónica de relevo: a cisterna da antiga casa do reitor. Esta estrutura possui boca circular em cantaria, tampa de pedra com orifício central quadrangular e uma armação de roldanas em ferro, tendo sido alvo de obras de beneficiação documentadas ainda no século XVIII (1764 e 1768).
Na envolvente exterior, forma-se um amplo pátio frontal, outrora vedado. No ângulo de junção entre o hospital e o Palácio Real, existe uma zona ajardinada delimitada por murete, onde repousa, sobre plinto de mármore, o busto em bronze do médico José Laborinho Marques da Silveira.
O edifício ostenta diversos elementos epigráficos e registos comemorativos na sua fachada e envolvente, nomeadamente:1878 / HOSPITAL DA C.RIA DE NA. SRA. DA NAZARETH [Inscrição no tímpano do frontão principal]
Nª. SRA. DA NAZARETH, PROTEGEI / TODAS AS PESSÔAS QUE N'ESTA / CASA ENTRAREM [Registo de azulejos azuis e brancos junto ao portal principal]Actualmente, a capacidade instalada distribui-se por 49 camas, divididas entre a Unidade de Longa Duração e Manutenção (18 camas), Unidade de Média Duração e Reabilitação (8 camas), Internamento Particular (20 camas) e Unidade de Cirurgia (3 camas), apoiadas por equipas multidisciplinares e serviços auxiliares de diagnóstico.
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