Inru Alcaice I ibne Anre (; m. 328) foi o segundo rei (maleque) do Reino Lácmida, em sucessão a seu pai . Nasceu em data incerta ao longo do . Ascendeu ao trono em 295, após a morte do pai, e governou até 328, como indica seu epitáfio encontrado em Namara, na Síria. Foi mencionado por Hixame ibne Alcalbi como “rei de todos os árabes” e rei de Hira, ainda que como vassalo dos sassânidas. Dando continuidade à política expansionista herdada, ampliou os domínios lácmidas e conduziu uma expedição que alcançou Najrã. Embora o título de “rei de todos os árabes” seja hiperbólico, Inru Alcaice exerceu suserania sobre diversos grupos tribais, incluindo os azeditas do Iêmem e os rebiaítas e os modaritas do grupo nizarita, abrangendo parcela significativa das populações árabes da Arábia.
A presença de seu epitáfio em território sírio, então sob controle do Império Romano, sugere que rompeu a vassalagem aos sassânidas, migrou para áreas romanas e aceitou a suserania imperial. Uma razão plausível para essa deserção foi a expedição punitiva promovida pelo xainxá contra os árabes, que pode tê-lo colocado em conflito direto ao desconsiderar sua posição como rei de Hira e dos árabes, além de indicar uma tentativa de domínio persa direto sobre a Arábia. Em data incerta durante o reinado do imperador , Inru Alcaice teria se convertido ao cristianismo, à semelhança de outros governantes do Oriente Médio e do próprio imperador; essa conversão também pode ter pesado diante do zoroastrismo professado pelos iranianos. Embora seu epitáfio não apresente elementos cristãos explícitos, a conversão é atribuída por Ibne Alcalbi e pode ser explicada por fatores contextuais, incluindo a diversidade doutrinária cristã da região e a possível adesão ao maniqueísmo, tradição protegida por seu pai após a execução de Maniqueu sob os xainxás sassânidas.
Nome
O nome Inru Alcaice () recebeu diferentes explicações. A interpretação teofórica o relaciona a Caice (Qays), nome que a tradição filológica árabe medieval registra como o de um ídolo. Essa interpretação é antiga: Albataliauci, ao comentar o nome do poeta Inru Alcaice ibne Hujer, registra que se dizia que Caice era um ídolo adorado pelos árabes e relata que Alasmai, por essa razão, evitava a expressão yā Imraʾ al-Qays, substituindo-a por yā Imraʾ Allāh. A interpretação de Qays como elemento divino também foi adotada por estudiosos modernos: Julius Wellhausen incluiu a forma grega Amorcesos (, Amorkesos), correspondente a Inru Alcaice, entre os nomes teofóricos árabes, enquanto Edward Lipiński considerou Qays um elemento teofórico presente tanto em Inru Alcaice (Imruʾ al-Qays) como em Abede Alcaice (ʿAbd al-Qays). Albataliauci preserva ainda uma explicação lexical alternativa, segundo a qual qays significaria "dureza" ou "adversidade", de modo que Imruʾ al-Qays significaria "homem da adversidade".
Vida
Família e reinado
Inru Alcaice nasceu em data incerta ao longo do . Sabe-se que era filho de , o fundador do Reino Lácmida e cliente do Império Sassânida. Anre I alegadamente era sobrinho de Jadima Alabraxe, rei dos tanuquitas, o que faz com que Inru Alcaice tivesse parentesco com essa tribo. Por conseguinte, sua mãe chamava-se Mávia e veio da tribo dos azeditas, do Iêmem. Em data incerta, Inru Alcaice casou-se com outra azedita, chamada Hinde. Ascendeu ao trono em 295, após a morte de seu pai, e governou até 328, como indicado pela inscrição (epitáfio) descoberta em Namara, na Síria. Existe a possibilidade de que Inru Alcaice seja o rei Anumane registrado como um dos primeiros reis conhecidos dos tanuquitas. Além de seu parentesco com a realeza tanuquita e a possível menção a ela em seu epitáfio (ver abaixo), sabe-se que o nome Anumane, mais precisamente um apelido (lacabe), era popular entre os reis lácmidas, cuja dinastia por vezes foi referida como numânida (al-Nu'maniyya). Reis árabes podiam ser referidos indistintamente por seus nomes ou por apelidos, a depender da fonte, o que não exclui essa possibilidade.
A tradição literária árabe afirma que o avô de Inru Alcaice era Adi ibne Nácer, enquanto afirma que o tanuquita Anumane era neto de Maleque ibne Fame. Maleque era ancestral comum das famílias lacmita e tanuquita e a lista real tanuquita pode ter simplificado esse fato ao mencionar o nome Anumane, colocando Maleque como seu avô, quando na verdade era seu bisavô. Anumane é identificado pelo patronímico ibne Anre ("filho de Anre"), o que parece reforçar a relação desse nome com o do filho de Anre ibne Adi. O epitáfio de Inru Alcaice menciona que teve filhos, cujos nomes não foram registrados. O trecho em específico da inscrição traz uma raiz que pode ser vocalizada como banībi ("seus filhos") ou bnaybi ("seus dois filhos"), o que deixa dúvidas nesse ponto. Caso a vocalização correta seja bnaybi, ela está de acordo com a tradição, segundo a qual Anumane foi pai de dois reis, Anre e Alhauari. Irfan Shahîd coloca que talvez Anre e Alhauari possam ser os régulos (reguli) que encontraram-se com o imperador Juliano em Circésio durante sua campanha contra o Império Sassânida ou um deles possa ser o rei anônimo, esposo de Mávia. Warwick Ball identificou Alhauari como esposo de Mávia, enquanto Atabari, citando Hixame ibne Alcalbi, comenta que Inru Alcaice foi sucedido por certo filho chamado em Hira.
Os tanuquitas e o grupo tribal de Inru Alcaice, os lacmitas, eventualmente se assentariam em porções distintas da Síria, o que implica que, se a identificação estiver correta, ele foi governante de grupos independentes. Por conseguinte, assumindo sua conversão ao cristianismo, como relatado por Ibne Alcalbi, e sua eventual deserção aos romanos (ver abaixo), o nome Anumane (lit. "o Feliz") pode ter sido adotado pela tradição tardia após sua morte para fazê-lo conhecido por um nome melhor conformado com o cristianismo, em detrimento de Inru Alcaice, que era um nome teofórico pagão. Sua menção no epitáfio como Inru Alcaice se explica, pois era uma inscrição oficial, onde seu nome real foi preferido em detrimento de apelidos.
Deserção aos romanos
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A presença de seu epitáfio na Síria, que à época estava sob controle do Império Romano, indica que ele aparentemente rompeu sua vassalagem aos sassânidas, eventualmente migrou ao território romano, onde se assentou, e aceitou a suserania do imperador. Sua tribo, os lacmitas, em todo ou em parte, migraram com ele. Uma das possíveis razões para sua deserção pode ser a expedição punitiva que o xainxá promoveu contra os árabes. Essa expedição pode tê-lo colocado em conflito com Inru Alcaice, que se considerava o rei das tribos afetadas, o que implicava num desrespeito à sua posição independente como rei de Hira e dos árabes. Além disso, a atuação direta do xainxá nessa campanha, e não indiretamente por meio do Inru Alcaice, pode indicar algum esforço para estabelecer o domínio persa direto sobre a Arábia. Outra possibilidade é que Inru Alcaice possa ter participado da expedição, mas desentendeu-se com Sapor no processo, o que suscitou sua deserção. Em solo romano, embora tenha mantido parte de sua autonomia, provavelmente atuou como federado, recebendo a anona em troca de seus serviços.
Em data incerta ao longo do reinado do imperador , converteu-se ao cristianismo, à semelhança de outros governantes do Oriente Médio e do próprio imperador. Essa conversão também pode ter influenciado sua decisão, pois os iranianos professavam o zoroastrismo. A alegação de que era cristão foi feita por Ibne Alcalbi, mas seu epitáfio carece de elementos cristãos em sua composição. Irfan Shahîd sugeriu que isso se explica por conta de alguns fatores: morreu apenas três anos após o Primeiro Concílio de Niceia de 325, que definiu os cânones da Igreja; e sua origem em territórios fortemente influenciados pelos ensinamentos de Marcião de Sinope e Bardesanes, mais tarde reconhecidos como heresiarcas, que pregavam interpretações desviantes. É também possível, diz Shahîd, que ele tenha aderido ao cristianismo maniqueista, haja vista seu pai ser um conhecido protetor dos maniqueístas após a execução de Maniqueu sob ordens dos xainxás sassânidas.
Expansão territorial
Anre I, pai de Inru Alcaice, fundou o Reino Lácmida nos domínios que herdou de seu tio Jadima Alabraxe e em seu reinado dedicou-se à expansão territorial. Com base em seu epitáfio, é sabido que Inru Alcaice deu prosseguimento a essa expansão, mas é indeterminado o momento que realizou seus empreendimentos militares. Ibne Alcalbi o mencionou como rei de Hira, o que implica que era vassalo do Império Sassânida, mas em data incerta desertaria para o Império Romano. Sua expansão pode ter ocorrido enquanto era vassalo dos sassânidas, ou depois. A inscrição enfatiza que Inru Alcaice era "rei de todos os árabes", uma descrição que, embora hiperbólica, pode ter inspiração em circunstâncias factuais. Ele foi um rei coroado, o que significa dizer que trajava uma coroa, caso a tenha recebido de seu suserano persa, ou uma diadema, se a recebeu de seu suserano romano. Além disso, ele se assumiu não só rei de todos os árabes, mas reis de seus reis (régulos), o que pode indicar que reis locais subordinaram-se a ele. Outrossim, a forma como o texto reforça a relação entre ele e os governantes locais pode ter alguma relação com o título de xainxá (lit. rei de reis) utilizado pelos governantes iranianos, a quem tentou emular.
A inscrição explicita que Inru Alcaice governava sobre "os dois azeditas e os nizaritas". Os primeiros devem ser os azeditas e seu parentes tanuquitas do Iêmem, enquanto os últimos são os rebiaítas e modaritas do grupo nizarita, que em si englobam parte considerável da população árabe da Arábia. É indeterminado, contudo, se essa referência diz respeito à totalidade desses grupos, ou se se trata de grupos destes, assentados na região da Síria sob a confederação dos cudaaítas. De todo modo, o texto segue alegando que ele realizou uma expedição contra os madijitas, que recuaram, alcançou Najrã, e no retorno subjugou os maaditas. Seja como for, o epitáfio enfatiza que Inru Alcaice realizou seu empreendimento rumo a Najrã por conta própria, mas é pouco provável que ele tivesse recursos suficientes para realizar uma expedição tão ao sul, sobretudo contra uma cidade bem fortificada. É mais plausível supor que a expedição fez parte de uma expedição maior, conduzida fosse pelos sassânidas, fosse pelos romanos.
Uma primeira hipótese recai sobre a possibilidade de Inru Alcaice ter aproveitado alguma expedição conduzida pelo Império Sassânida. Existem referências posteriores a ataques dos reis de Hira contra os árabes do sul da península, o que pode sugerir esse cenário, bem como uma obra eclesiástica nestoriana, a respeito do reinado de , que afirma que o xainxá conduziu uma campanha contra o Bilade Alhabaxate (lit. "país dos abissínios"), onde pilhou, incendiou, matou e tomou cativos. Inru Alcaice poderia ter feito parte da campanha, que o levou para perto de Najrã e durante a qual pode atacar a cidade. No entanto, é provável que a fonte confunda a Abissínia com a Arábia, o que afasta essa possibilidade. Embora plausível, uma expedição partindo de Hira nesse contexto é improvável, pois os árabes iamanitas permaneceriam até tardiamente alinhados aos interesses persas contra os romanos (e mais tarde bizantinos), de modo que uma expedição nesse momento é pouco credível.