Povo Alfur (também grafado Alfuru, Alifuru, Alfuros, Alfures, Aliforoes; em neerlandês: Alfoeren; em indonésio: ) é um etnônimo histórico e amplo, aplicado desde o período colonial europeu a diversos povos indígenas do interior do arquipélago das Molucas e de regiões adjacentes do leste da Indonésia.Chris Ballard, “'Oceanic Negroes': British anthropology of Papuans, 1820–1869”, em Bronwen Douglas & Chris Ballard (eds.), Foreign Bodies: Oceania and the Science of Race 1750–1940, Canberra, ANU Press, 2008, p. 184. Disponível em ANU Press.Adolf Bernhard Meyer, Über die Namen Papúa, Dajak und Alfuren, Sitzungsberichte der Philosophisch-Historischen Classe der Kaiserlichen Akademie der Wissenschaften (Wien), vol. 101, 1882, p. 537–552.
Nas fontes históricas, Alfur não designa um único “povo” homogêneo, mas um rótulo genérico para comunidades, em regra não islamizadas nem cristianizadas, que viviam em zonas montanhosas ou florestais de ilhas como Seram, Buru e Halmahera, bem como em partes de Sulawesi e, por extensão, em áreas da Nova Guiné.Anton Ploeg, “De Papoea; What’s in a name?”, The Asia Pacific Journal of Anthropology, vol. 3, n.º 1, 2002, p. 75–101.“Alfur”, em Merriam‑Webster Dictionary. Disponível em: Merriam-Webster.com. Por isso, a literatura antropológica atual tende a tratar Alfur/Alifuru sobretudo como um exônimo colonial e administrativo, de valor etnológico limitado, embora o termo tenha sido ressignificado por alguns movimentos indígenas contemporâneos nas Molucas.Eduardo Erlangga Drestanta, “Customary Village (Desa Adat) and Inter-Ethnic Fragmentations in Seram Island, Maluku”, Archipel, n.º 105, 2023, p. 91–113. Disponível em: Archipel/OpenEdition.Saniri Alifuru (Alifuru Council), Universal Periodic Review Submission – Republic of Indonesia, 3.º ciclo, maio de 2017, p. 1–3. Disponível em UPR Info.
Etimologia e sentido do termo
Origem linguística A origem mais aceita para o etnônimo é a derivação do termo tidorense halefuru, geralmente analisado como a combinação de hale (“terra, região”) e furu (“bravio, selvagem”), usado originalmente em contextos locais para designar territórios e populações do interior vistos como “indomados” ou “não submetidos”.M.J. van Baarda, Woordenlijst Galelareesch‑Hollandsche. Met ethnologische aanteekeningen, op de woorden, die daartoe aanleiding gaven, 's‑Gravenhage, Martinus Nijhoff, 1895.Compilação em japonês: “アルフルの人々 (Alfur people)”, HiSoUR – History of Art and Culture. Disponível em: . A partir do domínio político dos sultanatos de Tidore e Ternate sobre partes das Molucas, o vocábulo foi difundido em malaio e adotado por navegadores portugueses, espanhóis e Neerlandeses, que passaram a empregá‑lo em crônicas, mapas e relatórios administrativos.M.J. van Baarda, Woordenlijst Galelareesch‑Hollandsche, op. cit.Adolf Bernhard Meyer, Über die Namen Papúa, Dajak und Alfuren, op. cit.
Autores dos séculos XIX e início do XX também aventaram etimologias alternativas a partir de formas ibéricas ou árabes, mas a derivação tidorense tornou‑se a hipótese preferencial na linguística histórica e na etnografia neerlandesa sobre as Molucas.Chris Ballard, “'Oceanic Negroes'…”, op. cit., p. 184.
Uso colonial e critérios de classificação Nas fontes coloniais a palavra aparece com grande variedade gráfica – Alfur, Alfuro, Alfuros, Alfures, Alifuru, Horaforas, Alfoeren – e é usada de modo muito abrangente. Relatos neerlandeses do século XIX indicam que, na prática, ser ou não ser “Alfur” era definido principalmente por critérios religiosos: comunidades que abandonavam o “paganismo” e adotavam Cristianismo ou Islã deixavam de ser classificadas como Alfuren, independentemente de origem “racial” ou filiação linguística.S.C.J.W. van Musschenbroek, “Toelichtingen, behoorende bij de kaart van de bocht van Tomini of Gorontalo...”, Tijdschrift van het Aardrijkskundig Genootschap, vol. 4, 1880, p. 94, nota 1.
Nesse sentido, o termo passou a funcionar como marcador de contraste entre povos “interioranos”, animistas e politicamente autônomos, de um lado, e populações costeiras islamizadas ou cristianizadas, mais integradas às redes de comércio e ao aparato colonial, de outro.Adolf Bernhard Meyer, Über die Namen Papúa, Dajak und Alfuren, op. cit.Anton Ploeg, “De Papoea; What’s in a name?”, op. cit. Dicionários e gazeteiros etnográficos de língua inglesa e neerlandesa sintetizaram esse uso, definindo Alfuren como “povos aborígenes do interior das Molucas e de partes de Celebes”, frequentemente de “tipo melanésio” e de filiação religiosa não islâmica.“Alfur”, em Merriam‑Webster Dictionary, op. cit.A.N. ”Alfur, Alfour, Alfuru, or Alifur, a general term applied to the natives of the interior”, em: Sydney J. Hickson, A Naturalist in North Celebes, Londres, John Murray, 1889 (ed. digital), p. 278. Texto integral disponível via Staatsbibliothek zu Berlin.
Estudos recentes enfatizam que Alfur/Alifuru deve ser entendido como categoria relacional – uma forma de nomear populações que escapavam ao controle efetivo dos sultanatos e do Estado colonial, mais do que um “grupo étnico” definido por língua ou cultura comuns.Chris Ballard, “'Oceanic Negroes'…”, op. cit.Bima Satria Putra, Anarchy in Alifuru: The History of Stateless Societies in the Maluku Islands, Minor Compositions, 2026 (pré‑publicação em ).
Valor etnológico do termo Já no fim do século XIX alguns etnólogos neerlandeses e alemães advertiam que Alfur tinha pouco valor classificatório, por englobar povos de origens e línguas distintas, unidos apenas pelo fato de não terem abraçado uma religião “mundial” ou de residirem fora da órbita imediata dos centros costeiros.Georg Friederici, Wissenschaftliche Ergebnisse einer amtlichen Forschungsreise nach dem Bismarck‑Archipel im Jahre 1908, Berlin, Mittler & Sohn, 1912.
Autores contemporâneos como Anton Ploeg e Chris Ballard retomam essa crítica e analisam Alfur ao lado de termos como Papoea e Dayak como rótulos coloniais essencializantes, que organizam uma diversidade muito maior de identidades locais sob categorias amplas e frequentemente pejorativas.Anton Ploeg, “De Papoea; What’s in a name?”, op. cit.Chris Ballard, “'Oceanic Negroes'…”, op. cit. Em consequência, parte da literatura recente opta por usar Alifuru apenas em contexto histórico‑crítico ou quando referido a usos autodeclarados por movimentos indígenas nas Molucas.
Distribuição geográfica e povos abrangidos
Molucas centrais e setentrionais Historicamente, o núcleo de aplicação do etnônimo situa‑se no arquipélago das Molucas. Cronistas como Alfred Russel Wallace referem‑se aos Alfuros como os “verdadeiros indígenas” do interior de Halmahera (Gilolo), em contraste com populações costeiras islamizadas.Alfred Russel Wallace, The Malay Archipelago, Londres, Macmillan, 1869, cap. 22 (ed. digital em diversas plataformas de domínio público). Em Seram, uma série de grupos de língua austronésia – como Nuaulu, Manusela, Alune, Wemale e outros – foram muitas vezes classificados por funcionários coloniais como Alifuru devido à sua localização em áreas florestais e à manutenção de religiões tradicionais.Roy Ellen, Nuaulu Religious Practices: The Frequency and Reproduction of Rituals in a Moluccan Society, Leiden, KITLV Press, 2012 (OAPEN e‑book).Eduardo Erlangga Drestanta, “Customary Village (Desa Adat)...”, op. cit., p. 109–120.
Em Seram, a administração neerlandesa do início do século XX passou a distinguir formalmente, em seus mapas e relatórios, três tipos de povoamento: “aldeias protestantes”, “aldeias muçulmanas” e “aldeias Alifuru”, estas últimas associadas a comunidades interioranas animistas.Eduardo Erlangga Drestanta, “Customary Village (Desa Adat)...”, op. cit., p. 115–117 (com remissão a Roy Ellen, 2002, e R.F.L. Cooley, 1966). Em Buru e em ilhas menores vizinhas, o termo aparece em fontes missionárias e administrativas com sentido semelhante, marcando uma oposição entre litoral e interior.Dieter Bartels, In de schaduw van de berg Nunusaku: Een cultuur‑historische verhandeling over de bevolking van de Midden‑Molukken, Utrecht, LSEM, 1994.
Sulawesi e regiões vizinhas Fora das Molucas, Alfur foi aplicado de modo mais restrito, mas ainda significativo, a populações do interior de Sulawesi, em especial no norte (região de Minahasa) e em partes de Sulawesi Central. Em relatos de viagem de fins do século XIX sobre Celebes, “Alfuru ou Alifur” é descrito como “termo geral aplicado aos nativos do interior”, em contraste com vilas costeiras cristianizadas ou islamizadas.Sydney J. Hickson, A Naturalist in North Celebes, Londres, John Murray, 1889, p. 278. Pesquisas recentes em história anarquista e decolonial, como o livro de Bima Satria Putra, enfatizam que, em certas fontes portuguesas e neerlandesas, o termo se estendia a outros povos “interioranos” não islamizados de Celebes e até de partes da Nova Guiné Ocidental e do mar de Arafura.Bima Satria Putra, Anarchy in Alifuru…, op. cit.
Papuas e outros usos amplos Anton Ploeg mostrou que, até o início do século XX, alguns autores europeus usavam Alfur também para designar genericamente populações de tipo “papua” em Nova Guiné, muitas vezes de forma intercambiável com o próprio termo Papoea e sem grande precisão geográfica.Anton Ploeg, “De Papoea; What’s in a name?”, op. cit. Essa elasticidade semântica revela que, mais do que um etnônimo estrito, Alfur funcionava como categoria residual para povos vistos como “selvagens”, “pagãos” ou “de difícil acesso” em grande parte da Insulíndia oriental.
Organização social, aldeias e adat A diversidade de grupos incluídos sob o rótulo Alfur torna impossível descrever uma organização social “típica” que valha para todos eles. No entanto, estudos etnográficos das Molucas centrais permitem identificar alguns traços recorrentes entre comunidades interioranas às quais a designação foi aplicada.
Em Seram e em partes de Ambon‑Lease, a vida social tradicional está estruturada em torno da aldeia (negeri), subdividida em unidades residenciais e de descendência conhecidas como soa (agrupamentos de casas/clãs), e em categorias de casa e de terra (mata rumah, dati).R.F.L. Cooley, Altar and Throne in Central Moluccan Societies: A Study of the Relationship Between the Institutions of Religion and the Institutions of Local Government in a Traditional Society Undergoing Rapid Social Change, PhD thesis, Yale University, 1961; idem, “Village Government in the Central Moluccas”, Indonesia, n.º 7, 1969, p. 138–163.Eduardo Erlangga Drestanta, “Customary Village (Desa Adat)...”, op. cit., p. 121–126. Essas unidades são regidas por normas costumeiras (adat), que regulam acesso à terra, sucessão a cargos rituais e políticos, casamento, trocas e resolução de conflitos.
Redes de alianças inter‑aldeias, como os sistemas de pela e gandong, também são centrais nas Molucas centrais. Dieter Bartels demonstrou que essas alianças – que ligam aldeias de religiões distintas (muçulmanas, cristãs e “Alifuru”) – funcionam como mecanismos de solidariedade ritual, apoio mútuo e, em certos contextos, como estrutura de pacificação de conflitos.Dieter Bartels, “Pela Alliances in the Central Moluccas and in the Netherlands: A Brief Guide for Beginners”, texto em: Nunusaku Ethnofilm. Em muitos casos, aldeias interioranas classificadas como Alifuru participam dessas redes em posição assimétrica em relação a aldeias costeiras cristãs ou muçulmanas, o que gera tensões em torno de reconhecimento e de direitos sobre territórios e recursos.Eduardo Erlangga Drestanta, “Customary Village (Desa Adat)...”, op. cit.
Religiões tradicionais, cristianização e islamização