Sociologia relacional parte do princípio de que as relações sociais são o centro de criação, manutenção e transformação dos indivíduos e das estruturas sociais ao longo do tempo. Isso quer dizer que nem o indivíduo nem a sociedade existem por si mesmos, mas apenas por meio de suas relações mútuas e constitutivas.DONATI Pierpaolo (2011). "Relational Sociology: A New Paradigm for the Social Sciences." New York: Routledge.EMIRBAYER, Mustafa (1997). "Manifesto for a Relational Sociology". American Journal of Sociology, 103(2), p. 281-317.

Não se trata de uma grande teoria unificadora, mas de um conjunto diversificado de abordagens sociológicas — para analisar o mundo social — que compartilham do mesmo princípio fundamental.

Conceitos e princípios miniaturadaimagem|340x340px|Representação gráfica das relações sociais entre os 34 integrantes de um clube de caratê. Cada ponto (ou nó) representa um indivíduo, e uma linha é traçada entre dois pontos sempre que essas pessoas mantinham interações regulares fora dos contextos formais das aulas, treinos ou reuniões do clube. Cada linha desse tipo é chamada de aresta (edge), e representa um vínculo social identificado empiricamente entre os membrosZACHARY, Wayne W. (1977) “An Information Flow Model for Conflict and Fission in Small Groups.” Journal of Anthropological Research, 33(4), , pp. 452–473. DOI: 10.1086/jar.33.4.3629752. A análise de redes sociais é uma estratégia metodológica da sociologia relacional.

Como a sociologia relacional entende a realidade social A sociologia relacional parte da ideia de que as relações são a base da vida social. Em vez de considerar indivíduos e estruturas como elementos isolados, ela entende que ambos emergem e se transformam dentro das relações que estabelecem entre si. Essas relações possuem existência própria e podem gerar efeitos que não se reduzem às intenções ou características dos participantes.EMIRBAYER, Mustafa (1927). "What Is Relational Sociology?" American Journal of Sociology, 103(2). DOI: 10.1086/231209

Como se conhece o social por meio das relações O pensamento relacional propõe uma mudança de perspectiva: em vez de perguntar “o que é” um fenômeno social, pergunta-se “como ele se relaciona” com outros fenômenos. Essa abordagem substitui categorias fixas — como indivíduo, grupo ou sociedade — por redes dinâmicas de interdependência. Assim, compreender um fato social significa analisar as conexões que o sustentam e o modo como se transforma no tempo.DÉPELTEAU, François (2013). "What Is the Direction of the “Relational Turn”? In: POWELL, Christopher; DÉPELTEAU, François (orgs.). Conceptualizing Relational Sociology. Ontological and Theoretical Issues. New York: Palgrave Macmillan, p. 163-185.

Como se estuda o social nas relações Do ponto de vista metodológico, a sociologia relacional utiliza técnicas que capturam interdependências e processos em vez de variáveis isoladas. Entre os métodos mais empregados estão a análise de redes sociais, a etnografia relacional e a modelagem de interações, que permitem observar como as relações se formam, se estabilizam e se transformam ao longo do tempo.

Origens e desenvolvimento As raízes da sociologia relacional possui sistema teórico complementar que pode ser rastreado por quatro pensadores clássicos: Karl Marx, Georg Simmel, Gabriel Tarde e Marcel Mauss.VANDENBERGHE, Frédéric (2017). "A Relação como Operador Mágico. Superando a divisão entre sociologia processual e relacional". Sociologia & Antropologia, 7(2), p. 341-370. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/2238-38752016v722

Karl Marx e o estruturalismo relacional Karl Marx fornece a base para o estruturalismo relacional através de sua análise do fetichismo da mercadoria.MARX, Karl (2013) . "O Capital: crítica da economia política. Livro I: O processo de produção do capital". Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo. p. 113-158. Ele demonstra que as mercadorias não devem ser compreendidas como objetos isolados, mas como cristalizações de relações sociais de produção. Um par de sapatos, por exemplo, materializa a rede complexa de trabalho e interdependências entre fazendeiro, curtidor, sapateiro, comerciante e consumidor — suas jornadas, salários, condições de trabalho e relações de poder. O termo "cristalização" indica que a mercadoria solidifica e torna visível, sob forma objetiva, relações sociais que ocorreram no tempo. Como afirma Marx, "uma relação social determinada entre as pessoas aparece na forma fantasmagórica de uma relação entre coisas": as relações humanas tornam-se invisíveis, enquanto vemos apenas objetos trocando-se por outros objetos. Marx assim demonstra que os agentes econômicos não são indivíduos isolados, mas estão inseridos em redes de interdependência onde cada um produz relacionalmente, uns para os outros e uns através dos outros.

Georg Simmel e as formas de associação Georg Simmel contribui definindo a sociologia como o estudo das "formas de associação" (Vergesellschaftung). Ele dissolve a sociedade ao afirmar que cada elemento do mundo pode ser analisado a partir de múltiplas perspectivas relacionais (Wechselwirkungen).SIMMEL, Georg (2006) . "Questões fundamentais da sociologia: indivíduo e sociedade". Tradução de Pedro Caldas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.SIMMEL, Georg (1983) . "O problema da sociologia". In: MORAES FILHO, Evaristo de (org.). Georg Simmel: Sociologia. São Paulo: Ática (Coleção Grandes Cientistas Sociais, v. 34), p. 150-164. Ele usa o exemplo do dinheiro, que pode ser compreendido simultaneamente sob o ângulo econômico (como meio de troca), sociológico (como estruturador de hierarquias), psicológico (como objeto de desejo) ou filosófico (como símbolo da abstração moderna). Cada uma dessas perspectivas revela diferentes relações que o fenômeno "dinheiro" mantém com outros elementos da realidade. A unidade desses múltiplos aspectos não é "substantiva" - isto é, não deriva de uma essência fixa ou de uma "coisa em si" -, mas sim estrutural e processual. Estrutural porque o significado emerge da posição do elemento numa rede de relações; processual porque se define pelos processos em que participa. Por exemplo, uma cadeira não existe primordialmente como "objeto de madeira com quatro pernas", mas como o conjunto integrado de suas relações: suporte ergonômico na relação com o corpo, elemento decorativo na relação com o ambiente, mercadoria na relação com a economia, testemunho histórico na relação com o tempo, forma estética na relação com a arte. Para Simmel, o pensamento é a operação que conecta, relaciona e integra esses fragmentos de perspectivas em uma unidade coerente. Esta abordagem desloca radicalmente o foco da investigação, quer dizer, em vez de perguntar "o que é esta coisa?", Simmel pergunta "como esta coisa se relaciona com tudo o mais?"

Gabriel Tarde: imitação, simpatia e difusão miniaturadaimagem|530x530px|"A constelação de Órion, da cabeça aos pés" (Orion Head to Toe) Qualquer elemento social, por menor que seja, já constitui em si mesmo uma sociedade de elementos ainda menores em interação. Para onde quer que se olhe - células, sociedades humanas, estrelas, encontram-se apenas diferenças que ressoam, se comunicam e se inter-relacionam. Gabriel Tarde contribuiu para a sociologia relacional com três núcleos fundamentais. Primeiro, ao inverter a perspectiva de Emile Durkheim: enquanto este propunha "tratar os fatos sociais como coisas",DURKHEIM, Émile (2007) . "As Regras do Método Sociológico". Tradução de Paulo Neves. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes. Tarde afirma que "toda coisa é um fato social" - isto é, toda coisa já é uma sociedade em si mesma.TARDE, Gabriel (1978) . "As leis da imitação". Porto: Rés Editora.TARDE, Gabriel (2007) . "Monadologia e Sociologia". Tradução de Paulo Neves. São Paulo: Cosac Naify. Assim, ele inverte a relação indivíduo/sociedade, descendo ao nível molecular da realidade: qualquer elemento social, por menor que seja, já constitui em si mesmo uma sociedade de elementos ainda menores em interação. Uma mesa, por exemplo, é uma sociedade de moléculas de madeira, mas milhares de átomos individuais entrando em ressonância. Assim, para onde quer que se olhe - células, sociedades humanas, estrelas, encontram-se apenas diferenças que ressoam, se comunicam e se inter-relacionam. Com tudo isso, ele quer dizer que cada coisa tem seu princípio interno de desenvolvimento - cada semente de carvalho tem em si mesmo seu projeto de desenvolvimento, que é tornar-se um carvalho, sem precisar de instruções externas, tem autonomia e espontaneidade. Não uma ordem derivada de símbolos e normas compartilhados existentes no nível coletivo (como entende Durkheim).

O segundo, ao propor três "mecanismos" explicativos da coordenação das relações: 1) imitação (um indivíduo copia outro, gerando ondas de propagação), 2) simpatia (ressonância afetiva direta entre as unidades mínimas) e, 3) difusão (espalhamento de crenças e desejos como ondas pelo tecido social). Ou seja, a coordenação das interações se dá sem representação coletiva. Uma moda se espalha não por haver uma "norma coletiva" prévia, mas pela cascata de imitações que gera padrões emergentes da própria dinâmica de contágio; numa multidão assistindo a um show, há apenas milhares de átomos individuais (pessoas), cada um com seus desejos, crenças, percepções que entram em ressonância uns com os outros através de imitação (copiar gestos, gritos) e contágio afetivo (entusiasmo se espalhando) gerando co-vibração do desejo. Não há uma "consciência coletiva" que paira sobre todos (como afirma Durkheim).

O terceiro, Tarde explica a estrutura social como fluxo contínuo, sem hierarquias entre micro e macro, indivíduo e sociedade, tudo existiria no mesmo "plano", onde as estruturas aparentes - a multidão, a amizade - são apenas cristalizações temporárias desses fluxos contínuos. Para entender essa ideia de temporalidade como fluxo contínuo podemos ir até o filósofo pré-socrático Heráclito, que também privilegiava os processos e relações no lugar de entidades fixas. A ele é atribuído o ditado "Águas sempre novas fluem sobre aqueles que entram nos mesmos rios", do qual emerge o "tudo flui".

Marcel Mauss e a teoria da dádiva miniaturadaimagem|512x512px|Dois pilões, Ilhas Trobriand, Província de Milne Bay, região de Massim, Papua-Nova Guiné, início do século XX. Madeira entalhada com vestígios de cal. Museu de Arte de Honolulu. Dar, receber e retribuir criam relações sociais de reciprocidade. O antropólogo Marcel Mauss estabelece o simbolismo relacional através da "teoria da dádiva". Em Ensaio sobre a Dádiva (1923-1924) demonstrou que as relações entre pessoas são sempre mediadas por representações simbólicas, invertendo Marx ao mostrar que "as relações entre as coisas são sempre relações entre pessoas".MAUSS, Marcel (2003) . "Ensaio sobre a dádiva". In: Sociologia e Antropologia. Tradução de Paulo Neves. São Paulo: Cosac Naify, p. 183-314. A reciprocidade obrigatória (dar, receber, retribuir) emerge como motor universal da sociedade, constituindo redes de solidariedade e rivalidade mediadas simbolicamente. Recusar-se a dar significa excluir-se da comunidade; recusar-se a receber constitui uma ofensa; e não retribuir equivale a uma traição do vínculo social. Assim, a reciprocidade é o fundamento que impede a dissolução das relações sociais e o colapso no individualismo atomizado. Nas sociedades modernas encontramos reciprocidade, por exemplo, nos sistemas de previdência, os jovens contribuem porque se aposentarão no futuro; editores contribuem para a Wikipédia gratuitamente, recebendo de volta conhecimento coletivo.

Pierre Bourdieu e o método relacional